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Luxo aos mensaleiros. Lixo aos policiais

Por Por Edmar Soares da Silva (*) | 19/11/2013 14:22

O pouco caso do Governo Federal para transladar a Mato Grosso do Sul o corpo do aluno a cabo Luís Pedro de Souza Gomes, morto no último dia 14 no distrito de Rio Pardo, em Porto Velho (RO), causa revolta. Sentimento que aumenta de maneira significativa ao vermos, ao mesmo tempo, os corruptos condenados pelo STF (Supremo Tribunal Federal) onerando ainda mais os cofres públicos ao serem levados de avião até Brasília (DF), onde cumprirão suas penas.

O Brasil, ao que parece, simplesmente ignora os apelos das multidões que foram às ruas, no meio deste ano, para cobrar mais saúde, justiça e, principalmente, o fim da corrupção. Após “acordar”, o Governo Federal fecha os olhos novamente e inflama um importante segmento de sustentação do poder: a segurança pública, que arrisca a própria vida para proteger a sociedade e se mostra indignada com o tratamento dispensado ao PM.

Não bastasse o luxo e tratamento cheio de dedos dado aos mensaleiros - Marcos Valério chegou a chamar um policial federal de “incompetente” durante sua prisão e não foi reprimido -, temos que nos deparar com uma situação ainda mais revoltante: somente depois de três dias, familiares e amigos do policial tombado na Amazônia puderam realizar o velório.

Enquanto os criminosos viajavam de avião e desacatavam policiais, um herói que defendia o Brasil teve que ser transladado em um avião emprestado pelo governo de Rondônia. Discrepância como essa, por mais justificada que seja, soa como um tapa na cara de toda a sociedade brasileira e perpetua o sentimento de impunidade que paira sobre o País - afinal, somente a ponta o iceberg mensaleiro vai para trás das grades após o julgamento.

O Governo Federal apoia e custeia movimentos sociais que pregam a desordem no campo e na cidade. Enquanto isso, os servidores da segurança pública são vistos como peças descartáveis. Fatos como esses são culpa exclusiva da inoperância da União, já que tais conflitos possuem cunho político.

Além disso, a falta de comprometimento do Governo Federal em melhorar os salários dos policiais nos estados da federação faz com que esses militares se submetam a deslocamentos para outros estados em missões de risco, em busca das diárias – que, muitas vezes, são migalhas perto de tamanha responsabilidade. Os membros da Força Nacional são designados pra locais que não conhecem, servindo de “guardas” da Policia Federal.

Atualmente, duas propostas tramitam no Congresso Nacional e visam melhorar as condições de trabalho dos servidores da segurança pública: a PEC 300, que institui o piso salarial nacional, e a PEC 24, que cria o Fundo de Desenvolvimento da Segurança Pública. Ambas encontram resistência nas bancadas governistas, tanto na Câmara quanto no Senado.

Paralelamente às dificuldades políticas, as polícias ainda encontram na grande mídia e em entidades de direitos humanos mais resistência. Enquanto a imprensa não poupa críticas e ainda mostra um fato de tamanha complexidade em segundos, os direitos humanos sequer se manifestam sobre o ocorrido. Esse silêncio todo permaneceria caso um invasor fosse morto pelo PM?

Além dos bandidos, os policiais enfrentam, diariamente, desmandos de superiores, descaso do poder público, falta de viaturas, fardamentos, condições de trabalho e falta de pessoal. A insatisfação é grande.

Estamos à beira de um colapso na segurança pública e, caso a atual política de valorização continue, não haverá policial que se anime para enfrentar os black blocs nas ruas, no ano que vem, durante a Copa do Mundo. Por isso, uma grande paralisação poderá ser desencadeada caso o Brasil não acorde novamente.

(*) Edmar Soares da Silva é presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiro Militar de Mato Grosso do Sul.

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