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Coronavírus e intolerância religiosa

Por Bàbá Deá Odé (*) | 03/07/2020 15:45

No dia 28 de junho, o Ilè Àse Ojú Odé realizou em sua casa o Ajodun Esú ati Ogún, com a presença exclusiva dos filhos da nossa comunidade, o qual teve seu ritual exposto através de um vídeo hackeado e enviado à imprensa, que fez a denúncia, gerando repercussão negativa quanto ao fato da celebração de rituais durante o período de pandemia do Covid-19, provocando a discussão acerca da Intolerância Religiosa em períodos de Pandemia, dentro e fora da comunidade religiosa.

A Intolerância Religiosa é um conjunto de ideologias e atitudes ofensivas a crenças e práticas religiosas ou mesmo a quem não segue uma religião. É um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana. Em situações extremas, a intolerância religiosa pode se tornar inclusive uma perseguição.

Atualmente é o que mais vemos, principalmente entre adeptos da mesma religião, que para legitimarem sua forma de culto, denigrem a imagem do irmão. Tal atitude não deixa de ser considerado um ato de intolerância religiosa, pois tal ato incita outras pessoas a agirem da mesma forma, criando um ambiente hostil dentro das relações inter-religiosas, bem como para com a sociedade.

Neste sentido é que se deu a denúncia realizada em dias passados, onde um vídeo gravado por um dos filhos da casa, durante o momento litúrgico, foi utilizado para denunciar uma suposta aglomeração, sem qualquer prevenção à situação pandêmica, ocasionando uma grande repercussão dentro do meio religioso, bem como represália a pessoas que foram identificadas através do vídeo postado.

O vídeo divulgado, mesmo com a tentativa frustrada de borrar a mesmo, provocou a demissão de uma filha de seu emprego, e a advertência de outro. Toda uma situação provocada por uma suposta denúncia de outro líder religioso.

É sabido que por Decreto Municipal, a prática de atividades religiosas durante a pandemia é permitida, desde que atenda as medidas de segurança, quais sejam: utilização de máscaras, disponibilização de álcool em gel, sabão, disposição de informativos acerca da higienização e prevenção ao Coronavírus, bem como o distanciamento de 1,5 metros entre as pessoas, medidas estas que qualquer entidade religiosa que deseje permanecer com suas portas abertas, devem obedecer.

Utilizar-se de um momento de instabilidade social, para denunciar, atacar, denegrir a imagem de entidades religiosas que prestam sua colaboração à comunidade que atendem, é considerado um tipo de perseguição, principalmente quando se trata de levar à publico inverdades, fortalecendo ainda mais um assunto tão debatido, e que deveria ser combatido, que é a Intolerância Religiosa.

Entende-se que uma Liderança Religiosa não deve promover perseguição a outras casas, mas sim a congregação das casas e/ou religiões, e caso houvesse veracidade nos fatos, a denúncia deve ser feita sempre aos órgãos competentes, e não ter exposto os adeptos da religião de forma leviana, principalmente quando se trata de exposição do Sagrado, como no caso do vídeo em questão, houve a exibição de Orixás manifestados em seres humanos, o que dentro das religiões de Umbanda e Candomblé é terminantemente proibido.

Quando se observa que denúncias como a realizada é feita somente com religiões de matriz afro-ameríndias, percebe-se que o preconceito e a intolerância estão arraigadas à ancestralidade que estas religiões carregam, onde a sociedade ainda necessita exercitar o respeito às crenças de cada um.

No dia em questão, mesmo se tratando de um rito interno voltado somente aos membros da casa, o Ilè Àse Ojú Odé tomou todas as medidas de prevenção orientadas pela Secretaria de Saúde do Município, e em conformidade com as orientações dadas pela OMS, reiterando o nosso compromisso com a sociedade e a manutenção da vida, o que pode ser comprovado através da própria Guarda Municipal, que ao apurar a denúncia constatou que não havia aglomeração, respeitando o nosso direito de culto, assegurado constitucionalmente e por Decreto Municipal.

Assim sendo, vemos com tristeza o posicionamento de pessoas que dizem ser lideranças religiosas, mas que ao invés de promoverem a união entre as religiões, e povos de terreiro, acabam por disseminar inverdades, provocando dissabores na comunidade de povos de terreiro, uma vez que a mesma atingiu âmbito nacional, causando danos morais e materiais a filhos de nosso Axé.

Somos uma casa com mais de 20 anos de tradição, tendo filhos espalhados por todo Brasil, agindo sempre com responsabilidade e em prol da vida. Ter nossa imagem maculada por notícias falsas e por intolerantes provoca em nós a vontade de militarmos cada vez mais em prol da igualdade religiosa, pois ninguém merece ser perseguido, seja dentro ou fora de sua religião. Intolerância Religiosa é crime, precisamos combater!

(*) Bàbá Deá Odé é Bàbáloorisa, dirigente da casa de candomblé, Ilè Àse Ojú Odé.