Atira “sem se preocupar com efeito colateral”, diz Garras sobre avanço de facção
Polícia aponta aliciamento de jovens com dinheiro, armas e status dentro da estrutura criminosa no Estado

Homicídios, execuções, “tribunais do crime” e confrontos com policiais são parte do rastro de violência que, segundo a Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Resgate a Assaltos e Sequestros), acompanha o avanço do Comando Vermelho em Mato Grosso do Sul. A facção de origem carioca deixou a região de fronteira com Mato Grosso e passou a avançar pelo Estado, chegando a cidades como Sidrolândia, Rio Brilhante e Maracaju. Na tentativa de ampliar a atuação, criminosos também passaram a recrutar adolescentes, fenômeno que a Polícia Civil classifica como “narcocultura”.
RESUMO
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O Comando Vermelho avança pelo interior de Mato Grosso do Sul, segundo o Garras, deixando um rastro de homicídios, execuções e confrontos com policiais. A facção carioca já chegou a cidades como Sidrolândia, Rio Brilhante e Maracaju, recrutando adolescentes por meio da chamada narcocultura. Nas últimas operações, três suspeitos morreram em confrontos, quatro pessoas foram resgatadas de um tribunal do crime e 11 indivíduos foram presos, com apreensão de armas e drogas.
A dimensão da violência ficou evidente nas últimas operações. Em poucos dias, três suspeitos morreram em confrontos com policiais durante diligências relacionadas à organização criminosa. Outros integrantes foram presos, armas e drogas apreendidas e um possível “tribunal do crime” foi interrompido antes que quatro pessoas fossem executadas.
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Para o delegado titular da Garras, Roberto Guimarães, um dos pontos que mais chama atenção é a disposição dos criminosos para matar sem se importar com quem esteja ao redor. Segundo os investigadores, os ataques são realizados com diversos disparos mesmo em locais onde há outras pessoas.
“Eles chegam e disparam de forma aleatória, sem se preocupar com qualquer tipo de efeito colateral”, afirmou Roberto durante coletiva à imprensa na manhã desta sexta-feira (25).
O delegado citou o caso recente de uma criança de 3 anos morta durante um ataque no interior como exemplo desse comportamento. “Se vai atingir uma ou duas pessoas inocentes, eles não estão preocupados”, afirmou.
A mesma disposição, segundo o delegado, aparece quando os criminosos são confrontados pela polícia. Nos últimos dias, suspeitos reagiram armados durante abordagens e acabaram mortos nos confrontos.

Pistoleiro é ligado a quatro homicídios em Sidrolândia - Entre os nomes apontados pela investigação está Paulo Ricardo Bueno, conhecido como “Terrível” ou "Pierre CV”, morto na noite desta quinta-feira, durante a abordagem da Garras, em uma casa no Bairro Aero Rancho, em Campo Grande.
Segundo o delegado, Ivan Barreira, diretor do DPE (Departamento de Polícia Especializada), ele era um dos principais pistoleiros da organização na região de Sidrolândia, Rio Brilhante e Maracaju. “Só em Sidrolândia ele tem quatro homicídios e alguns outros em Rio Brilhante”, afirmou.
Terrível foi localizado depois que a polícia descobriu que integrantes ligados aos ataques de Rio Brilhante haviam fugido para a Capital. Quando os policiais entraram na casa, segundo o delegado Roberto, Terrível estava sentado no sofá, com a mão sobre um revólver. Após a abordagem, correu para um corredor e houve o confronto. Ele foi atingido e morreu.
A polícia afirma que o suspeito era apontado como pistoleiro justamente pela atuação em execuções e pela disposição para reagir contra policiais.

Tribunal do crime é interrompido - A sequência de violência também levou os investigadores a um imóvel em Rio Brilhante onde ocorreria um possível “tribunal do crime”. Durante a ação, Erique Junior Roque de Oliveira, de 25 anos, reagiu à abordagem policial e morreu após ser atingido por disparos.
A descoberta ocorreu durante as diligências sobre o assassinato de Kauan Rodrigues de Matos, de 20 anos, morto no Bairro Benedito Rondon.
Conforme a investigação, o crime estaria relacionado à disputa entre integrantes de facções rivais. Os autores chegaram em uma motocicleta roubada, atacaram Kauan com uma faca e efetuaram um disparo.
Depois do homicídio, os investigadores chegaram a uma residência onde encontraram dois homens amarrados e ajoelhados e duas mulheres trancadas em um quarto. Segundo a polícia, todos seriam torturados e mortos.
Os suspeitos fugiram ao perceber a chegada das equipes, mas as quatro vítimas foram resgatadas. Erique, que estava entre os investigados localizados durante as diligências, reagiu à abordagem e foi baleado. Ele chegou a ser socorrido com vida, mas não resistiu.
A operação terminou com 11 prisões, além da apreensão de armas, munições e drogas.
Avanço começou no Norte - O delegado Ivan afirma que o movimento da facção pelo Estado não é recente. A expansão começou a ser percebida no Norte, principalmente em cidades próximas à divisa com Mato Grosso, e avançou gradualmente.
“Começou pelo Norte, na região de Coxim, foi se estendendo ali por Costa Rica, até Três Lagoas, e agora desceu aqui mais para a região Sul”, explicou.
Segundo a Polícia Civil, a facção tenta aproveitar a proximidade com Mato Grosso, onde possui presença mais forte, para ampliar o território de atuação em Mato Grosso do Sul.
“Do meio do ano passado para cá, eles estão tentando essa expansão”, afirmou.
A polícia diz trabalhar para impedir que a organização consolide no Estado uma estrutura semelhante à observada no Rio de Janeiro. “É questão nossa de honra coibir essa guerra, essa matança, não deixar isso se instalar”, declarou Ivan Barreira.
Adolescentes entram na mira - A expansão também tem sido acompanhada pelo recrutamento de adolescentes. Segundo Roberto Guimarães, jovens são atraídos por dinheiro, armas, ostentação e pela sensação de pertencimento ao grupo.
É nesse contexto que os investigadores utilizam o termo “narcocultura”.
A expressão foi usada durante a coletiva para explicar a influência exercida pelas organizações criminosas sobre adolescentes, principalmente por meio das redes sociais. Armas, dinheiro, joias, símbolos e códigos utilizados pelas facções passam a ser exibidos como forma de status dentro desses grupos.
“Eles acabam integrando esses grupos de organização criminosa como uma própria forma de se identificar ou se pôr naquele meio social”, explicou o Roberto.
Segundo a investigação, adolescentes podem ser usados para guardar drogas e armas, alugar imóveis e dar suporte à logística dos criminosos. Alguns também acabam recrutados para executar crimes.
“É uma tendência da facção carioca. A carioca tem sido uma tendência crescente na utilização de adolescentes aqui no nosso Estado”, afirmou.
Polícia mira o topo - Apesar de a investigação ter revelado possíveis autores de homicídios, o delegado Roberto afirma que o foco não é apenas esclarecer mortes. A estratégia é atingir a organização criminosa como um todo, identificar lideranças e interromper a estrutura que permite a prática dos crimes.
Segundo o Roberto, parte das determinações para atuação da facção em Mato Grosso do Sul teria origem fora do Estado. Por isso, a polícia busca chegar às pessoas que ocupam posições superiores na cadeia criminosa.
A intenção, segundo a Garras, é impedir que a facção consiga transformar a sequência de ataques e homicídios em uma estrutura permanente de atuação em Mato Grosso do Sul.
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