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Desespero em tempos de crise: o que há de humano em meio à barbárie?

Por Cláudia Cobalchini (*) | 31/03/2020 14:01

O momento atual que estamos vivendo nos permite observações interessantes acerca do comportamento humano - e o que não dá para negar é a força social exercida sobre o indivíduo. Primeiro, pelo bombardeio de informações de fontes diversas, algumas confiáveis, outras nem tanto, mas que chegam à população com status de verdade e a colocam em um movimento de “barata tonta”, com a pergunta “corro para onde”? Somos alvejados cotidianamente pelas posições sensacionalistas daqueles que ou têm em mente o intuito de manipular as informações, ou por aqueles que estão desesperados e, desenfreadamente, reproduzem-nas sem buscar conhecer as fontes ou ponderar a lógica do que está sendo veiculado. E diante disto, que parece um caos, ou melhor, uma “torre de Babel” com muitas “línguas” sendo faladas ao mesmo tempo, mas não sendo compreendidas, instala-se um comportamento coletivo de “histeria” (denominariam alguns colegas), em que sem nem bem saber porque, seguem a “onda”.

Assim tem se apresentado o cenário mediante uma crise instaurada na saúde, cujas consequências atingem os âmbitos econômico, cultural, geopolítico, dentre outros. As pessoas mantêm comportamento tanto de avidez pela informação sobre os trágicos efeitos de uma epidemia (já pandêmica), como alimentam atitudes de discriminação (preconceitos) em relação ao que consideram a origem do problema, de egocentrismo na busca da garantia de seu bem estar em detrimento dos demais (vide as compras desenfreadas, brigas por artigos de higiene), acirrando as desigualdades sociais tão presentes em sociedades capitalistas. A saúde, nesse contexto, compreendida como produto, é o mote da vez: com a corrida em busca da “cura” (vacina ou controle), há nações que querem chegar antes, sem considerar as outras como seus pares, quase num conflito armado.

Então podemos questionar para que existem as crises. Elas representam a possibilidade de ruptura de algo que já estava nos “trilhos”. Servem para questionar o que aparentemente estava em ordem, ou deflagram o que já não estava bem (mas ainda estava no escuro). Mesmo que o momento de ver sob a luz seja dolorido, o conhecimento - ou o reconhecimento - de que algo não está bem e impele mudanças, também pode ser libertador. Dessa forma, o que temos visto é a deflagração do que há de mais humano, os processos de identificação (no sentido de se sentir o mesmo) e de diferenciação (de comparação e distanciamento), que se apresentam como uma luta por sobrevivência (para alguns a qualquer preço, pois a civilidade depende de educação social - precisa ser aprendida para convivência em sociedade). A diferença é de que nível de sobrevivência estamos falando. Há possibilidade de viver sozinho? Fazemo-nos pelas relações sociais. Estas nos constituem. Então, se vivo interações de reconhecimento, consigo exercitar a empatia, a alteridade, com mais propriedade do que aqueles que foram privados dessa aprendizagem.

Em um sistema que teima ideologicamente em disseminar a individualidade como ideal a ser conquistado, inibe-se o “espírito” gregário, de identificação sobre a mesma “natureza” (somos feitos de sangue e carne, que dói, que chora, que se apaixona...). A quem serve destituir o valor social de nossa constituição? A um plano de governança que nos quer ver digladiando, lutando pelo espaço, pela comida, pela água, ao preço de uma necropolítica, do genocídio, da miséria…

A condição de humanidade precisa ser conscientemente alvo de aprendizagem, com a proposição da valoração de cada um no coletivo, e deste manifestando-se em cada eu. A história nos ensina: os processos grupais são importantes para o movimento das sociedades, tanto na evolução (de construção de novas tecnologias, de melhorias para qualidade de vida, de garantia de direitos), como para obstrução do desenvolvimento (ao diferenciar grupos sociais no acesso a bens, ao não garantir equidade, ao incitar a violência). A aposta agora pode se dar na produção de condições que valorizem a solidariedade e a aprendizagem mútua.

(*) Cláudia Cibele Bitdinger Cobalchini é psicóloga e mestre em Psicologia da Infância e Adolescência pela UFPR.