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O perfume vem depois da flor

Por Ivo Carraro (*) | 01/12/2020 13:32

O tempo de vida. Tudo tem seu tempo. As flores que enfeitam o mundo logo murcham. A lâmpada que ilumina o espaço finito tem seu tempo. Há um tempo para a inocência da infância, assim como para os impulsos inovadores dos adolescentes. Há um tempo para a árvore frutífera produzir seus frutos e também para estes que embelezam as mesas e acariciam as bocas pelos seus doces sabores. Em Eclesiastes, um livro da Bíblia Sagrada, se encontra: “...há um tempo para todo propósito debaixo do céu. Existe um tempo certo para cada coisa, momento oportuno para cada propósito debaixo do Sol: tempo de nascer, tempo de morrer; tempo de plantar, tempo para colher. Tudo tem seu tempo determinado.”

Há que se refletir sobre a finitude que tanto assusta muitos humanos. Essa transitoriedade tem seu início na mais tenra idade de uma criança, quando, por forças de circunstâncias naturais, ela se afasta fisicamente da sua mãe para iniciar sua jornada acadêmica e, assim, idealizar a sua personalidade como sujeito da sua própria história. É a primeira perda presencial temporária sofrida.

Uma criança nasce com potencial de humanidade. Ela vai desenvolver essa potencialidade pelas suas experiências de vida. Na família, na escola, com os seus pares e na vida adulta, com as atividades laborais. Na medida em que o tempo passa por princípios neurocientíficos, pode-se postular que as pessoas se tornam o que são pelas suas experiências de vida. Tais vivências dizem respeito às conquistas, aos desejos - realizados ou não -, aos aplausos, às amizades, aos amores, às alegrias... mas também aos desatinos, às tristezas, às separações, às frustrações. Acrescente-se ainda que as experiências são necessárias para o desenvolvimento da inteligência humana, que será utilizada para lidar com o mundo. Seus desafios, seus ganhos e suas perdas também.

Não existe uma fórmula mágica para a elaboração do luto. Ele é uma experiência única e individual e vai depender, e muito, da história de vida de cada um. Como as pequenas ou grandes perdas ao longo da vida foram vivenciadas. Porque elas foram, de forma sutil, conscientizando de que, um dia, a morte final seria inevitável. Feliz daquele que consegue perceber isso. O sentimento de negação, de revolta, de injustiça, de raiva são partes inerentes diante da perda de quem se era próximo, cujos laços de união se alicerçavam na biologia, na estima, na amizade, na admiração ou no amor. Cada um vai para o outro lado da rua da vida no seu devido tempo.

Que se reflita que o luto é inevitável. Que vem, mas que também precisa ir, para não transformar-se em patologia, impedindo que a vida continue. Ele é prova dura. É um real que se manifesta no corpo e na mente. Que se compreenda que o luto é o preço que se paga por amar.

Para que exista o perfume, uma flor deverá ter existido. A flor que precede o perfume é como o ente querido que precede as suaves lembranças deixadas por ele enquanto em vida. A essência deixada. Que cada um, do seu jeito, troque a dor pela saudade para compreender e aceitar a perda final. O professor ensina e cobra o que ensinou nas provas para verificar se os seus alunos aprenderam. A vida cria os desafios para que cada um evolua, ou seja, a vida é o contrário do professor. Aquele, o professor, ensina e cobra. Esta, a vida, cobra e ensina.

Que se pense nisso.

(*) Ivo Carraro, é professor, psicólogo e orientador educacional no Curso Positivo.

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