Pix Pensão: quando a tecnologia deixa de proteger dinheiro e protege a infância
Durante muitos anos, cobrar uma pensão alimentícia significou, para milhares de mães e responsáveis, uma verdadeira peregrinação. O valor fixado pelo juiz nem sempre chegava na data certa. Em muitos casos, chegava pela metade. Em outros, simplesmente não chegava.
Enquanto isso, a vida da criança nunca esperou.
A escola vence no mesmo dia. O aluguel continua sendo cobrado. O leite, o remédio, a roupa e o material escolar não conhecem atrasos judiciais.
É justamente para enfrentar essa realidade que nasce o chamado “Pix Pensão”, um mecanismo que permitirá a transferência automática da pensão alimentícia determinada judicialmente quando o desconto em folha de pagamento não for possível.
A medida representa uma mudança cultural importante. Ela retira da obrigação alimentar o caráter de “escolha” do devedor e a aproxima do conceito de compromisso automático.
Na prática, a lógica passa a ser semelhante ao desconto do Imposto de Renda na fonte.
Ninguém pergunta todos os meses se deseja pagar o imposto. O valor simplesmente é descontado porque existe uma obrigação legal previamente estabelecida.
A pensão alimentícia passa a caminhar nessa mesma direção: uma obrigação reconhecida judicialmente que não dependerá mais, exclusivamente, da boa vontade de quem deve.
Isso não significa retirar direitos do alimentante.
Quem realmente enfrenta dificuldades financeiras continua podendo recorrer ao Judiciário para revisar o valor da pensão, demonstrando alteração em sua capacidade econômica. O que muda é que o inadimplemento deliberado deixa de encontrar espaço na burocracia.
Para quem paga corretamente, a novidade tende a ser positiva.
Dentro do nosso escritório todos os dias nos deparando com a esta realidade relatadas de um forma geral para aqueles que se socorrem da lei , a decisão vai permitir que os pagamentos passam a ocorrer de forma organizada, automática e comprovável, reduzindo discussões sobre datas, esquecimentos ou alegações de inadimplência
Já para quem insiste em não cumprir a obrigação, a consequência é evidente.
O atraso se torna muito mais difícil. Com isso, diminuem também as execuções, bloqueios judiciais, cobranças sucessivas e até as hipóteses de prisão civil decorrentes do inadimplemento voluntário e inescusável da pensão alimentícia, sanções que continuam previstas no ordenamento jurídico quando cabíveis.
Mas talvez o maior impacto da nova legislação não esteja na esfera jurídica.
Está na vida cotidiana.
Muitas pessoas enxergam a pensão alimentícia como uma ajuda ao ex-cônjuge ai mora um dos maiores equívocos da sociedade. A pensão pertence ao filho.
Ela representa alimentação, transporte, educação, saúde, moradia, lazer e dignidade.
Mesmo quando o valor parece pequeno, frequentemente ele completa o orçamento da família. São exatamente esses valores que compram o uniforme escolar, pagam a internet usada para estudar, abastecem a geladeira e garantem medicamentos.
Quando a pensão atrasa, quem sofre não é o adulto que recebe.
É a criança.
Sob essa perspectiva, o Pix Pensão não deve ser visto apenas como uma inovação tecnológica.
Ele representa uma mudança de mentalidade.
O Estado deixa de agir apenas depois do descumprimento da obrigação e passa a criar mecanismos para evitar que ele aconteça.
É um movimento semelhante ao que já ocorreu em outras áreas da administração pública: quanto mais automática é a obrigação, menor é o índice de inadimplência.
É fato e Naturalmente, surgirão desafios.
As instituições financeiras precisarão adaptar seus sistemas.
O Poder Judiciário deverá regulamentar procedimentos.
Haverá debates sobre contas sem saldo, mudanças de instituição financeira e outras situações práticas.
Mas esses desafios são operacionais.
O princípio da lei permanece sólido.
Quando se trata de pensão alimentícia, o tempo da criança não pode esperar o tempo do processo.
A sociedade brasileira caminha para compreender que pagar pensão não é um favor, tampouco um gesto de boa vontade, é o cumprimento de um dever parental.
E deveres, assim como os impostos, não podem depender da conveniência de quem deve.
Talvez seja justamente essa a maior inovação da nova lei, onde transformar a responsabilidade alimentar em algo tão natural e automático quanto qualquer outra obrigação essencial da vida em sociedade.
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