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Cidades

Nem risco de morte por coronavírus tira idoso do tradicional dominó na praça

De 40 a 50 pessoas de grupo de risco estavam na Praça Ary Coelho; pela cidade, muitos foram vistos nos mercados

Por Silvia Frias e Lucas Mamédio | 19/03/2020 10:44
Mão no rosto e aglomeração de pessoas do grupo de risco, cenário que contraria todas as recomendações de saúde (Foto: Marcos Malfu)
Mão no rosto e aglomeração de pessoas do grupo de risco, cenário que contraria todas as recomendações de saúde (Foto: Marcos Malfu)

Confiando em Deus, na sorte ou na crença de conspiração econômica internacional, dezenas de idosos circulavam hoje na Praça Ary Coelho, em Campo Grande, muitos, enfrentando a crise pandêmica do novo coronavírus para honrar o compromisso do jogo de baralho ou dominó com os colegas.

De 40 a 50 pessoas estavam hoje de manhã na praça, conforme constatação da reportagem. Um grupo se aglomerava na mesa de jogos, aguardando a vez de jogar Pife ou dominó. Próximo a eles, grupo de moradores de rua batucava um pagode nas mesas, a trilha sonora da jogatina.

Para Francisco, o vírus é uma "conspiração econômica" (Foto: Marcos Maluf)
Para Francisco, o vírus é uma "conspiração econômica" (Foto: Marcos Maluf)

O aposentado Francisco José Alves, 66 anos, estava em pé, aguardando a vez para jogar dominó. Ele é do grupo que acredita que o coronavírus é uma “conspiração econômica de governos internacionais” para derrubar preço de alimentos. “A morte não escolhe idade, já enterrei muita gente nova, já passei por tudo, nem a onça quis me comer”.

Já para Romão Bispo, 73 anos, ex-jogador do Operário, o destemor é fruto da crença divina “Não tenho medo, porque quem manda em tudo é Deus”, disse, acrescentando que não pretende mudar a rotina.

Outro frequentador da praça, o aposentado Robson Marcos, 61 anos, disse estar preocupado com a pandemia, mas que não irá mudar a rotina por conta do novo coronavírus. “Minha vida não pode parar”. A precaução foi escolher lugares abertos para circular e, hoje, estava sentando no banco, observando movimentação.

Além dos que frequentam a Praça Ary Coelho, a reportagem constatou a presença de pessoas do grupo de risco circulando pela região central.

Rosa só saiu porque tinha que trabalhar (Foto: Marcos Maluf)
Rosa só saiu porque tinha que trabalhar (Foto: Marcos Maluf)

Paulo Baltazar, 60 anos, mora em uma chácara em Rochedinho e está em Campo Grande para consultar dentista. Está preocupado com as notícias, mas o alívio é justamente por morar longe da cidade. “Mas o senhor não está com medo de estar na cidade?”, questionamos. “É rápido, daqui a pouco estou voltando para Rochedinho”.

Há ainda os idosos que resolveram ir ao mercado, também contrariando todas as recomendações. A professora Solange Lemos, 56 anos,  ficou espantada ao ver tantos "velhinhos" na manhã desta quinta-feira no Comper da Rua Brilhante. "As pessoas que deviam estar em casa são as que mais estão no supermercado", comentou.

Na fila do Atacadão, na Avenida Duque de Caxias, estava Hélio Rocha da Silva, 70 anos. À frente dele, em distância de apenas um carrinho entre os clientes, de oito a dez pessoas que aguardavam atendimento no caixa.

No mercado, Hélio acha tudo um exagero (Foto: Henrique Kawaminami)
No mercado, Hélio acha tudo um exagero (Foto: Henrique Kawaminami)

 “Não deveria nem estar aqui”, disse, rindo. Para ele, todas as normas impostas representam “momento de desequilíbrio de pessoas que acham que o mundo vai acabar”. O problema, segundo ele, é que todos ficam nervosos. “Ficam querendo atropelar os outros”.

Estudos feitos por países que enfrentaram o pico do coronavírus indicam o aumento da letalidade entre as pessoas com idade acima dos 60 anos, aumentando progressivamente. Na China, por exemplo, 14,8% das mortes foram de idosos acima de 80 anos, 8% na faixa dos 70 e 3,6% entre 60 a 69 anos.

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