Da promessa de 130 anos ao fim em 12: a mina que desapareceu no Vale da Celulose
Pesquisa mostra perda de moradores, fechamento de escola e esvaziamento dos distritos de Arapuá e Garcias

Antes de arrendar parte de suas terras, o fazendeiro Hélcio Kamano acumulou frustrações. Ele conta que investiu na exploração da água mineral amparado por um estudo de viabilidade econômica elaborado pelo geólogo e agrimensor paulista José Lourenço Donega. O documento foi encaminhado ao Ministério de Minas e Energia, por meio do órgão que antecedeu a ANM (Agência Nacional de Mineração), e serviu de base para a obtenção da concessão de exploração.
RESUMO
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O fazendeiro Hélcio Kamano, de Mato Grosso do Sul, relata frustrações com uma mina de água mineral que secou em 2014 após 12 anos de operação e associa o fenômeno à expansão de eucaliptais na região, questão investigada pelo Ministério Público estadual. Dados do IBGE mostram que entre 2000 e 2020 os distritos de Arapuá e Garcias perderam até 17% de seus habitantes, com impactos na vida comunitária, no meio ambiente e no fechamento de escolas.
Segundo o fazendeiro, Donega estimou que a surgência natural da mina teria capacidade para manter a produção por cerca de 130 anos. A realidade, porém, foi outra. A extração começou em meados de 2002, mas, por volta de 2014, a vazão deixou de se recompor e a atividade foi encerrada.
“Se tivesse água, estaria trabalhando”, resume o produtor, que afirma nunca ter obtido grande retorno financeiro com o empreendimento. O que poderia ter se tornado um grande negócio, estruturado para produzir 50 mil garrafões por mês, conforme o fazendeiro declarou à época, terminou com o secamento da mina.
A segunda desilusão relatada por Kamano envolve o discurso, difundido por representantes públicos e privados, de que a expansão dos eucaliptais na região não prejudicaria o sistema hídrico.
Hélcio afirma que, em reuniões realizadas na época, a avaliação transmitida aos proprietários de terra era de que não ocorreriam os impactos ambientais hoje apontados nos relatos de antigos moradores.
O promotor Antônio Carlos de Oliveira, atualmente responsável pelo inquérito civil que investiga possíveis efeitos do eucalipto, participou de um dos encontros. Kamano ressalta, porém, que o promotor “não garantiu nada a respeito dos impactos, apenas estava presente”.
O fazendeiro diz que aceitou a avaliação apresentada na época, embora houvesse receio entre os proprietários rurais de que a cultura consumisse muita água.
Anos depois, ao perceber a redução da vazão da mina e dos córregos da propriedade, Hélcio Kamano passou a associar o fenômeno à expansão das florestas plantadas.
Essa relação, no entanto, corresponde à percepção do entrevistado e é justamente uma das questões que o inquérito do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) busca esclarecer.
Para encerrar a concessão registrada na ANM em nome da empresa Extração de Água Mineral Labor, Kamano recorreu novamente ao geólogo, que atestou o secamento em um novo parecer. Procurado pelo Campo Grande News, Donega não quis conceder entrevista.
Encolhimento da comunidade
Entre 2000 e 2020, a população dos distritos de Arapuá e Garcias encolheu, apesar do crescimento econômico impulsionado pela indústria da celulose.
Dados do Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e projeções populacionais utilizadas no estudo apontam redução de 17% no número de moradores de Arapuá, que passou de 1.911 para 1.586 habitantes. Em Garcias, a queda foi de 15%, de 2.301 para 1.967 moradores.
O estudo da geógrafa francesa Marine Dubos-Raoul, professora convidada da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), mostra que os moradores não relatam apenas mudanças econômicas ou impactos ambientais. Eles também descrevem a perda da vida comunitária.
A pesquisadora ouviu dezenas de moradores. Os relatos convergem para a percepção de que bailes, quermesses, campeonatos de futebol, festas religiosas e encontros de fim de semana praticamente desapareceram com a redução do número de famílias que viviam nas fazendas.
Um morador resume a transformação dizendo que “tem dias que você passa lá, parece uma cidade deserta”. Outro recorda que, antigamente, os bailes atravessavam a madrugada e que, atualmente, antes da meia-noite, o distrito já está vazio.
A pesquisadora observa que a queda da população desestruturou justamente os espaços onde a comunidade construía sua identidade coletiva.
Outro aspecto recorrente é a memória da substituição das fazendas. Os entrevistados contam que antigas moradias de trabalhadores, instaladas nas sedes das propriedades, foram demolidas e até enterradas para dar lugar aos plantios.
Um deles afirma que propriedades que empregavam dezenas de famílias desapareceram junto com as casas, alterando não apenas a economia local, mas também a paisagem e a memória da região.
Segundo os relatos, uma cena recorrente era a abertura de grandes valas pelas lâminas dos tratores. As máquinas empurravam para dentro delas tudo o que havia na superfície e, depois, cobriam o material com uma grossa camada de terra.
Escola fechada e memória
O estudo também registra uma percepção recorrente de desequilíbrio ambiental. Moradores relatam que aves típicas, como perdizes, jaós e anus, se tornaram raras.
Ao mesmo tempo, araras, papagaios, tucanos, macacos e outros animais passaram a aparecer com maior frequência nos quintais, supostamente em busca de alimento.
Outros entrevistados associam à mudança da paisagem o desaparecimento de frutos nativos do Cerrado, como guavira, pequi e marolo, que antes faziam parte do cotidiano das famílias.
Os autores ressaltam que esses depoimentos representam a percepção dos entrevistados sobre as transformações vividas no território e não estabelecem, por si só, uma relação direta de causa e efeito.
Um dos símbolos mais fortes do esvaziamento é a escola. A pesquisa mostra que ela deixou de ser apenas um espaço de ensino para representar, na memória dos moradores, o principal ponto de encontro da comunidade.
Com a redução das famílias rurais, o número de matrículas caiu, turmas foram encerradas e, em Garcias, a escola acabou desativada em 2018.
Os entrevistados associam o fechamento ao enfraquecimento da própria comunidade. Também relatam que as crianças passaram a permanecer durante horas dentro de ônibus para estudar em outro distrito.



