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Campo Grande, Terça-feira, 24 de Setembro de 2019

09/09/2019 14:58

Ar condicionado é racionado na UFMS e agora pesquisador paga por reagente

UFMS já sente os efeitos dos cortes realizados pelo governo federal no custeio da Educação superior

Izabela Sanchez
Alunas do curso de Psicologia da UFMS. (Foto: Marina Pacheco)Alunas do curso de Psicologia da UFMS. (Foto: Marina Pacheco)

Por volta de 10 horas o calor já atingia os 35 graus em Campo Grande nesta segunda-feira (9). É detalhe que faz toda a diferença, agora, na rotina de quem passa o dia no campus da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), onde em algumas salas de aula e até na biblioteca há horário certo para ligar o ar condicionado.

A tese das manhãs mais frescas não funciona, na prática, no “veranico” quente e seco que atinge a Capital de Mato Grosso do Sul: fica difícil aguentar a restrição do uso do ar. É apenas um detalhe do panorama de corte de gastos de R$ 29 milhões diretamente do MEC (Ministério da Educação), além dos R$ 51 milhões bloqueados de emendas parlamentares.

São R$ 80 milhões a menos para a Universidade, 52% dos recursos discricionários, o que representa o segundo maior corte entre as instituições de todo o país, conforme apontou reportagem da Folha de S. Paulo. Os cortes do governo Bolsonaro atingiram 63 universidades e 38 institutos federais do país.

Horário para ligar e desligar as luzes e o ar condicionado são, ainda, indícios leves do impacto dos cortes da Educação, mas já colocam o aparente clima de normalidade em alerta. O futuro da pesquisa também permanece incerto com o corte nas bolsas de pesquisas – da graduação ao pós-doutorado.

Mato Grosso do Sul é mais atingido do Centro-Oeste e o 10º entre todos os Estados, de acordo com o levantamento do Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Por aqui serão atingidos 107 bolsistas, redução de R$ 714.800,00 nos últimos quatro meses de 2019.

Além da Capes, o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), outra agência federal de financiamento de pesquisadores, informou que vai suspender o processo de seleção de bolsistas no Brasil e no exterior, por falta de recursos. O cálculo é um déficit de R$ 330 milhões no orçamento.

Plano de saúde reduziu - Até a seguridade dos servidores está em risco. Desde o dia 1 de setembro está suspensa, por tempo indeterminado, adesão de novos titulares ao plano de saúde da UFMS, o PAS (Programa de Assistência à Saúde), que sofreu redução na abrangência dos serviços.

Agora, estão suspensas as autorizações para realizar internações eletivas, que são aquelas “não urgentes”, tratamentos de próteses e implantes dentários e autorizações dos tratamentos especializados como hidroterapia, RPG (Reeducação Postural Global) e Acupuntura.

O valor que o segurado tem que dar do próprio bolso para exames aumentou para 20% do valor total do exame e para as consultas de urgência e emergência aumentou para R$ 50. Não vai ter mais ressarcimento, no PAS, dos procedimentos odontológicos de “Protocolo e Placa de Mordida ou Placa para Bruxismo” e os ressarcimentos de consultas de especialidades médicas ficam reduzidos a 80% do valor da consulta até R$ 250.

Estudante de Farmácia, Keterli Soares da Silva, 21, relata que agora é mais difícil ficar na biblioteca, já que o ar condicionado nem sempre está ligado.

“Pediram para economizar no ar, e tem desligado mais as luzes. No banheiro sempre vejo as luzes desligadas agora. O banheiro do bloco da quadra desde o começo não tem papel higiênico”, conta outra caloura de Farmácia, Natasha Ledra.

Natasha e Keterli afirmam que além do custeio, a pesquisa de uma das professoras do curso, que ministra a disciplina de histologia, foi prejudicada. “Ela está analisando o tecido de um ratinho e não vai ter mais dinheiro para continuar financiando esse procedimento”, disse.

Estudante de Direito, Patrícia Estolano, 26, está no 5º semestre do curso e conta que as luzes nas salas, antes das aulas, são desligadas para economizar. “Fiquei um pouco perplexa [com anúncio de cortes da Educação], se você cerceia recursos você compromete o futuro da universidade. A pesquisa é um dos pilares”, comenta.

Natasha é estudante do primeiro ano do curso de Farmácia (Foto: Marina Pacheco)Natasha é estudante do primeiro ano do curso de Farmácia (Foto: Marina Pacheco)

Não tem monitoria - No curso de psicologia, já não há monitores. Sem bolsa para essa atividade, não há quem se interesse em ajudar os alunos a reforçar o que é aprendido em sala de aula. Bruna Gardan, 19, está no primeiro ano do curso e afirma que o clima é de alerta. “Estão todos mais atentos [com desperdício], tendo mais cuidado”, diz.

Segundo a estudante, durante algumas aulas, o ar condicionado não pode ser ligado. “Fui nesse banheiro aqui ao lado e não encontrei papel”, complementou ela. A colega de sala, Evelin Fernandes, 21, emendou que as luzes, no banheiro em questão, estão sempre apagadas.

Uma das funcionárias da Secretaria da FAALC (Faculdade de Artes, Letras e Comunicação), Cristina Pavam disse que, até agora, o clima permanece “normal”, apesar da orientação para reduzir o custeio em energia elétrica e até papel. O maior impacto, conta, foi no plano de saúde.

Estudante de engenharia civil, Lucas Morais 21, informou que o curso segue com as atividades no mesmo ritmo, sem restrição ao uso de ar condicionado, por exemplo. Não é o que ocorre com outras graduações da UFMS. “Tenho conhecimento de que alguns cursos, como fisioterapia, reduziu bastante o uso do ar, que está proibido em alguns horários”, disse.

Incerteza é, para Natália Koch, 34, a palavra do momento nos laboratórios de botânica. Ecóloga e bolsista de pós-doutorado no Programa de Pós Graduação em Botânica desde 2016, ela depende da bolsa que recebe para continuar estudando a importância dos liquens (associações simbióticas de mutualismo entre fungos, algas e cianobactérias) como indicadores de qualidade ambiental em Campo Grande.

A modalidade de bolsa que ela recebe, financiada pela Capes, é renovada todos os anos. “Não sei se de fato será renovada. Nosso curso é nota 3”, relatou, uma alusão aos cortes de bolsas para programas com notas 3 e 4.

Natalia Koch não sabe se terá bolso de pós-doutorado em 2020 (Foto: Marina Pacheco)Natalia Koch não sabe se terá bolso de pós-doutorado em 2020 (Foto: Marina Pacheco)

“Nós perdemos 70% das bolsas de mestrado. O dia-a-dia se mantem normal, mas o problema é o futuro, isso será sentido só daqui um ou dois anos”, diz Natália. Segundo a pesquisadora, há colegas que pesquisam questões da biologia em certas áreas territoriais e o perímetro da área estudada teve que ser reduzido para que a pesquisa não morresse.

Sem dinheiro pra reagentes - Além disso, reagentes para fazer análise molecular, que podem custar até R$ 1 mil, também estão saindo do bolso de quem pesquisa, a exemplo de Natália. “Para análise de DNA também, que é feito inclusive fora do Brasil. Se o reagente é usado para a pesquisa específica do aluno, ele é quem tem que pagar”.

“Eu acho que sim [vai piorar], mas torço para que não. No ano que vem o gasto com as bolsas vai diminuir pela metade. Se a minha bolsa não for renovada, o projeto para e eu volto para o Rio Grande do Sul”, concluiu.

 

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