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Em Mato Grosso do Sul, pena de morte foi instituída, só que o juiz é o PCC

Medindo forças, facções espalharam o terror, inclusive em quem vive no “destemido” mundo do crime

Anahi Zurutuza | 30/12/2019 07:06
Em Mato Grosso do Sul, pena de morte foi instituída, só que o juiz é o PCC
Corumbá foi sede da segunda execução do ano; Gerson Surubi Arteaga, de 24 anos, encontrado morto decapitado na manhã do dia 2 de fevereiro; a execução foi filmada (Foto: Vídeo/Reprodução)
Corumbá foi sede da segunda execução do ano; Gerson Surubi Arteaga, de 24 anos, encontrado morto decapitado na manhã do dia 2 de fevereiro; a execução foi filmada (Foto: Vídeo/Reprodução)

“Não tem cabimento, quem julga é Deus”. O desabafo é de Daniele Martins Pacheco, de 36 anos, que, em menos de um ano, viu o segundo filho vítima das facções criminosas e seu “Tribunal do Crime”. O menino mais novo foi um das dezenas de executados, com requintes de crueldade, em Mato Grosso do Sul nos chamados “Justiçamentos”.

Há nove meses, Igor, de 20 anos, foi encontrado morto em cela de presídio em Rondonópolis (MT). A investigação indicou o suicídio simulado do filho mais velho de Daniele, assassinato praticado por integrantes do CV (Comando Vermelho) em represália ao fato do jovem ser do grupo criminoso inimigo, o PCC (Primeiro Comando da Capital).

No Estado vizinho, o poder o CV é notório, diferente de Mato Grosso do Sul, onde o “comando” das unidades do sistema carcerário, e consequentemente do exército que comete por aí crimes ordenados de dentro das celas, é do PCC.

“As organizações criminosas, em especial o PCC, têm agido intensamente em Mato Grosso do Sul, estado de importância fundamental para a expansão criminosa em face de sua localização estratégica. Muitos homicídios têm sido realizados por meio do chamado “Tribunal do Crime”, com específica divisão de tarefas, de forma organizada e hierarquizada, merecendo atenção especial dos órgãos de Justiça e Segurança Pública”, alertou o delegado Jarley Inácio de Souza no dia 6 deste mês, um dia depois do sumiço de Maykel Martins Pacheco, de 19 anos, o segundo filho de Daniele alvo dos “júris”.

Morador da Vila Nha-nhá, na Capital, segundo investigação, o rapaz foi sequestrado e executado por membros do PCC por ser “simpatizante” da facção rival. O corpo não foi encontrado.

Contrariando os defensores da pena de morte, fato é que tal punição já está claramente instituída em Mato Grosso do Sul, e não é de hoje. A diferença é que quem julga, não é Deus, como acredita a mãe que perdeu dois filhos, e nem os juízes, profissionais encarregados de fazer cumprir as leis que regem a sociedade, mas os integrantes das facções.

Regras - Nos “tribunais do crime”, delatores pagam com a vida. Ser integrante de facção rival infiltrado entre os inimigos, dívidas com o “comando” e o cometimento de crimes sem autorização dos superiores hierárquicos dentro da organização também estão entre as “piores faltas” cometidas por integrantes da seita.

Em geral, os “justiçamentos” são realizados por meio de videoconferência com celulares, quando presos em outras unidades têm poder de voto no caso de um interno julgado em determinado presídio ou quando o “júri” acontece fora das muralhas, mas precisa do aval do “chefe”, um presidiário.

Os dois filhos de Daniele: Igor, à esquerda, morreu nove meses atrás. Maykel está desaparecido. (Foto: Arquivo pessoal)
Os dois filhos de Daniele: Igor, à esquerda, morreu nove meses atrás. Maykel está desaparecido. (Foto: Arquivo pessoal)

Os condenados são torturados e quase sempre, têm a execuções filmadas. Muitos são decapitados. Os vídeos circulam entre os integrantes das facções a título de exemplo. Qualquer semelhança com grupos radicais que praticam terrorismo no mundo, como o Estado Islâmico, não é mera coincidência.

