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O amigo que não discorda!

Por Gillianno Mazzetto (*) | 01/08/2026 19:30

Caro(a) conviva,

Ninguém nasce pronto para ser recusado. Passamos a vida inteira negociando isso: buscando quem fique, evitando quem parta, temendo o silêncio do outro lado da linha ou o cancelamento do outro lado da tela. E foi por aí, exatamente por aí, que a inteligência artificial encontrou a porta destrancada dos nossos dias.

Um levantamento da Arco Educação, divulgado em julho, mostrou que quase um em cada cinco adolescentes brasileiros já trata a inteligência artificial como amigo. Mais da metade deles confessa dificuldade real em construir novos vínculos. As meninas, as mais atingidas pela solidão.

Não é uma estatística distante, guardada em algum relatório que ninguém lê. É o retrato de uma geração inteira aprendendo a amar sem correr risco algum. A amar um sonho narcísico, que agora já não é mais mitológico ou psicológico, mas digital.

Confesso: houve momentos em que disfarcei ou embriaguei a minha solidão no scrolling de telas que, ao final, me deixavam mais sozinho, porém me entorpeciam quanto ao dever, à necessidade ou à vontade de falar com um amigo, um familiar, alguém que se ocupa de mim e a quem, naquele momento, eu não tive coragem de retribuir a atenção. Afinal, era mais fácil e a covardia também pode servir como analgésico. E funciona, no sentido mais raso da palavra: ninguém ficou desconfortável. Ninguém, inclusive eu.

Foi preciso envelhecer um pouco, e errar o suficiente, para entender que essa facilidade toda é, na verdade, uma forma sofisticada de covardia. Sêneca escreveu a Lucílio que a amizade verdadeira só existe onde há espaço para o desacordo, porque apenas quem pode discordar de nós é capaz de, de fato, nos conhecer.

Doeu reler essa carta essa semana, porque percebi que trocamos exatamente isso: substituímos o risco do desacordo pela segurança de uma concordância programada, eufemística, adocicada. Quase um diabete existencial, que não reclama, não se anuncia, mas quando vemos, já tomou toda a nossa vida e a deixou menor. A máquina não interrompe. Não discorda no meio da frase. Não guarda mágoa, não cobra satisfação, não desaparece por semanas sem explicação, não exige responsabilidade.

Ela responde. Sempre. Educadamente, e por vezes, de forma descontraída e amistosa. E é ali que mora o engano: confundimos resposta com escuta. Confundimos disponibilidade com afeto. Confundimos cativar com estar disponível. Se a raposa do Pequeno Príncipe estivesse entre nós, talvez ela tivesse que se esforçar um pouco mais para nos relembrar que cativar é responsabilizar-se.

Há poucos meses, a China proibiu os chamados namorados virtuais de inteligência artificial, alegando risco de dependência emocional. A reação de milhares de usuários não foi alívio. Foi luto. Gente lamentando publicamente a perda do que chamavam de pilar espiritual. Um pilar que nunca teve um dia ruim. Um pilar, portanto, que nunca sustentou peso nenhum, apenas devolveu, com extrema educação, o peso que colocávamos nele.

Talvez o problema nunca tenha sido a máquina aprender a nos ouvir. O problema é que esquecemos como se escuta alguém que pode, a qualquer momento, discordar de nós, e mesmo assim ficar.

Machado de Assis já sabia disso antes de qualquer algoritmo. Quincas Borba inventou uma filosofia inteira, a Humanitas, só para provar que a fome do vizinho existe apenas para justificar o prato cheio do vencedor.

Nós, hoje, inventamos amigos inteiros para provar que a solidão do outro nunca precisou nos incomodar. Afinal, não é nossa, está alhures. E aqui mora o desconforto que vale a pena sentir: talvez não estejamos procurando companhia. Talvez estejamos apenas procurando a ausência do risco de sermos recusados.

Pois o animal que fomos antes de qualquer filosofia já sabia: ser expulso do bando era sentença. Amizade de verdade cansa às vezes. Discorda, cobra, se afasta, volta, erra, pede desculpa tarde demais, machuca e produz cicatrizes. Exige de nós exatamente aquilo que uma tela e um software, que, aliás, têm apenas o nome por motivos comerciais, jamais vão exigir: paciência com um outro que é, de fato, outrem. Imprevisível. Imperfeito.

Livre para ir embora quando bem entender, e essa liberdade, e só ela, é o que torna a permanência de alguém um gesto que significa algo. A inteligência artificial, por mais fluente, disponível e atenciosa que seja, nunca vai exigir isso de nós. Ela apenas devolve, cada vez com mais eficiência, o que colocamos nela.

E ninguém supera a própria solidão conversando com o próprio eco, por mais bem-educado que ele tenha aprendido a ser.

Pense nisso.

(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.