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Cidades

Mais da metade das mulheres assassinadas em MS foi vítima de feminicídio

Descumprimento de medidas judiciais de proteção alavanca aumento da violência

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 23/07/2026 08:43
Mais da metade das mulheres assassinadas em MS foi vítima de feminicídio
om camisetas brancas, família de Vanessa e Sophie. mãe e filha mortas em maio de 2025 (Foto: Paulo Francis)

Enquanto o Brasil alcançou em 2025 a menor taxa de MVI (Mortes Violentas Intencionais) desde o início da série histórica do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), há duas décadas, Mato Grosso do Sul manteve uma tendência preocupante na violência contra a mulher. No ano passado, o Estado registrou 39 feminicídios, quatro a mais que os 35 contabilizados em 2024, crescimento de 10,5%. Os homicídios de mulheres também aumentaram, passando de 63 para 70 vítimas. Metade das mulheres assassinadas no Estado morreu em contexto de feminicídio: a proporção passou de 55,6% para 55,7%, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

RESUMO

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Mato Grosso do Sul registrou 39 feminicídios em 2025, alta de 10,5% em relação aos 35 casos de 2024, enquanto os homicídios de mulheres subiram de 63 para 70 vítimas, contrariando a tendência nacional de queda nas mortes violentas. Os descumprimentos de medidas protetivas cresceram 21,5% no Estado, acima da média nacional de 16,7%, revelando fragilidade na proteção às mulheres em situação de risco.

Os dados mostram que a violência letal contra mulheres não acompanha a tendência nacional de redução dos homicídios. Em todo o país, as MVI caíram 8,2% em relação ao ano anterior (de 20.8 para 19.1), mas os feminicídios cresceram 4%, chegando a 1.571 vítimas em 2025. O FBSP aponta que esse aumento veio acompanhado da expansão de praticamente todos os indicadores relacionados à violência doméstica, revelando que o assassinato costuma representar o desfecho de um ciclo de agressões que, muitas vezes, já era conhecido pelas autoridades.

Mais da metade das mulheres assassinadas em MS foi vítima de feminicídio
Gilberto Jarson entrando em viatura depois de matar a namorada policial militar em março deste ano (Foto: Paulo Francis)

Desprotegidas

Em Mato Grosso do Sul, esse padrão também aparece nos demais indicadores. Os registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica aumentaram 19,4% entre 2024 e 2025, enquanto os casos de descumprimento de medidas protetivas de urgência cresceram 21,5%, percentual superior ao registrado nacionalmente. Os números absolutos ajudam a dimensionar esse cenário. Em 2025, o país registrou 132.025 casos de descumprimento de medidas protetivas de urgência, alta de 16,7% em relação aos 112.695 do ano anterior. As ocorrências passaram de 2.294 para 2.809, o que demonstra o crescimento de 21,5%. As ocorrências de ameaça também subiram, ainda que de forma mais discreta, 1,8%.

Quando esses registros são comparados ao total de feminicídios, o tamanho da violência cotidiana fica mais evidente. Segundo o FBSP, para cada mulher assassinada por razões de gênero, foram contabilizados, em média, 501 casos de ameaça, 182 agressões físicas, 84 descumprimentos de medidas protetivas, 79 ocorrências de stalking, 39 episódios de violência psicológica e quase três tentativas de feminicídio. A comparação dimensiona a sequência de violências que, muitas vezes, antecede o assassinato.

O crescimento do descumprimento das medidas protetivas chama atenção porque essas decisões judiciais deveriam funcionar justamente como mecanismo de proteção às mulheres em situação de risco. O aumento indica que um número maior de agressores deixou de cumprir determinações impostas pela Justiça, elevando a vulnerabilidade das vítimas.

O Anuário mostra que o feminicídio raramente acontece de forma isolada. Para cada mulher assassinada por razões de gênero no Brasil, foram registrados, em média, 501 casos de ameaça, 182 agressões físicas, 84 descumprimentos de medidas protetivas, 79 ocorrências de stalking, 39 episódios de violência psicológica e quase três tentativas de feminicídio. A sequência revela uma escalada de violência que, na maioria das vezes, antecede o crime fatal.

Mais da metade das mulheres assassinadas em MS foi vítima de feminicídio
Corpo de mulher morta em março, em Coxim (Foto: Arquivo)

Dormindo com o inimigo

Embora Mato Grosso do Sul tenha registrado uma pequena redução nas tentativas de feminicídio, de 90 para 88 casos, o número de crimes consumados aumentou. O contraste sugere que a diminuição das tentativas não foi suficiente para reduzir as mortes e reforça a necessidade de analisar o comportamento dos demais indicadores da violência doméstica.

O perfil nacional das vítimas também reforça que o feminicídio continua sendo um crime praticado, predominantemente, dentro das relações afetivas e familiares. Segundo o Anuário da Segurança, 96,4% dos casos com autoria identificada tiveram homens como autores. Em 60,9% dos feminicídios, o agressor era o parceiro íntimo da vítima; em outros 18,9%, o ex-companheiro; e em 12,1%, um familiar. Mais da metade das mulheres assassinadas morreu dentro da própria residência.

Esses números ajudam a explicar por que os especialistas tratam o feminicídio como o estágio extremo de um processo contínuo de violência doméstica. A maior parte das vítimas já havia sofrido agressões, ameaças ou outras formas de violência antes do assassinato.

O Anuário identifica avanço em diversos crimes relacionados à violência contra a mulher. Em todo o país, os registros de violência psicológica cresceram 16,9%;  os de stalking, 30,1%; e as tentativas de feminicídio, 5,9%. Para o FBSP, o conjunto desses indicadores mostra que, embora o Brasil esteja conseguindo reduzir a violência letal em geral, a violência praticada dentro de casa permanece resistente e continua crescendo.

A combinação entre alta dos feminicídios, crescimento das lesões corporais e aumento expressivo do descumprimento de medidas protetivas aponta na mesma direção no Estado. Os números sugerem o fortalecimento de um ambiente de violência doméstica persistente, que desafia as políticas de prevenção e proteção às vítimas.