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Campo Grande, Domingo, 17 de Junho de 2018

03/03/2018 13:00

Vida encaroçada

Por Francisco Habermann (*)

A gente percebe que a vida vai passando quando o corpo começa a encaroçar. Um nódulo aqui, outra inflamação articular ali e a gente vai se adaptando. Cito essas figurações clínicas comuns apenas para comentar uma história real. Que também teve caroços.

Aqueles dois jovens iniciando a vida de casados, tinham as tarefas intensas do dia-a-dia sendo vencidas com dedicação redobrada. Com o serviço de casa completado, ele teve a ideia de preparar um curau. Era fevereiro, mês de produção abundante de milho verde. Aquele final de dia extenuante pedia um intervalo descontraído do casal e a proposta para apreciar o prato típico foi aceita pela esposa.

Nenhum dos dois tinha prática naquele preparo, só a lembrança de ambas as mães fazendo aquele quitute saboroso, típico da culinária brasileira. Foram em frente.

Cortados e raspados os grãos de milho verde, foram moídos em liquidificador e coado o suco. Baseados nas informações do livro de receitas Dona Benta ( primeiro presente que ela ganhara dele, logo que se conheceram ), iniciou-se o cozimento da mistura, mexendo sempre. A certa altura da fervura, eis que o líquido foi tomado por caroços. E não adiantava agitar mais com a colher de pau. Os novatos mestre-cucas resolveram interromper o cozimento e passar o conteúdo na peneira, por sugestão dele. O líquido quente espirrava e o processo sugerido em nada adiantou. Retornado o líquido à panela, reiniciado o aquecimento, os caroços ressurgiam. Enfim, desistiram do curau. Os doces caroços venceram e o casal ficou só na vontade daquele apreciado prato brasileiro. Mas uma dúvida sobre o procedimento culinário tão simples ficou na consciência dos frustrados novatos.

Somente mais tarde é que souberam do processo de coagulação nodular temporária do amido na própria sequencia do cozimento da mistura. Persistindo em fervura, os caroços se dissolvem. E o curau fica uma delícia. Ah, sim, faltou a eles o famoso conhecimento prático que mães amorosas cultivam!

Concluo que na nossa vida acontece a mesmo fenômeno. As dificuldades aparecem e a própria ‘fervura’ (persistência? dedicação? amor? ) existencial faz os problemas ( caroços ) se dissolverem por si. E vamos vivendo felizes...

Ainda bem!

(*) Francisco Habermann é professor da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu. Contato: fhaber@uol.com.br

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