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Tempos de desassossego

Por Por Gillianno Mazzetto (*) | 21/03/2020 12:30

Estamos vivendo tempos em que a palavra que mais escutamos é: isolamento preventivo, fique em casa e home office. Tudo isso está mudando a vida a nossa vida e fazendo com que, naturalmente e, em alguns casos, a força, entremos em contato com os espaços de silêncio, solidão, e, também, tédio.

Contudo, este momento pode ser de grande valia para se fazer um exercício de si, quase como se, em cada lar, sob o barulho dos filhos gritando, da dificuldade em se concentrar para trabalhar e das inúmeras séries e filmes assistidos, encontrássemos um espaço vital, no qual podemos lançar novas luzes sobre a nossa vida e fazer a experiência de arejar a nossa existência. Mas calma, isso não necessariamente é fácil, por isso sugerimos algumas breves dicas daquilo que durante séculos, a história do pensamento filosófico vem construindo.

1º entretenha-se consigo mesmo. Revisite a sua história, os seus sonhos, esperanças e permita-se se revisitar como quem acaba de conhecer uma pessoa com uma história fantástica e pouco explorada. Faça de você o seu mais interessante interlocutor. Isso pode ser feito por meio de meditação, reflexão, diário, narrativas.

2º redescubra o que te dá brilhos nos olhos. Às vezes, a nossa rotina cheia de compromissos e informações nos impede de ver aquilo que, realmente, é importante para nós. A nossa vida cotidiana acelerada, na qual pensamos nos deveres, responsabilidades e maneiras de nos entretermos, nos impede de voltarmos o nosso olhar para aquilo que, de fato, nos encanta e nos dá um frio na barriga. Redescobrir o brilho nos olhos pode ser um caminho interessante para relembrarmos onde, de fato, colocamos o nosso coração e construímos a nossa morada interior.

3º não tenha pressa. Os dias de isolamento que virão nos darão a oportunidade de desfrutar do tempo necessário para cultivarmos perguntas importantes e deixar que as respostas cresçam e maturem lentamente em nós. Não há crescimento fast food. O processo de construção da morada interior é mais marcado por pausas do que por avanços.

 4º acolha em si aqueles que tem fazem bem. Ainda que a distância, seja por telefone ou videoconferência, redescubra aquelas pessoas que te ajudaram a ser quem você é. Amigos, família, entes queridos que, às vezes, pela rotina do dia a dia foram se afastando.

Dias de mobilidade reduzida virão então é preciso redescobrir a interioridade como um grande espaço no qual podemos ser. Que o tédio decorrente do fato de não podermos sair, visitar lugares e pessoas não seja o maestro destes dias vindouros, mas que possamos redescobrir aquilo que nos motiva a sorrir e a ser melhor, isto é, nós mesmos.

(*) Dr. Gillianno Mazzetto é filósofo, doutor em Psicologia e professor da UCDB.