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Cidades

"Explode": áudios revelam escalada de ameaças à filha de Palermo em cativeiro

Gravações obtidas pela polícia mostram ordens de agressão e ultimato para levar jovem ao Inferninho

Por Anahi Zurutuza e Marta Ferreira de Jesus | 27/10/2026 05:46
"Explode": áudios revelam escalada de ameaças à filha de Palermo em cativeiro
Gerson Palermo deixando Fórum de Campo Grande no dia 28 de maio, rumo ao presídio federal da Capital (Foto: Juliano Almeida/Arquivo)

O narcotraficante internacional Gerson Palermo acompanhou “em tempo real” o sequestro da própria filha, em outubro de 2025, em Campo Grande. Áudios extraídos do celular de um dos investigados revelam uma sequência de ameaças, ordens para intensificar as agressões e um ultimato para que a jovem fosse levada em direção ao Inferninho caso a família não entregasse o dinheiro exigido.

RESUMO

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Relatório da Garras, concluído em 23 de setembro de 2026, aponta que o narcotraficante Gerson Palermo acompanhou em tempo real o sequestro da filha, em outubro de 2025, em Campo Grande. Áudios extraídos do celular de Reinaldo Silva de Farias revelam ameaças, ordens de agressão e ultimato para levar a jovem ao Inferninho. A polícia o aponta como mandante. Palermo, preso em maio de 2026, nega a autoria e fala em encenação.

As informações constam de um relatório complementar da Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco e Resgate a Assaltos e Sequestros), concluído em 23 de setembro de 2026, ao qual o Campo Grande News teve acesso. O documento reúne 19 registros de áudio e mensagens extraídas do celular de Reinaldo Silva de Farias, conhecido como “Rei”, apontado pela Polícia Civil como coordenador operacional do crime.

A investigação atribui a Palermo o papel de mandante do sequestro. Segundo os policiais, o narcotraficante utilizou o vínculo familiar para atrair a filha até os criminosos e acompanhou a execução da ação por meio de contatos com os envolvidos.

A motivação do sequestro seria uma disputa familiar por dinheiro que Palermo alegava lhe pertencer. O narcotraficante acusava o avô materno da jovem de não devolver valores que estariam sob sua guarda. A defesa afirmou que a quantia era de R$ 50 mil, proveniente da venda de gado.

Durante a investigação, porém, a vítima relatou que os sequestradores mencionavam valores entre R$ 50 mil e R$ 1 milhão. A jovem negava saber qualquer coisa sobre o suposto valor.

Terror psicológico – Uma das gravações mais reveladoras foi registrada às 20h44 de 24 de outubro de 2025. No áudio de 57 segundos, o interlocutor determina que os sequestradores coloquem a mensagem para a vítima ouvir. Ele afirma que a mãe e o avô da jovem estariam amarrados e exige informações sobre o dinheiro. “Aí, coloca esse áudio para ela ouvir aí, ó, tá? A mãe dela já tá amarrada, o velho já tá amarrado lá, tá todo mundo amarrado”.

Na sequência, ele relata que o namorado e o avô da vítima estariam resistindo às exigências. Também afirma que o avô reconheceu a existência do dinheiro, mas atribuiu à mãe da jovem a responsabilidade pelo desaparecimento da quantia. “O vovô reconheceu o dinheiro que guardou, mas tá jogando para a mãe dela aqui, que foi a mãe dela que roubou, entendeu? A taca vai começar a rolar agora”, afirma a voz registrada.

O interlocutor faz ameaça de morte contra o avô. “Vamo lá invadir a casa do vô, e o primeiro que eu vou fazer pular [matar, na linguagem do mundo do crime] vai ser o vô”.

Por fim, determina que seja feita uma fotografia da jovem para enviar à mãe, como forma de comprovar que a filha estava em poder dos sequestradores. “Eu quero o dinheiro. Coloca para ela ouvir isso daí, tira uma foto dela que eu vou mandar para a mãe dela. A mãe dela tá achando que eu não peguei a filha. Tira uma foto da cara dela aí e manda pra mim”, ordena.

O trecho termina com uma determinação para aumentar a violência caso a vítima não colaborasse. “Aí se ela não falar, pode dar umas coronhadas e se ela gritar ou fazer auê, explode”.

Para a Polícia Civil, a gravação demonstra que os envolvidos recebiam instruções para pressionar a jovem física e psicologicamente. O relatório também aponta que as ameaças contra os familiares eram utilizadas para tentar obter o dinheiro exigido.

