Racismo ambiental mostra que mobilidade econômica não garante a vida negra
O debate sobre mobilidade social da população negra no Brasil costuma ser apresentado como caminho para corrigir desigualdades históricas. De fato, o acesso ampliado à educação, renda e oportunidades produz mudanças reais, amplia horizontes e reduz pressões que marcam a vida de pessoas negras desde cedo. A ascensão importa e não deve ser minimizada. No entanto, ela não altera sozinha as estruturas que produzem risco e classificam determinados corpos como mais expostos e menos protegidos.
Quando observamos como o racismo opera, especialmente em um país que enfrenta eventos climáticos cada vez mais intensos, torna-se evidente que a mobilidade convive com vulnerabilidades persistentes.
A fala recente de Mano Brown, ao afirmar que “preto com dinheiro precisa ter cuidado redobrado”, evidencia esse ponto. A mudança material não transforma automaticamente a percepção social sobre corpos negros.
A educomunicadora e pesquisadora da USP, Julia Neres, reforça esse argumento em sua pesquisa “Sobrevivendo no Inferno – Racismo Ambiental: Cultura Hip-Hop, Movimento Ecologista e Educomunicação”. Para ela, a mobilidade individual não modifica a estrutura racial, porque a leitura social precede qualquer conquista econômica. Como afirma, “não importa a roupa, o CEP, o cachê, a visibilidade. O corpo segue sendo lido pelos marcadores sociais que ele carrega”. Assim, mobilidade e racialização coexistem, gerando avanços e limites simultâneos.
O racismo ambiental torna essa dinâmica mais evidente. Ele mostra que o risco socioambiental não depende apenas de características físicas do território, mas de como o Estado e as instituições decidem quem merece proteção prioritária. Neres lembra que apostar apenas na mobilidade individual é insuficiente, pois pessoas negras continuam convivendo com desigualdades de infraestrutura, prevenção e resposta emergencial. “Pra mim não faz sentido uma lógica que separa o humano da natureza pois as pessoas também fazem parte do meio ambiente.
Nosso corpo, nossa saúde física e mental, nosso bem-estar, nossas dinâmicas de deslocamento e pertencimento fazem parte de um modelo mais saudável de sociedade.”
Enchentes, deslizamentos e interrupções de buscas oficiais evidenciam como a gestão do risco é seletiva e mantém determinados grupos em maior vulnerabilidade social.
A pesquisa também destaca que populações negras e periféricas desenvolveram, ao longo do tempo, formas próprias de interpretação e enfrentamento do território. O hip-hop aparece como tecnologia social e ambiental, capaz de produzir pertencimento, leitura crítica e práticas educativas em contextos de abandono. “Para muitos, pode parecer abstrato relacionar Hip-Hop e socioambiental, mas isso acontece porque estamos “sobrevivendo no inferno”, destaca Julia.
A origem do ritmo musical em ambientes degradados, como o Bronx, e sua ressonância nas periferias brasileiras mostram como esses territórios criam metodologias próprias para lidar com riscos que o Estado frequentemente ignora. Obras como “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s, e “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, são exemplos de registros dessas experiências históricas.
Ao aproximar narrativas de Carolina, Racionais e Benjamin Chavis, Neres evidencia que tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos são as populações negras que carregam desproporcionalmente os impactos dos desastres. “Desastres e eventos extremos não são a mesma coisa. O desastre é resultado de riscos que já apareceram antes como sinais que se agravariam e o poder público não fez o suficiente a respeito” diz Julia, que continua, “em 2025, os Estados Unidos sequer enviaram delegação oficial para a COP30 em Belém.
A extinção do Escritório de Mudança Global pelo governo Trump, a demissão de equipes inteiras de diplomacia climática e a retirada formal do Acordo de Paris deixaram o país sem estrutura institucional para participar das negociações. Essa ausência cria um vácuo diplomático enorme, enfraquece o multilateralismo climático e desmonta mecanismos de financiamento, regulação de mercados de carbono e desenvolvimento de tecnologias limpas.” No Brasil, a naturalização dos riscos há anos, como as enchentes que acometem territórios a cada verão, impede avanços preventivos e mantém territórios negros como “zonas de sacrifício”, exposto nas obras de Carolina e Racionais .
A partir desse conjunto de elementos, fica claro que a ascensão social deve ser celebrada, mas não substitui a necessidade de mudanças estruturais.
A mobilidade melhora condições materiais, mas não suspende automaticamente os sistemas que distribuem risco por critérios raciais. O racismo ambiental mostra que vidas negras seguem expostas à precarização territorial e à ausência de políticas equitativas. Ele também indica que o enfrentamento ao racismo precisa integrar os debates ambientais, urbanos e habitacionais, reconhecendo que dignidade, segurança e saúde dependem das condições reais dos territórios onde a população negra vive e circula.
Reconhecer a importância da mobilidade e, simultaneamente, seus limites diante de estruturas que permanecem intactas é parte fundamental da discussão. Enquanto a gestão do risco não mudar, pessoas negras seguirão convivendo com vulnerabilidades que não podem ser resolvidas apenas por esforço individual.
O racismo ambiental evidencia essa contradição e reforça a urgência de políticas que articulem justiça econômica, climática e territorial como dimensões inseparáveis da luta por justiça racial no Brasil.
(*) Camila Santos, é engenheira de produção, com MBA em gestão de projetos, e 15 anos de experiência corporativa atuando da operação à liderança estratégica de projetos complexos.
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