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Relações internacionais das pandemias

Por Argemiro Procópio (*) | 27/05/2020 08:51

As relações internacionais contemporâneas omitem que o atual surto pandêmico não é o primeiro nem o último sinal de alerta da natureza. Nenhuma das crises anteriores, entre as quais a gripe espanhola, a asiática, a febre hemorrágica boliviana, a gripe aviária, a suína, o coronavírus mers e o ebola, foi tão veloz no ataque às populações do planeta globalizado quanto a Covid-19.

Após sua debelação, caso práticas sustentáveis desacompanhem o nascimento de outra ordem mundial, nada garante que interesses na órbita das pestes desistam de influenciar. Atormentadas por dívidas impagáveis da pandemia, as populações sofridas arcarão com titânica parte das perdas globais. Todavia, caso lutem por mudanças dos valores, porão ponto final na ética e na moral da dominação.

No terreiro das nações, a sacrílega liturgia do exorcismo omite a dimensão das epidemias. Fora do registro de hospitais novaiorquinos ou romanos, há negros, há brasileiros clandestinos e outros incontáveis estrangeiros pobres vitimados pela saga virótica. Excluídos da contabilidade dos óbitos, sepultados em vala comum, ninguém chora sobre cadáveres de refugiados e imigrantes.

O excesso de trabalho dos insuficientes legistas à disposição da burocracia funerária revela instabilidades de gestão e improvisações no trato da morte. Nesta crise, coube ao serviço consular das diplomacias passivas, raras vezes propositivas, aspergir em si mesmas água benta de validade vencida.

A covardia e o medo são nocivos produtos da indústria pandêmica. Pior do que o fanatismo religioso, a desproteção atrai tragédias. Na Idade Média, a caça às bruxas deixava ilesas as causas da peste bubônica, outrora peste negra, transmitida pela pulga dos ratos. Sob ordens do alto clero e da nobreza feudal, queimavam-se estudiosos da origem das enfermidades. Séculos depois, a patrulha ideológica sobre a cosmopolita ciência da sociedade informatizada também impõe às massas sacrifícios semelhantes aos medievais.

Lembrado por Francisco, o papa da solidariedade, todo bem que cada um propaga cria sentimentos positivos pela refundação do convívio planetário. São sentimentos que libertarão continentes de dois notáveis inimigos da natureza: o desperdício e o egoísmo. Há anos que artífices do realismo observam o renascimento de muros entre classes e Estados nacionais. Cabe agora à política comparada e à sociologia das relações internacionais medir vulnerabilidades e calcular o custo do patinar das potências na jornada antivirótica.

Reviravoltas na vontade humana precisam banir rixas e difamações em regiões confrontadas por desgraças viróticas. Terminadas as ojerizas contra a alteridade, a redução de danos reduzirá tensões. Apodrecerão os ovos de serpentes das pandemias, chocados nos quatro cantos do mundo para eclodir no calor das mentiras que viram verdades depois de mil vezes repetidas.

A exclusão dos sem-teto, a falta de água e nada de dinheiro para a farinha cotidiana prognosticam que, nas relações internacionais das pandemias, o confinamento trará à tona verdades e mitos da Revolução Francesa. Cientes de que a história se repete, os deserdados da sorte formam uma multidão que, apesar de desmobilizada, poderá se unir por meio das portas das crises pandêmicas.

Abertas o suficiente, por elas poderão rolar milhares de cabeças como a da rainha guilhotinada por recusar a troca da liberdade pela segurança. Mais do que isso, por receitar brioches aos súditos sem trigo para o pão.

Com séculos de atraso, circunstâncias sinalizam que o surto virótico apressará o desembarque no Brasil de quase tudo que purificou a França em 1789. Serão salvos os que abraçam o pacto social pregado por Thomas Hobbes ao gosto de Behemoth e Leviathan. Quanto às legiões e legiões de marias antonietas reincarnadas em juízes, em jornalistas, em parlamentares e nos senhores das lucrativas indústrias pandêmicas, todos que se cuidem. Bem ou mal, é melhor perder o colar do que o pescoço.

(*) Argemiro Procópio Filho é professor titular da Universidade de Brasília. Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (1972), mestre em Estudo dos Países em Desenvolvimento - Katholieke Universiteit Leuven, Bélgica (1974) e doutor em Sociologia/Economia - Freie Universitat Berlin, Alemanha (1979). E professor visitante da Universidade de Varsóvia.