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O que não se esperar do ano de 2021

Por Eduardo de Sousa Martins e Silva e José Carlos Rosa Pires de Souza (*) | 01/01/2021 08:18

O final de um ano é um período marcado, naturalmente, por muitas metas para o próximo, pela esperança de um futuro melhor e por uma avaliação do ano que está acabando. No entanto, o mundo não muda tanto do dia 31 de Dezembro para o dia 1 de Janeiro. Quase sempre, ainda temos que enfrentar as adversidades herdadas do ano anterior. Nesse sentido, não podemos nos iludir pensando que a pandemia de COVID-19 e suas consequências sociais, econômicas e sanitárias não impactarão o ano de 2021. Mais importante do que saber o que esperar do próximo ano, é saber o que não esperar.

Muitos brasileiros, principalmente os jovens, deixaram de se privar do contato social, como que num negacionismo coletivo; festas e outros eventos de grande porte clandestinos se tornaram parte dos noticiários; o número de mortos pela COVID-19, que, no Brasil, ultrapassa 190 mil pessoas, tornou-se para alguns somente isto, um número. As pessoas cada vez mais têm adotado condutas irresponsáveis e inquietantes, não se preocupando tanto com o peso de suas ações. As festas de final de ano, diante disso, que, presumivelmente, deveriam ser feitas de forma diferente neste ano, com menos pessoas e mais segurança, acabam por aumentarem a preocupação das autoridades quanto a um aumento expressivo dos casos de contaminação pós-final de ano, pois uma parcela grande da população não está mais se importando com as restrições sociais. Podemos esperar, portanto, que as ocorrências de contaminação no início do ano que vem aumentem bastante.

Haverá, sem dúvida, um intenso fenômeno mundial de vacinação, mas ainda teremos que praticar o distanciamento social, o uso de máscara, a lavagem das mãos e o bom senso por muito tempo, até que, de fato, consigamos imunizar uma parcela considerável da população para que tenhamos “imunidade de rebanho” (fenômeno que ocorre quando um certo número de indivíduos em uma comunidade se tornam imunes a uma infecção, diminuindo dessa forma a sua propagação) para o vírus Sars-CoV-2.  Este tipo de evento leva tempo e demanda muito esforço do sistema de saúde, ou seja 2021 será um ano de muita paciência e conscientização.

Do mesmo modo, não podemos esperar que as metas que não foram concretizadas nesse ano venham a ser, finalmente, realizadas no próximo. O ano de 2021 será um prolongamento de 2020, com suas consequências e suas superações. Culpar-se e cobrar-se exageradamente no próximo ano só piorará a nossa saúde mental. Temos que, afinal, ser realistas; devemos adaptar nossos sonhos e objetivos à realidade. Para tanto, o autoperdão pelas conquistas não alcançadas é crucial para que consigamos dar um passo consistente com vida, mas condizente com nós mesmos. Não precisamos engessar nossas metas, podemos estipulá-las lado a lado com os acontecimentos de nossa vida, adaptando-as sempre que necessário.

A pandemia de COVID-19, infelizmente, abalou profundamente a saúde mental das pessoas. A disseminação de notícias falsas, a preocupação com a saúde pessoal e dos entes queridos, a crise econômica, o tratamento dos sequelados pela COVID-19, entre outros fatores, bombardearam nossas defesas e propiciaram um aumento expressivo de casos de depressão, insônia e de ansiedade. O próximo ano não deve ser encarado como um ano em que tais transtornos desaparecerão espontaneamente; portanto é necessário que se busque ajuda profissional, quando necessário. A saúde física, mental e espiritual mundial não melhorará na virada do ano, necessitaremos de nos renovar e de nos reinventar para cuidarmos do que carece ser cuidado, pois ainda teremos tempos nebulosos pela frente, mas que passarão, como tudo na vida.

Não devemos esperar que no próximo ano tudo mude de um momento para o outro, como mágica. No entanto, não só podemos como devemos ter esperança e otimismo de que as coisas melhorarão, mesmo que não tão rapidamente. A humanidade já vivenciou inúmeras crises e as superou, de uma forma ou de outra. Foi um ano difícil, mas sem autopiedade, sem procrastinação (deixar para amanhã o que se pode fazer hoje) e com resiliência amadurecida poderemos separar a realidade do desejável, nos perdoar e enfrentar os desafios da vida.

Aprendemos com as perdas econômicas e com as perdas afetivas (entes queridos) a valorizar mais o palpável e o presente. Devemos levar esses ensinamentos para o próximo ano, para que tenhamos sempre em mente a motivação para legitimar nossas ações e aguentar os desafios que virão, de forma coletiva.


(*) Eduardo de Sousa Martins e Silva é acadêmico do curso de Medicina pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e José Carlos Rosa Pires de Souza é psiquiatra, PhD em saúde mental e professor do curso de Medicina da UEMS.

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