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Cidades

Após odisseia na pátria de ninguém, casal deixa navio rumo a MS

Casal viajou para um cruzeiro, mas coronavírus transformou viagem dos sonhos em verdadeiro pesadelo

Por Izabela Sanchez | 26/03/2020 14:20
Liliam Maria Gomes Damaceno ao lado do marido Carlos Alberto Mesquita Damasceno. (Foto: Arquivo Pessoal)
Liliam Maria Gomes Damaceno ao lado do marido Carlos Alberto Mesquita Damasceno. (Foto: Arquivo Pessoal)

Com a liberdade da adaptação de gênero e época e com a comparação da guerra grega com a pandemia do coronavírus, é possível dizer que o que viveu o casal Liliam Maria Gomes Damaceno, 63 anos,  e Carlos Alberto Mesquita, 68 anos, que ficou à deriva em navio desde o final de janeiro, é uma odisseia. Após todo esse tempo de viagem em busca de um porto, o cruzeiro dos sonhos pelo oceano pacífico virou um pesadelo com acúmulo de milhares de reais em prejuízo.

Eles agora, neste exato momento, nesta quinta-feira (26), estão a caminho de casa, em Campo Grande, “a bordo” de um carro. Isso mesmo, depois de ao menos 15 dias (eles até perderam as contas) tentando sair do navio e voltar ao Brasil, o destino final é pela estrada, depois de chegarem de avião em São Paulo nesta quinta.

Os dois deixaram Sidney, na Austrália, no último dia 28 de fevereiro, para enfrentar 45 dias de viagem em um cruzeiro. O destino final seria Honolulu, no Hawai e a primeira parada em Papeete, na Polinésia Francesa. Já no mar, a caminho da Nova Zelândia, a pandemia de coronavírus mudou os planos dos dois, e uma série de “portos fechados” veio pela frente.

Pelo relato de Liliam, é possível que os leitores do Campo Grande News fechados em quarentena entendam, à distância, como o contágio do vírus espalhou caos global.

Em reportagem do Campo Grande News publicada no dia 16 de março, o último destino do navio de 2,4 mil tripulantes era o litoral dos Estados Unidos, mais precisamente um porto nas ilhas de Samoa, na parcela que pertence aos EUA. Ali estavam parados, sem definição de destino. Neste porto, enquanto o navio era abastecido, conforme relata a aposentada, nenhum passageiro podia deixar a embarcação.

Em Honolulu rumo ao Aeroporto, de dentro do ônibus, essa era a vista do casal (Foto: Arquivo Pessoal)
Em Honolulu rumo ao Aeroporto, de dentro do ônibus, essa era a vista do casal (Foto: Arquivo Pessoal)


No Hawai

Depois de deixarem o litoral dos Estados Unidos com navio abastecido, o navio seguiu viagem para Honolulu, no Hawai (EUA).

“Aí saímos no outro dia rumo a Honolulu sem saber se ia dar certo. Foram seis dias de navegação. Chegamos em Honolulu no dia 23 de março, na segunda, no porto, mas ninguém desembarcou, ficou uma confusão se podia ou não podia. Tinha um navio na nossa frente, só que esse foi negado então pensei: o nosso também vai ser”, conta Liliam.

Para a surpresa dos dois, os passageiros foram autorizados a deixarem o navio, mas o percurso foi, conforme Liliam, marcado pela tensão.

“Não tinha nenhum caso de coronavírus no nosso navio e passamos muito tempo viajando com nenhum sintoma em ninguém, então isso ajudou que permitissem que a gente descesse. A companhia dona do navio (NCL, Norwegian Cruise Line) fez um acordo com o governo do Hawai que nós só poderíamos sair de lá com a passagem pronta para o destino”, explica.

Liliam contou que a surpresa seguinte foi o tratamento diferenciado, por parte da empresa que administra o cruzeiro, para europeus, norte americanos e australianos. Os brasileiros, contou, foram tratados de maneira diferente, por exemplo, dos alemães.

Cerca de 40 brasileiros estavam a bordo e foram informados de que a passagem “final” tinha como destino Los Angeles. Voltar ao Brasil? Era para “se virarem”, conforme o relato da aposentada.

"Fomos recusados nos portos de Papeete, Fiji duas vezes e Taronga na Nova Zelândia", relata.

