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No limiar das transformações

Por Benedicto Ismael Camargo Dutra (*) | 12/07/2020 09:07

Estamos adentrando no limiar em que a sociedade humana estará sujeita a crises de todas as espécies que ocorrerão com frequência. Tais eventos porão em evidência a estupidez dos homens em relação à própria vida e à sustentabilidade do Planeta. Se os governadores e prefeitos tivessem olhado mais para o Brasil e sua população maltratada, espremida no transporte para o trabalho e de bolso vazio, não teríamos chegado tão perto do abismo.

Entrou governo, saiu e repetiu governo, mas o saneamento foi ficando para depois. Há temores pela água. Na periferia de São Paulo a água encanada fica disponível poucas horas por dia. O novo marco regulatório do saneamento estabelece metas ousadas de abastecimento de água e saneamento para até o ano de 2033. Esperemos que surjam ações efetivas e não apenas tinta sobre papel como tantas outras regulamentações que não surtiram os resultados propostos.

Intrigante é o desequilíbrio econômico entre os países. O Brasil cometeu vários descuidos e acabou perdendo o terreno conquistado no avanço industrial. Foi cometido o erro de abrir o mercado sem o país estar preparado; em seguida foi introduzido o plano real que mantinha o dólar barato com juros elevados, tendo como consequência a importação de tudo e a exportação dos empregos. Todos dependem de exportações para obter dólares, enquanto para a população interna fica o que sobrar.

As fábricas se locomoveram para as regiões asiáticas de mão de obra farta e de baixo custo. Os países fortes conseguem exportar de tudo e vão acumulando reservas; os outros vão abrindo o mercado e importando de tudo sem conseguirem se fortalecer. Vários países da Europa produzem menos, dependendo muito das receitas do turismo ora interrompido.

As cadeias globais de produção de manufaturas e componentes foram aglutinadas nas regiões de mão de obra abundante e de baixo custo, desequilibrando as demais regiões, ampliando o atraso. Um exemplo é o do Brasil, que produz muito álcool, mas não espessante para o gel. Isso tudo teria de ser equacionado por homens sábios e patriotas que almejam a paz e o progresso da humanidade. Qual é a receita para sanar esse desequilíbrio que faz com que a precarização vá se espalhando pelo mundo? Se cada povo cuidar de seu país com responsabilidade, o planeta como um todo estará bem cuidado sem que seja necessário um governo mundial forte e impositivo.

Já no século 18, os países disputavam as riquezas para si utilizando-se de métodos torpes, como autorizar piratas corsários a saquear navios de outras nações para prejudicá-las, e também para obterem ganhos fabulosos com mercadorias, ouro e prata roubados. Na trajetória da humanidade, pouca coisa surgiu de benéfico para o aprimoramento.

As lutas pela conquista do domínio trouxeram desgraças e redução da atuação da livre vontade dos seres humanos que vão sendo conduzidos para um viver uniforme de servidão, perdendo a sua essência individualizada. Zé Ramalho já dizia: “povo marcado povo feliz.” Vida de gado: pão, circo com futebol, carnaval e cachaça, e agora erva também. Mas notamos que há um engano terrível, pois o gado está sendo marcado com medo e pânico; a população precisa é de esclarecimento, orientação, motivação. O medo paralisa e acaba criando revolta.

A especulação financeira campeou livremente onde quer que pudesse obter ganhos. Depois de intensas movimentações financeiras desordenadas, as engrenagens econômicas do mundo estão emperrando. As dificuldades vão perdurar além do que se poderia esperar enquanto na calada da noite se fazem tramas políticas contra o Brasil e sua população. Em 2020, o coronavírus chegou de repente, mas assim também há de passar; muitos não estarão mais na Terra; muitos continuarão do mesmo jeito na vida de gado; outros aproveitarão a oportunidade para refletir sobre o significado da vida, o autoaprimoramento e melhora do eu interior.

Precisamos do movimento certo indispensável à paz e à harmonia para manter o ser humano vigoroso. Falta o movimento permanente voltado para o bem, em equilíbrio entre o dar e o receber para uma vida sadia e alegre, construindo e beneficiando. O Brasil precisa de renovação e seriedade. Só com a sincera força de vontade de todos, voltada para o bem, é que teremos um país melhor.

(*) Benedicto Ismael Camargo Dutra é graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP, faz parte do Conselho de Administração do Hotel Transamerica Berrini, é articulista colaborador de jornais e realiza palestras sobre temas ligados à qualidade de vida.