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Com “Covidímetro”, estudo prevê pico da covid-19 e colapso da saúde em 11 dias

Cálculos feitos por professores da UFMS projetam pico e lotação de leitos entre os dias 8 e 11 do próximo mês

Por Anahi Zurutuza | 28/07/2020 16:08
Ala do pronto-socorro da Santa Casa lotada nessa segunda-feira (27); sem respiradores para todos os pacientes, no fim de semana, alguns deles foram mantidos vivos com ventilação manual (Foto: Santa Casa/Divulgação) 
Ala do pronto-socorro da Santa Casa lotada nessa segunda-feira (27); sem respiradores para todos os pacientes, no fim de semana, alguns deles foram mantidos vivos com ventilação manual (Foto: Santa Casa/Divulgação)

Mato Grosso do Sul enfrentará o pico da covid-19 e deve experimentar o colapso no sistema de saúde entre os dias 8 e 11 de agosto, quando o Estado terá superado os 28 mil casos acumulados da doença.

As projeções são dos professores Erlandson Saraiva, do Instituto de Matemática, e Leandro Sauer, da Escola de Administração e Negócios, no mais recente estudo divulgado pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) desde o início da pandemia do novo coronavírus.

Os cálculos foram feitos por meio de modelo matemático proposto por professores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e que foi aplicado à realidade local, e fórmula criada pelos próprios pesquisadores, que retornaram resultados muito parecidos. A análise tem como base estatísticas coletadas entre os dias 14 de março (quando foi divulgada a chegada do novo vírus ao Estado) e 26 de julho, domingo passado.

“Nas últimas quatro semanas, a gente percebia a doença se comportando sempre de maneira explosiva, mas falando do Estado, agora conseguimos enxergar num horizonte relativamente próximo, o pico”, explicou o professor Leandro Sauer.

A análise mostra que em 30 de junho eram 7.965 positivos em Mato Grosso do Sul. O número saltou para 21.514 no último domingo – aumento de 170,11% e arredondando para cima, quase o triplo em pouco menos de 1 mês.

O modelo da UFRJ chegou à conclusão ainda que no Estado cada pessoa infectada transmite a doença para em média 1,2 outras, o que indica risco moderado de propagação da doença. O cálculo é feito por meio do “Covidímetro”, nome dado para uma espécie de índice de infecção.

Se o crescimento da doença se mantiver neste ritmo, não for freado por exemplo por medidas restritivas que estimulem o isolamento social mais radical, a projeção é de colapso, ou seja, ocupação de todos os leitos de UTI (Unidades de Tratamento Intensivo) disponíveis no Estado em 11 de agosto. A conta também leva em consideração o número de vagas para pacientes graves disponíveis no SUS (Sistema Único de Saúde) até o dia 26, quando eram 418.

Capital – Em Campo Grande, o quadro é pior. Um contaminado transmite a doença para em média 1,7 pessoas. A Capital tinha 2.241 casos de coronavírus em 30 de junho, número que saltou para 8.883 em 26 de julho, acréscimo de 296,39%. Os 6.642 casos registrados somente em julho representam 74,77% do total de confirmados na cidade desde o início. Além disso, os dados mostram que a quantidade de casos dobra em média a cada 13 dias.

O estudo das estatísticas e o “Covidímetro” mostram, segundo os pesquisadores, o colapso (lotação) das UTIs chegará no dia 16 de agosto, mas o mais grave é que o aumento expressivo no número de casos pode perdurar, jogando o pico para setembro.

“Estamos em cenário de crescimento exponencial de casos. Infelizmente, se nada for feito para conter a proliferação da doença, continuaremos neste cenário por todo o mês de agosto. Somente no início de setembro que começará a diminuir”, explicam os pesquisadores.

Até o dia 26, a macrorregião de Campo Grande tinha 234 UTIs pelo SUS, conforme boletim da SES (Secretaria Estadual de Saúde). A Capital já conta nesta terça-feira (28) com 274 vagas para pacientes graves, contando as disponibilizadas nos hospitais públicos e privados, mas especialistas são unânimes em dizer que a velocidade de inauguração de novos leitos é bem menor que o avanço da doença.

“Esses resultados mostram a necessidade de a população continuar seguindo as orientações de especialistas da área da saúde para se manter o isolamento social sempre que possível. Este procedimento é necessário para que as quantidades registradas em uma semana estejam sempre abaixo da curva estimada. Pois somente desta maneira obteremos o desejado “achatamento” da curva e evitaremos o colapso do sistema de saúde”, avalia a pesquisa.

Paciente respirando or ambú, equipamento que exige a manipulação de um profissional de saúde o tempo toto (Foto: Santa Casa/Divulgação)
Paciente respirando or ambú, equipamento que exige a manipulação de um profissional de saúde o tempo toto (Foto: Santa Casa/Divulgação)

Sinais - Campo Grande tem recebido sinais desde o fim de semana de que o sistema está no limite. Na segunda-feira (27), a Santa Casa convocou coletiva para informar que estava 100 lotadas e que, entre a noite de domingo e a madrugada de ontem, precisou manter em respiradores manuais 5 pacientes que necessitava do suporte à vida. O hospital é referência no atendimento em alta complexidade e, durante a pandemia, está concentrando os pacientes vítimas de traumas para deixar leitos no HR (Hospital Regional), por exemplo, livres para as vítimas da covid-19.

E não é só na rede pública. Também ontem, seis dias depois de inaugurar a 3ª ala de UTI para pacientes com o coronavírus, o Hospital da Unimed só tinha 1 leito disponível. Eram 29 das 30 vagas ocupadas.