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Feminismo não é mimimi

Por Lidice Leão | 22/07/2018 14:32

“Quando eu era estagiária, a advogada com quem eu trabalhava dizia para eu despachar com o juiz fazendo ‘voz de veludo’”. “Aniversário da empresa, os cinco diretores – todos homens – discursaram e, na hora de cortar o bolo, perguntaram: tem alguma mulher que possa nos ajudar nisso?”. “Eu era uma profissional em início de carreira e meu chefe fazia ‘brincadeiras’ comigo com ‘elogios’ agressivos. ‘Delícia’ e ‘filé’ eram apenas dois deles. Me convidava para jantar insistentemente. Constrangida e com medo, fui pedir ajuda ao RH. Resultado: acabei transferida para a madrugada”.

“Eu tinha cargo de gerência e, por determinação do superintendente, fui comunicar a um funcionário que ele mudaria de tarefa. O colaborador só não me agrediu fisicamente porque colegas da sala ao lado o impediram. O caso chegou ao RH, fui chamada, advertida e o tal homem – que já tinha histórico de atitudes agressivas contra outras duas chefes – mudou de setor. Meses depois fui demitida e o colaborador-agressor retornou ao departamento pela porta da frente”.

“Eu era apresentadora titular do telejornal de uma emissora de TV ao lado de um homem. Sempre cabia a ele dar o ‘boa noite’ que iniciava a transmissão. Aos fins de semana, quando o meu companheiro de bancada estava de folga e eu de plantão, ao lado de um outro jornalista que só apresentava uma vez por mês, cabia a ele o tal ‘boa noite’. Quando questionei minha chefia, ouvi que o jornal tinha que ser iniciado por um homem e ainda ouvi uma grosseria: ‘uma mulher não pode começar. Enfraquece o telejornal’”.

Os relatos acima são reais, feitos por mulheres que atuam em áreas profissionais diversas e foram escolhidos para adornar este artigo na semana em que se comemora o Dia do Trabalho. Bastou que fosse feito um pedido em grupos de WhasApp para que mulheres descrevessem incontáveis casos de comportamentos machistas em ambientes de trabalho.

Violência doméstica, estupros, assédio sexual são exemplos mais ostensivos do machismo covarde a ser combatido, não só pelas lutas feministas, mas também pelas autoridades políticas e jurídicas. E o feminismo também fica atento a atitudes veladas, que parecem inofensivas, de tanto que foram naturalizadas por décadas de sociedade patriarcal. Período em que sobram discursos de desqualificação das lutas feministas, que rotulam o feminismo como frescura e recurso de “mulher mal-amada”.

Mesmo representando mais da metade da população em idade economicamente ativa, as mulheres são apenas 43% dos trabalhadores brasileiros. E, quanto mais alto ela quiser chegar, mais obstáculos vai encontrar: apenas 37% dos cargos de direção e gerência têm profissionais femininas. Dessas, somente 10% chegam às funções de presidente, vice-presidente ou CEO das corporações.

Mulheres ganham 76% do salário dos homens, em média. Na direção ou gerência, o índice cai para 68% dos rendimentos masculinos. A diferença de gênero está escancarada nas estatísticas e cifras.

Todas essas porcentagens endossam o que as protagonistas dos relatos acima aprenderam: os caminhos para as mulheres são cheios de julgamentos, fogueiras, artilharias e cacos de vidro. No entanto, feministas como Joana D’Arc; Maria Quitéria de Jesus – considerada a Joana D’Arc brasileira – que teve que se disfarçar de homem para lutar pela independência; Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica que desafiou os nazistas; Simone de Beauvoir, intelectual e feminista francesa; e, mais recentemente, a vereadora Marielle Franco legitimam a força e a capacidade feminina. Na semana em que se comemora o Dia do Trabalho, inspiram mulheres a chegar ao topo de onde quiserem. E fortalecem o grito de guerra: feminismo não é “mimimi”.

*Lidice Leão é jornalista - artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil 

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