Medo generalizado – Medindo forças, essas organizações espalharam o terror, inclusive em quem vive no “destemido” mundo do crime. Plantonista do dia em que quatro homens foram presos por fazerem parte do “júri” que condenou Maykel, o delegado Jarley defendeu para a Justiça que os suspeitos não deixassem a prisão tão cedo, destacando que o medo generalizado impede que a polícia consiga informações sobre tais execuções.

“Trata-se de crimes de difícil solução, haja vista que os integrantes das organizações criminosas temem mais a elas, do que o sistema de Justiça estatal”.

No ano, três situações serviram de prova do pânico. A redação do Campo Grande News recebeu nos dias 1º e 2 de agosto ligações telefônicas inusitadas de um jovem que avisava sobre uma apreensão de veículo com droga em frente a uma academia, no Jardim Montevidéu, na região norte da Capital. O desespero tinha uma explicação: ele precisava provar que a carga não havia sido roubada para não ser morto. O rapaz revelou que o entorpecente pertencia do PCC.

Em setembro, quando foi condenado a 16 anos e 6 meses de prisão pelo assassinato de Jenenffer de Almeida, de 25 anos, Douglas Aparecido Cardoso, conhecido como “Baleado”, revelou no Tribunal do Júri, este oficial, o medo que tinha do que chamou de “disciplina do presídio”. Ele negou ser integrante do PCC e participação no crime, além de delatar outros envolvidos.

Por fim, teve a fuga cinematográfica protagonizada por Luiz Antônio Rodrigues dos Santos, no dia 11 de novembro. Aos 21 anos e dono de “coleção” de passagens policiais desde 2013, o jovem escapou no Centro e só foi pego no Jardim Colibri, em torno de 9 km distante. O motivo da fuga, segundo as informações levantadas pela polícia, é o medo de voltar para o presídio, de onde havia saído em setembro, como apurou a reportagem. Lá, confessou, tem “duzentão” de dívida de drogas.

Roni Clei de Oliveira foi encontrado amarrado com diversos fios e um cinto em um banheiro de residência (Foto: Batalhão de Choque/Divulgação)
Roni Clei de Oliveira foi encontrado amarrado com diversos fios e um cinto em um banheiro de residência (Foto: Batalhão de Choque/Divulgação)

Salvos – O ano começou com “condenados” sendo salvos dos “tribunais do crime”. Entre a noite do dia 31 de dezembro de 2018 e a madrugada do primeiro dia de 2019, após receber denúncia anônima, o Batalhão de Choque da Polícia Militar conseguiu evitar a morte de um jovem de 28 anos, identificado como Roni Clei de Oliveira. Ao chegar à residência do Jardim Alto São Francisco, os policiais encontraram o homem no banheiro, amarrado com diversos fios (de energia, de linha telefônica, de fones de ouvido) e um cinto. Ele estava ainda amordaçado com um pano.

Sob tortura, a vítima disse que foi obrigada a confessar que pertencia ao Comando Vermelho e seria assassinado. Três foram presos.

O segundo socorro aconteceu dias depois. Uma adolescente de 13 anos, grávida, foi espancada por integrantes do PCC até que policiais militares conseguiram encontrá-la, em Sidrolândia. 

Responsáveis pelo "julgamento" de Ricardo Domingues Simplício logo após serem flagrados pela polícia (Foto: Tá Na Mídia Naviraí)
Responsáveis pelo "julgamento" de Ricardo Domingues Simplício logo após serem flagrados pela polícia (Foto: Tá Na Mídia Naviraí)

No dia 1º de abril, foi a vez de Ricardo Domingues Simplício, de 31 anos, escapar da morte. Ele foi resgatado enquanto era torturado por nove pessoas em uma residência no Bairro Odércio Nunes de Matos, em Naviraí, cidade a 366 km de Campo Grande. Ele havia sido julgado por supostamente estuprar uma mulher, mas a investigação policial provou que a vítima nada tinha a ver com a violência sexual.

