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Beba das Crônicas

Benzedeiras, espelhos e temporais

Por André Alvez | 27/02/2022 08:35

Enquanto do outro lado do mundo estoura uma nova guerra, me pego com o olhar preso no avanço de nuvens carregadas no horizonte.

Relâmpagos, cheiro de chuva, antigos medos ameaçando retornar.

Ah, mas eu tenho onde me esconder...

Se todos os que vivem juntos se amassem, as tempestades durariam menos que o brilho de um relâmpago, e a guerra se apagaria, atrás de um espelho coberto por lençol.

Minha bisavó se chamava Luciana e era benzedeira.

Sua filha mais nova, a minha avó Lolinha, contava que ela a ensinou a enfrentar os temporais afirmando, num brilho de olhos, que a morte estava na luz dos raios, e o trovão era apenas o barulho de aviso do perigo que já passou. Tinha olhos azuis bem claros e os cabelos grisalhos esparramados no rosto, quase sempre assoprados pelo vento. Infelizmente não a conheci, morreu pouco depois do meu nascimento e não me restou sequer um retrato, apenas a fala de todos em casa, que a viam passear entre as sombras nos primeiros minutos da madrugada. Luciana nasceu de sete meses porque tinha a pressa dos raios. Deixou ensinamentos que foram passados através das gerações, alguns ainda sobrevivem, me causando enlevo ao recordar:

Quando a chuva caía forte, minha mãe corria por toda casa com lençóis nas mãos, tapando os espelhos para não atrair os relâmpagos.

“Sua bisavó me ensinou” contava séria, fixando seus olhos grandes nos meus de criança, sem deixar rastros de dúvidas.

Logo após jogar os lençóis nos espelhos, dona Dalva fechava o guarda-roupas, que tinha um espelho na parte de dentro da porta e, assim, enganava os relâmpagos. Depois se recolhia comigo num canto, os olhos voltados para o telhado, com medo de tudo desabar. O cheiro da madeira molhada ainda consigo sentir, assim como o medo da telha de barro não resistir. O dia transformado em noite, raios, trovões e minha mãe a minha única real segurança. Durante a tempestade, nossos pés descalços logo eram vistos usando chinelos de borracha, porque bisavó Luciana ensinou que pés no chão também atraem os raios.

Minha mãe não sabe responder se morreram todas as benzedeiras. Quando pergunto, vejo novamente nos olhos de dona Dalva aquele mesmo espanto dos dias de trovão, como se procurasse algum espelho para tapar, enquanto navega na mente à procura da cura do quebranto (quem sabe das guerras) nas mãos de uma benzedeira

Antigamente elas viviam espalhadas em casas de quintais floridos, e nada cobravam. Tinham noção daquele exercício de divino dom, que de tão raro e bom, não tinha preço.

Ventre virado e quebranto eram males que somente as benzedeiras sabiam curar.

Certa feita me surgiu uma ferida no braço, “mijada de aranha” – disseram – nenhum mertiolate, pomada ou algo do gênero foi capaz de curar, mas a ferida sumiu, de um dia para o outro, levada pelas mãos de uma benzedeira, senhora dos cabelos bem brancos e ligeiramente desgrenhados, tal e qual os da minha bisavó. No rosto o sorriso doce, tentava controlar a tremura das mãos enquanto sussurrava indecifrável oração, ao mesmo tempo passava no meu braço uma folha de planta mergulhada na caneca de alecrim, exalando um inesquecível cheiro bom.

Quanto tempo duravam as tempestades de antigamente?

A eternidade não tem tamanho.

Às vezes me pego mergulhado nos olhos da minha mãe, hoje cansados, trêmulos, serenos. As tempestades foram benzidas por aqueles olhos. E ouço o barulho do trovão sem sentir medo, segurando suas mãos e na lembrança ardendo a força de três mulheres que me ensinaram a enfrentar as tempestades. “Vai passar, rápido como a luz do relâmpago”, diziam e logo depois tudo se aquietava, a paz retornava junto com a brisa suave, levando para longe a tempestade, e nós, pobres crianças, nos pegávamos olhando a claridade efêmera que escapava das nuvens, depois do temporal, aguardando a noite cair.

Outro cuidado, depois da chuva, éramos terminantemente proibidos de deixar os chinelos de cabeça para baixo. Se não fossem desvirados, alguém da família ou algum conhecido morreria. Lolinha levava aquilo tão a sério – longo suspiro – se culpava porque não percebeu o chinelo da mãe Luciana revirado no quintal, poucos dias antes dela morrer.

E para esconder a tristeza, escrevia cartas de letras cursivas, que pareciam dançar suavemente na folha rota do papel, representando a dor da saudade.

Ah, quanta falta eu sinto da minha avó, a filha caçula de Luciana e que carregava seus ensinamentos de benzedeira, embora não os usasse, porque diante das proezas da mãe, se considerava incapaz. Mas os encantos das benzedeiras existiam nela. Lembro que minha avó decifrava o cantar das aves. Então, sabíamos o mau agouro do pio estridente da coruja e a melodia do bem-te-vi, o primeiro anunciava notícias ruins, o outro, a vida através da gravidez.

Num tempo que as lamparinas clareavam a sala, Lolinha contava histórias com a voz pausada e terna; contos fantásticos, repletos de magia, embora muitas vezes causasse desconforto, como quando afirmava que o espelho não refletia a nossa imagem, mas a de outra pessoa, noves fora a aparência idêntica, era completamente contrária à pessoa real, tanto que vivia presa num mundo paralelo.

Espelhos e tempestades morrem tapados por lençóis.

Ainda hoje, quando chove, sinto uma estranha vontade de cobrir os espelhos de casa. E os chinelos, assim como todos os calçados, sempre dou um jeito de desvirar quando estão emborcados.

Lolinha foi de encontro a Luciana no começo de 2004 e hoje moram perto das nuvens.

E enquanto estoura outra guerra, reflito diante da minha imagem no espelho: o mundo anda precisando de benzedeiras. Talvez elas ainda existam e estejam por ai, se escondendo da intolerância dos dias de hoje, em cantos de quintais floridos, curando, caladas, as feridas que o homem não consegue lidar, tapando os espelhos em dia de chuva, desvirando os calçados para ninguém morrer e espalhando pelo ar o doce cheiro de alecrim.

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