De tiros a sequestro, relatório aponta risco de escalada de ataques a indígenas
Relatório aponta 18 tentativas de assassinato, 37 mortes e 42 suicídios de indígenas em MS em 2025
Ataques a tiros contra barracos, ações policiais com bombas de gás e balas de borracha, sequestro e relatos de violência sexual aparecem entre os episódios registrados em áreas chamadas de “retomadas” pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e pelas próprias comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul ao longo de 2025.
RESUMO
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Relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) registrou ataques a tiros, ações policiais com bombas de gás e balas de borracha, sequestro e violência sexual contra indígenas em retomadas de Mato Grosso do Sul em 2025. Os casos envolvem principalmente comunidades Guarani e Kaiowá. Em novembro, Vicente Fernandes Vilhalva foi morto a tiros na TI Iguatemipegua I. O estado registrou 37 assassinatos de indígenas e 18 tentativas no período.
O termo é usado para definir áreas que grupos indígenas voltam a ocupar por considerá-las parte de seus territórios tradicionais. Em vários desses locais há disputas fundiárias, processos de demarcação ainda não concluídos e propriedades rurais reconhecidas ou reivindicadas por particulares.
Os casos constam no relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, divulgado pelo Cimi, e se concentram principalmente em áreas ocupadas por comunidades Guarani e Kaiowá. Entre os locais citados estão Guyraroka, em Caarapó, Iguatemipegua I, em Iguatemi, e Dourados-Amambaipeguá III.
Em Guyraroka, o Cimi afirma que os conflitos se intensificaram a partir de setembro, depois que indígenas voltaram a ocupar parte da Fazenda Ipuitã, área apontada pelo relatório como sobreposta à terra indígena. Segundo a entidade, a ocupação ocorreu após denúncias da comunidade sobre pulverização de agrotóxicos próxima às moradias.
Conforme o documento, no dia seguinte à ocupação a Tropa de Choque da PM (Polícia Militar) realizou uma ação no local. O Cimi afirma que pelo menos dois indígenas foram atingidos por balas de borracha e que outros sofreram agressões. A entidade também sustenta que a intervenção ocorreu sem ordem judicial e sem a presença da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas).
A tensão continuou nas semanas seguintes. De acordo com o relatório, em 17 de outubro houve nova intervenção policial durante um protesto contra o avanço de tratores e o plantio próximo à comunidade. O Cimi relata que quatro indígenas, três mulheres e um adolescente de 14 anos, foram atingidos por balas de borracha. Outras cinco pessoas, entre elas duas gestantes, teriam sofrido intoxicação pela fumaça de bombas de gás.
Dias depois, o documento registra outro episódio em Guyraroka. Segundo o Cimi, uma adolescente de 17 anos foi capturada por homens apontados pelas lideranças como jagunços e levada até a sede da Fazenda Ipuitã. O relatório afirma que um indígena que tentou resgatá-la foi recebido com quatro disparos de arma de fogo e que, na sequência, houve tiroteio até a jovem ser libertada.
O próprio relatório informa que, posteriormente, uma escuta feita por órgãos públicos a pedido da Aty Guasu registrou relato de violência sexual contra a adolescente durante o período em que ela esteve retida.
Outro caso citado ocorreu em setembro na área chamada pelo Cimi de retomada de Porto Cambira, dentro da TI (Terra Indígena) Dourados-Amambaipeguá III. Segundo a entidade, homens armados atacaram a comunidade, efetuaram disparos e destruíram barracos. O documento também relata que policiais usaram bombas de gás e balas de borracha no mesmo dia.
Ao todo, o Cimi contabilizou 18 casos de tentativa de assassinato contra indígenas em Mato Grosso do Sul em 2025, diante de 38 ocorrências registradas no país. Isso representa cerca de 47% dos casos reunidos pela entidade.
Segundo o relatório, parte dessas tentativas ocorreu em ataques a comunidades e áreas chamadas de retomadas por indígenas e pela entidade. O Cimi relata episódios em que homens armados dispararam contra barracos e casas, colocando em risco pessoas que estavam nos locais ocupados.

Ataque terminou em morte em Iguatemi
Em novembro, um dos episódios registrados terminou em morte na TI Iguatemipegua I, em Iguatemi. O Guarani-Kaiowá Vicente Fernandes Vilhalva, de 36 anos, foi morto com um tiro na cabeça durante um ataque à área de Pyelito Kue ocupada por indígenas.
Segundo o Cimi, lideranças relataram que a comunidade foi cercada por veículos ocupados por cerca de 20 homens que seriam ligados a fazendeiros da região. O documento informa que, além de Vicente, outros quatro indígenas, entre eles dois adolescentes e uma mulher, foram atingidos por disparos. Barracos, alimentos, roupas e outros pertences também teriam sido destruídos ou incendiados durante a ação.
O sumário executivo do relatório cita a morte de Vicente entre três assassinatos considerados emblemáticos de conflitos territoriais ocorridos no país em 2025. O Cimi relaciona os casos à demora na conclusão de processos de demarcação.
37 assassinatos, mas circunstâncias não são detalhadas
Além dos episódios individualizados pelo Cimi, dados oficiais reproduzidos no relatório mostram que 37 indígenas foram assassinados em Mato Grosso do Sul em 2025, sendo 33 homens e quatro mulheres. O Estado aparece atrás de Roraima, com 82 casos, e Amazonas, com 47.
Esse total, porém, não permite concluir que as 37 mortes estejam relacionadas a disputas por terra.
Os números vêm de bases oficiais de mortalidade. O próprio Cimi informa que essas bases não trazem detalhes suficientes sobre o povo, o território ou a comunidade das vítimas e, por isso, não permitem uma análise mais aprofundada sobre as circunstâncias de cada assassinato.
Dessa forma, o levantamento não mostra quantas dessas mortes decorreram de conflitos fundiários e quantas podem estar relacionadas a violência doméstica, conflitos pessoais, criminalidade comum ou outras circunstâncias.
Para tentar compreender os contextos, o Cimi mantém um levantamento próprio, baseado em informações das equipes regionais e em notícias publicadas pela imprensa. Por essa metodologia, foram identificados 16 indígenas assassinados em Mato Grosso do Sul em 2025.
O relatório também registra 42 suicídios de indígenas em Mato Grosso do Sul em 2025, segundo maior número do país, atrás do Amazonas. Esse dado integra outro eixo do levantamento e não é tratado pela entidade como consequência direta dos conflitos fundiários.
Assim, o cenário descrito pelo Cimi nas áreas em disputa deve ser separado do conjunto das mortes registradas oficialmente. O relatório aponta uma sequência de ataques armados em locais reivindicados por comunidades indígenas, mas não atribui automaticamente todos os assassinatos de indígenas ocorridos no Estado a conflitos pela posse da terra.