E teve mais. Ao longo de 2019, a polícia resgatou outras quatro pessoas de “justiçamentos”.

Assassinados – Tiago da Silva Jesus, de 17 anos, foi a primeira vítima de 2019. O adolescente teve a sentença de morte decretada por integrantes do PCC por ter sido considerado um espião do Comando Vermelho. Os “jurados” decidiram matá-lo depois de terem acesso ao Facebook do adolescente e confirmarem sua ligação com a facção rival. Tiago foi espancado e degolado no Jardim Aero Rancho, na Capital.

Corumbá foi sede da segunda execução do ano. Gerson Surubi Arteaga, de 24 anos, foi encontrado morto decapitado na manhã do dia 2 de fevereiro na cidade distante a 426 km de Campo Grande.

Vagner Sebastião dos Santos Haak, 27, o “Bugão”, foi morto no “tribunal do crime” por causa de uma dívida contraída na prisão no período em que cumpria pena por matar uma mulher em novembro de 2012. O corpo de Vagner foi encontrado com as mãos e pés amarrados e enrolado em lençóis, na manhã de 18 de abril, em Dourados, a 233 km de Campo Grande.

Para tentar escapar da morte, Rosimar Gomes de Souza da Cruz, 27, a “Medusa”, prometeu “rasgar” a camisa do Comando Vermelho e se converter ao PCC no dia 10 de maio. A promessa, no entanto, não foi suficiente para salvar a vida dela. Tudo foi filmado.

No dia 14 de junho, acusado de mandar matar bandidos rivais em Mato Grosso do Sul, Ulisses Silva Martins, 21, conhecido como “Colt” e “Projota”, foi transferido ontem (13) para o Presídio Federal de Mossoró (RN). Na conta dele, estão sete execuções na região de Dourados de simpatizantes da facção carioca, o CV.

Ao longo do ano, teve indígena, adolescentes, homens e mulheres assassinados, dentro e fora dos presídios do Estado. Só em dezembro, foram três assassinatos. 

Ironia do destino ou não, no dia 14 de dezembro, Maria Aparecida Vanderlei, 33 anos, foi encontrada às margens da Linha Esperança, no Assentamento Teijin, em Nova Casa Verde, distrito a 56 km de Nova Andradina. Ela tinha dívidas com o PCC.

Viatura do sistema penitenciário de Mato Grosso do Sul em frente à Depac centro neste domingo; presos foram levados para depor (Foto: Marcos Maluf)
Viatura do sistema penitenciário de Mato Grosso do Sul em frente à Depac centro neste domingo; presos foram levados para depor (Foto: Marcos Maluf)

Nos presídios - Julian Kenedi Vilhalva da Silva, 31 anos, foi encontrado morto dentro da cela de isolamento do IPCG (Instituto Penal de Campo Grande) no dia 25 de dezembro. Otavio Gomes da Cruz Pereira, de 29 anos, admitiu ter matado o detento e diz não ser faccionado, mas a reportagem apurou que o corpo da vítima foi marcado com os dizeres “CV era CV”. 

Neste domingo (29), interno do Presídio de Segurança Máxima Jair Ferreira de Carvalho, no Jardim Noroeste, em Campo Grande, foi morto enforcado por colegas de cela. Ele foi pendurado para que parecesse um suicídio. Edson dos Santos, de 41 anos, dividia espaço com outros sete presos, tendo dois deles confessado participação no crime.

Um dos internos, de 29 anos, afirmou ser o autor e mandante do homicídio. Ele confessou ter matado o colega de cela por ser membro do PCC, enquanto a vítima seria integrante da facção criminosa rival. Foi, portanto, o segundo caso em quatro dias em que presos morrer por causa da disputa entre facções criminosas.

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