“Nós fomos tirados de dentro do navio para um ônibus. Quem entrava dentro do ônibus era escoltado pela polícia, não ia pro terminal, ia direto para a pista do aeroporto, descia na pista, era revistado, e você ia imediatamente pra dentro do avião. Os alemães iam para Frankfurt, os australianos para Austrália, os espanhóis iam descer em Londres, pra gente não teve isso. Você tinha que se virar com a sua passagem para o Brasil”, contou.

“Da escada do navio para escada pro avião. Nunca fui escoltada na minha vida pela polícia”, admite ela.

Confira o vídeo que ela gravou no aeroporto:



Los Angeles, cidade fantasma

Liliam conta que os dois aterrissaram em Los Angeles, na Califórnia (EUA), na noite de terça-feira (24) e o susto foi muito grande. Um Aeroporto que ela chama de “gigantesco” estava vazio e com todos os estabelecimentos fechados. No hotel que ficaram, o esgotamento de produtos em razão da quarentena teve resultados difíceis de imaginar para a capital do cinema dos Estados Unidos. Não havia nem café da manhã, conta.

“A delta [companhia aérea dos EUA] está com 600 aviões estacionados”, disse.

“As coisas não funcionaram em consequência. Chegamos em Los Angeles no dia 24. Com o andar da carruagem, marquei minha viagem [para São Paulo] para o dia 25, para deixar o dia de folga. Em Los Angeles não tem nada no Aeroporto, tudo fechado, chegamos dia 24 a noite, o hotel sem café da manhã, não tinha nada. Dentro do Aeroporto só Starbucks aberto, e é um aeroporto enorme”, pontuou.

No Aeroporto de Atlanta, na Geórgia (EUA) (Foto: Arquivo Pessoal)
No Aeroporto de Atlanta, na Geórgia (EUA) (Foto: Arquivo Pessoal)

De Atlanta rumo a SP

De Los Angeles, o casal fez ponte aérea em Atlanta, no Estado da Geórgia (EUA) e então, finalmente desembarcaram em São Paulo nesta quinta-feira. No final, mais uma surpresa: a passagem de volta para Campo Grande estava mais de R$ 2 mil.

“Estamos dentro do carro na castelo [rodovia Castelo Branco, no Estado de São Paulo], saímos de São Paulo porque não tinha voo hoje, só amanhã, e tremendamente caro, mais de R$ 2 mil reais. Isso é um absurdo. Nós fizemos a conta, fica mais barato alugar em São Paulo e vir de carro e devolver o carro em Campo Grande. Tinha outro casal daqui alugando com a gente”, conta.

Assustados e ainda um pouco “suspensos do chão”, os dois ainda nem conseguiram contabilizar todo o prejuízo, que, claro, é de milhares de reais.

“Olha, tinha hotel em Honolulu já pago, depois a gente ia pra Las Vegas, lá devolveram nosso dinheiro, de Honolulu não tenho ainda nossa confirmação. Passagem aérea tenho pela delta Honolulu para Las Vegas e depois para São Paulo, não tenho definições e eles não atendem. De Fiji pra Austrália nós tivemos que cancelar, não conseguimos por telefone e por email não tivemos nenhuma confirmação da empresa”, diz.

“São milhares de reais, ainda mais com o dólar a mais de cinco reais”, comentou.

Na pátria de ninguém

No meio do mar e de toda a confusão, o casal tentou auxílio junto ao governo federal do Brasil, sem sucesso.

“Fizemos contato com o governo brasileiro, mandaram cartinha, mas não fizeram nada, falaram que tinha pessoas mais necessitadas que a gente, tinha gente que morava na Itália. Não estávamos na pátria de ninguém, não foi feito nada. Não moveram uma palha. Ficamos por nossa sorte”, critica Liliam.

No fim, a caminho de Campo Grande, a única coisa a se comemorar, conforme disse a aposentada, é a saúde ainda intacta. “Pelo menos estamos com saúde, ficamos dentro do navio sem contato com coronavírus, os portos que ofereciam perigo pra gente. Até acho que no navio as pessoas se controlaram muito, os americanos a gente via que eles não estavam nem aí, estavam no território deles, tinham uns mil americanos dentro do navio”, finalizou.