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Campo Grande, Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2017

28/06/2016 15:45

O brinco do gado brasileiro

Por Luiz Carlos Ramos (*)

No Brasil de 20 anos atrás, boi de brinco poderia ser apenas personagem de ficção de filme infantil dos estúdios de Walt Disney. Hoje em dia, bois e vacas usam o brinco que simboliza controle e qualidade do rebanho nacional, uma garantia de segurança.

Esse sistema foi importado da Europa no fim dos anos 1990, quando surgiram suspeitas de que a doença da "vaca louca", responsável por inúmeros danos na Inglaterra, poderia atingir outros países. Com o tempo, ficou claro que a sadia fórmula brasileira de criar bois no pasto, com alimentação natural, já seria o antídoto contra o mal que dizimou rebanhos ingleses e fez vítimas fatais entre os consumidores europeus de carne.

Mas os debates ocorridos em Brasília há exatamente 17 anos, entre representantes do governo federal e da iniciativa privada, levaram à conclusão de que a rígida identificação de cada cabeça de gado por meio de brincos e de informática daria mais segurança também ao combate à febre aftosa e outras doenças. Além disso, o Brasil ampliaria sua credibilidade para a conquista de novos mercados de carne bovina na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. Não por acaso, um ano depois disso, quase a metade do território brasileiro foi declarada livre da febre aftosa na OIE (Organização Mundial de Saúde Animal), em Paris, abrindo caminho para que o Brasil chegasse à atual situação de maior exportador de carne e derivados do mundo.

Na atualidade, funciona muito bem, por parte do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) e dos fazendeiros, a forma de identificação de animais junto ao Sisbov (Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Bovinos e Bubalinos). Trata-se de um brinco inviolável para ser colocado na ponta da orelha de cada bovino, com a sigla do país e números que identificam o estado, o município, o criador e o animal, além de um código de barra para controle por computador, a exemplo do que também fazem a França, a Holanda, a Alemanha, a Inglaterra e outros países. Portanto, o brinco tem sido fundamental para que o animal, desde a condição de bezerro até o abate, tenha suas reais condições de saúde expostas, inclusive quanto à vacinação contra a aftosa.

Desde o ano 2000, o governo impõe tal modelo para todos os estados da União. O sistema original, porém, passou por mudanças. Em 2006, por exemplo, a Instrução Normativa nº 17 do Mapa já previa a marca de fogo junto a um brinco auricular como uma das formas de identificação, assim como o brinco auricular numa orelha e um brinco botão na outra orelha. Neste ano, ocorreu mais uma alteração: em 13 de abril, o Mapa oficializou portaria, por meio da Secretaria de Defesa Agropecuária, abrindo a possibilidade de o número de manejo Sisbov também ser marcado a ferro quente numa das pernas traseiras do animal. A mudança foi bem aceita por grande parte dos produtores rurais e das indústrias frigoríficas, mas há quem veja no primitivo sistema de marca a fogo uma tortura desnecessária do bovino. O brinco, por sua vez, é uma unanimidade nacional. Veio para ficar.

Como jornalista especializado em vários assuntos, entre os quais a agropecuária, tive a oportunidade de fazer a cobertura de uma histórica reunião, em 14 de julho de 1999, na sede da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), para o Suplemento Agrícola do jornal O Estado de S. Paulo. Na ocasião, houve um encontro entre o então diretor do Departamento de Defesa Animal do Ministério da Agricultura, Hamilton Ricardo Farias, e o presidente do Fórum Nacional Permanente da Pecuária de Corte, o pecuarista goiano Antenor Nogueira, além de representantes de governos de vários estados. A conclusão geral foi de que havia chegado mesmo a hora de implantar o brinco por meio do Sisbov.

O governo Fernando Henrique Cardoso, encerrando um período de seguidas trocas de ministros da Agricultura, anunciaria para a pasta, cinco dias depois, Marcus Vinicius Pratini de Moraes, que ficaria no cargo de 19 de julho de 1999 a 1º de janeiro de 2003, impondo estabilidade ao setor. Seus antecessores, no primeiro mandato de FHC, tiveram passagens rápidas pelo prédio de um dos mais importantes ministérios do Brasil: José Eduardo de Andrade Vieira (1 ano e 4 meses), Arlindo Porto (1 ano e 11 meses) e Francisco Turra (1 ano e 3 meses), além de três interinos.

Minha cobertura da reunião na CNA saiu numa página inteira do Suplemento Agrícola do Estado, jornal em que trabalhei -- em várias seções -- por 37 anos. Título da reportagem: "Boi pode usar brinco para controle da aftosa". A matéria foi ilustrada pelo desenho artístico de um boi, tendo à orelha um brinco do tipo do usado, na época, na Holanda.

E hoje compartilho com os leitores as lembranças de um debate em que o avanço da tecnologia começava a ser assimilado pelo Brasil em benefício da pecuária, da indústria da carne e da economia nacional. Algo que foi além dos planos: tornou-se uma grata realidade, atravessando os governos FHC, Lula, Dilma Rousseff e o interino Michel Temer. Acima dos partidos e das polêmicas entre políticos, a pecuária de corte e a indústria da carne seguem garantindo dólares e elevado conceito pelo mundo inteiro.

*Luiz Carlos Ramos é jornalista colaborador da CarneTec

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