O tribalismo moderno entre Kant e Tolstói
A história da humanidade, para um observador cético, pode parecer um disco riscado. Do confronto entre clãs nômades por uma carcaça de mamute, ou a disputa territorial por parte dos tupinambás sul-americanos, até ao conflito atual entre potências nucleares visando fronteiras ideológicas -, o fio condutor permanece o mesmo: o tribalismo. Ou melhor, o “neotribalismo”, simbolizado hoje no “tacape de silício”.
Quando o Irã iniciou as hostilidades contra Israel invadindo o seu território para sequestrar, torturar e matar mais de mil pessoas, por meio dos seus braços armados no Líbano e na Palestina, os grupos terroristas Hamas/Hezbollah -, tivemos a oportunidade de constatar esse sentimento tribalista por parte de um povo de tradição cultural milenar como os iranianos. Como se sabe, os persas descendem de povos nômades de origem indo-europeia (arianos) que migraram da Ásia Central para o planalto iraniano por volta de 2000 a.C. a 1000 a.C.
Eles se estabeleceram no sul do Irã (região de Fars) e formaram a base étnica do atual Irã. O objetivo mil vezes declarado desse país é “destruir o Estado de Israel”, criado pela ONU em 1948 com base na Resolução 181. O contraditório é que, ao não aceitar a existência do Estado de Israel em postura desafiadora e afrontosa às Nações Unidas, o próprio Irã recorre com frequência à essa mesma ONU para protestar quando recebe a necessária retaliação daquele país judeu.
Assim, ao analisarmos este conflito, e o apoio dos EUA à Israel contra o Irã, bem como a guerra da Rússia contra a Ucrânia, somos forçados a admitir que, embora as armas sejam “de deuses”, nossas motivações continuam sendo as do Paleolítico. Daí se dizer que a grande tragédia da modernidade é o descompasso entre a nossa evolução tecnológica e a nossa maturidade ética, pois na visão antropológica, as nações nada mais são do que tribos expandidas.
O “nós contra eles” que movia a pequena aldeia e que move a polarização brasileira também move o tabuleiro da geopolítica. Vivemos, assim, a época do “Tribalismo Global” ou, como muitos preferem chamar, de “neotribalismo”, termo de que se vale a Ciência Política moderna para explicar conflitos atuais.
Neste cenário, o projeto de “Paz Perpétua” de Immanuel Kant (1724-1804), parece mais necessário e, ao mesmo tempo, mais frágil do que nunca. Kant acreditava que poderíamos “domar” o nosso instinto tribal através da Razão e de instituições jurídicas. Para ele, a “Federação de Estados Livres” apoiado em um sistema legislativo internacional impediria a besta da guerra de correr solta. No entanto, a realidade mostra que o Direito Internacional é frequentemente atropelado quando sentimentos primitivos passam a mover as ações das diversas “tribos” estabelecidas.
Por outro lado, Liev Tolstói (1828-1910), em “Guerra e Paz”, nos oferece uma lente de complexa realidade. Ele diria que não estamos evoluindo porque estamos tentando resolver o problema apenas “por fora”, com leis e tratados. Para Tolstói, o tribalismo não é uma falha no sistema jurídico, mas uma condição do espírito humano ainda não convertido à consciência moral. Assim, enquanto cada indivíduo não se enxergar no “outro”, a história continuará sendo esse turbilhão inevitável de massas se movendo para a destruição, ignorando os apelos da razão kantiana.
Ou seja, não temos as instituições globais fortes o suficiente para satisfazer Kant, nem a elevação moral individual necessária para validar Tolstói. Enquanto as potências jogam xadrez com mísseis e drones, a lição que sobra é amarga: estamos tentando resolver com armas problemas que Kant provou serem de Direito e que Tolstói demonstrou serem do espírito. Enquanto Kant confiava na razão e na lei, Tolstói acreditava na moralidade e na aceitação da vontade divina. Kant queria domesticar a agressividade humana com grades jurídicas. Tolstói queria extinguir essa agressividade com a conversão da alma.
Em última análise, as guerras atuais são o “tacape de silício” nas mãos de uma espécie que aprendeu a dividir o átomo, mas ainda não aprendeu a dividir o planeta. Estamos presos entre o sonho de Kant — de um mundo governado por leis universais — e a constatação de Tolstói — de que somos escravos de impulsos históricos e biológicos que mal compreendemos.
A saída, se é que existe uma, exige que reconheçamos a nossa natureza tribal para, finalmente, transcendê-la. Ou aprendemos a estender o conceito de “nossa tribo” para a humanidade inteira, ou confirmaremos a tese fatalista de que a nossa maior invenção técnica terá sido apenas o instrumento do nosso último e definitivo conflito tribal. Isto porque, em que pese o notável desenvolvimento científico e tecnológico até aqui alcançados, a natureza humana permanece a mesma.
Ao explorar as origens do nacionalismo, o historiador Benedict Anderson (1936-2015) dizia que as nações modernas são, em última análise, “tribos imaginadas”. O conflito entre Rússia e Ucrânia, ou EUA/Israel e Irã, é a mesma dinâmica de “nossa terra, nossa cultura, nossa sobrevivência” contra o “invasor”. E na observação do biólogo Edward Wilson (1929-2021), “temos emoções do paleolítico, instituições medievais e tecnologia de deuses”.
De fato, nas guerras tribais, lutava-se por um poço de água ou uma área de caça com tacapes. Hoje, luta-se por gás natural, semicondutores ou rotas marítimas com mísseis hipersônicos. A motivação de domínio e segurança permanece idêntica à de 10 mil anos atrás.
Dessa síntese toda, entre Kant e Tolstói, qual parte você acha mais difícil de superarmos: o nosso instinto biológico de defesa da “tribo” ou a falta de instituições políticas que realmente funcionem?
(*) Sergio Tamer é professor e advogado.
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