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Janeiro branco para todos?

Por Leticia Maris Rodrigues da Silva Gomes (*) | 28/01/2022 13:30

A Psicologia corresponde a uma ciência do comportamento, que de maneira generalista e simplória, estuda a forma com que o indivíduo interage e reage às suas relações sociais.  Para muitos é tida como fundamental para o desenvolvimento do ser humano e, de fato, é, já que proporciona a possibilidade de olhar para dentro, isto é, a compreensão das questões pessoais com um olhar mais saudável.

Os aspectos acerca da saúde mental passaram a ser cada vez menos um tabu. O papel das redes sociais tem sido de suma importância para o assunto ser trazido à tona. Este mês por exemplo, é o mês da Campanha de Saúde Mental, denominada Janeiro Branco, que foi criado por Leonardo Abrahão e sua esposa Valéria Ribeiro, ambos Psicólogos e moradores de Uberlândia (MG). O objetivo é de ser um mês em que voltássemos as nossas atenções para a Saúde Mental e emocional, o que justifica a escolha do mês, que, segundo o autor, é um período de renovação dos objetivos e início de ciclos. A cor branca foi delineada por corresponder a um somatório de todas as cores, além de corresponder à metáfora de uma folha de papel, em que se pode criar o que se deseja.

É um mês que muito se fala sobre os transtornos mentais mais aparentes, sobre qualidade emocional de vida, projeto de vida e sobre a importância de se fazer terapia. Foram muitas as publicações, lives e entrevistas realizadas que tinham como finalidade incentivar os indivíduos a buscar atendimento profissional, o que é realmente de suma importância, mas nessa temática e durante a perspectiva desta autora, a problemática se encontra quando se venda os olhos para alguns aspectos importantes em detrimento de outros, ou para ressaltar apenas conteúdos mais evidentes.

Muito se fala sobre Depressão, de maneira generalista, mas pouco se reflete sobre a depressão entre a população preta vítima de racismo durante séculos, sobre a violência sobre os corpos pretos, sobre a saúde mental da população indigena ou saúde mental da população LGBTQIA+. Não é obrigação de nenhum profissional da área da Psicologia evidenciar e compartilhar tais aspectos em específico, mas a partir do momento em que se individualiza, estimula a medicamentalização e incentiva os indivíduos a buscarem o cuidado com a saúde mental de forma individual, isto é, desconsiderando os aspectos sociais que permeiam a vida dele, então, temos um problema.

Pensar na Saúde Mental é um ato individual, mas também inclui pensar na responsabilidade social, já que todos os indivíduos estão imersos em uma sociedade cheia de complicadores que podem interferir diretamente na saúde mental do sujeito. Pensar nas injustiças sociais, nas populações em situações de vulnerabilidade social, no trânsito, na fragilização das relações de trabalho, na situação política e econômica do país, no modo como lidamos com as minorias e populações em situação de vulnerabilidade, na forma com que a educação está sendo entregue às crianças, entre outras perspectivas, por mais que sejam ações individuais, refletem diretamente na vida do sujeito. E essa é a questão que merece destaque: nenhum ser humano é dissociado. Não se separa a saúde mental da saúde social. Aos Psicólogos, relembrem: o cuidado deve acontecer “dentro” e “fora” dos sujeitos e, sobretudo, “entre”, ou seja, em tudo o que diz respeito às suas relações sociais. No campo da Saúde Mental, para cuidar do outro é preciso olhar além dele.

(*) Leticia Maris Rodrigues da Silva Gomes é psicóloga.

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