A pressão aumentou 18 minutos depois. Às 21h02, outra gravação, de 38 segundos, registra novas ameaças contra a filha de Palermo.

Dessa vez, o interlocutor afirma que o avô da jovem estaria passando mal e que a mãe dela saberia onde estava o dinheiro procurado. “Coloca no ouvido dela aí, a fita é o seguinte, o avô dela tá passando mal e tá quase morrendo, graças a Deus”, começa a mensagem.

Em seguida, ele afirma que a mãe da vítima estaria sendo agredida e determina que os sequestradores aumentem a pressão sobre a jovem. “A mãe dela já tá apanhando igual uma condenada, amarrada junto com o velho e agora quem vai começar a apanhar aí é ela”.

A gravação prossegue com uma ameaça de intensificação das agressões caso a jovem continuasse sem fornecer as informações exigidas. “Fala para ela soltar a voz que, se cair a madrugada, aí o chicote vai estralar, já estou avisando. Pode colocar ela para ouvir essa caminhada aí”.

Os investigadores interpretam as mensagens como demonstração de que a violência não era uma iniciativa isolada dos homens que mantinham a vítima no cativeiro. Segundo o relatório, as ordens eram transmitidas por integrantes responsáveis pela coordenação da operação.

O conteúdo também reforça o relato da jovem, que afirmou ter sofrido agressões físicas, coronhadas e ameaças constantes durante o período em que permaneceu sequestrada.

“Vou matar um por um” – O momento de maior tensão registrado nas gravações ocorreu às 21h24. Em um áudio de 38 segundos, o interlocutor estabelece um prazo até as 21h30 para que os familiares atendam às exigências.

Caso não houvesse acordo, a determinação era colocar a jovem em um veículo e levá-la em direção ao Inferninho, região de Campo Grande. “A fita é o seguinte, meu brother, a fita é o seguinte, se até nove e meia ninguém falar, você pode pegar ela, jogar no carro e pode ir sentido Inferninho, beleza?”, determina.

Na sequência, a voz afirma que aguardava havia seis meses pela resolução da situação envolvendo o dinheiro e faz novas ameaças contra a família. “Não vou esperar mais não, esperei 6 meses essa caminhada aí, tá? E o vovô dela tá passando mal lá também, tá morrendo o velho desgraçado, né? Pelo menos um vai pular.”

O interlocutor então estabelece a consequência caso o prazo termine sem acordo. “Vou matar um por um. Deu nove e meia, não teve acordo, vamos pegar sentido Inferninho, tá? Beleza? Essa que é a ordem.”

Para a Polícia Civil, o conteúdo demonstra que havia uma cadeia de comando responsável por determinar os próximos passos do sequestro. O relatório, entretanto, não identifica expressamente o autor da voz que transmitiu essa ordem, embora Palermo seja apontado como mandante.

"Explode": áudios revelam escalada de ameaças à filha de Palermo em cativeiro
Casa onde vítima foi mantida em cativeiro. (Foto: Campo Grande News/Arquivo)

“Tudo em tempo real” – Uma gravação registrada na manhã seguinte, em 25 de outubro de 2025, reforçou a conclusão dos investigadores de que o sequestro era acompanhado à distância por Palermo.

Às 11h18, um dos interlocutores comenta o que havia ocorrido durante a ação e afirma que os acontecimentos eram monitorados em tempo real por alguém identificado como “o velho”. “Mas como estava tudo em tempo real junto com o velho lá, não deu”, diz um trecho da gravação.

O interlocutor também comenta a reação da mãe da jovem durante as ameaças e relata ter participado da devolução dos objetos pessoais retirados da vítima. “Para você ter uma ideia, eu fui lá, peguei o celular hoje, peguei o notebook, entendeu? Fui lá, entreguei lá em mãos, lá, para o pessoal.”

Palermo nega participação – O narcotraficante estava foragido da Justiça e escondido na Bolívia quando a filha foi sequestrada. Ele foi preso em 30 de maio de 2026 e encaminhado ao sistema penitenciário federal.

Em depoimento à Justiça, Palermo negou ter determinado o sequestro da filha. Sua defesa sustenta que o episódio teria sido uma encenação combinada, destinada a pressionar familiares pela devolução de dinheiro.

A versão é contestada pela vítima, que afirmou ter sido enganada pelo próprio pai de criação e submetida a ameaças e agressões. Reinaldo também negou participação no crime.