ACOMPANHE-NOS    
JULHO, SÁBADO  11    CAMPO GRANDE 20º

Cidades

Para irmão, Eli poderia ter evitado morte por covid-19, se acreditasse na doença

O caminhoneiro Eli Simão morreu no último sábado, vitima do novo coronavírus

Por Lucia Morel | 03/06/2020 15:55
Eli completaria 61 anos em setembro deste ano. (Foto: Arquivo Pessoal)
Eli completaria 61 anos em setembro deste ano. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Humanamente falando, nossa sensação é de que se ele aceitasse a doença, tivesse usado máscara, o álcool quando a gente falava, ficasse mais isolado e tomasse os cuidados mesmo. Se tivesse chegado aqui e já procurado o médico, talvez isso não tivesse acontecido”.

A sentença acima é de Enoque Simão, 66 anos, irmão de Eli Simão da Silva, que em setembro deste ano, completaria 61 anos de idade, caso não tivesse sido vítima de covid-19. Caminhoneiro, ele foi a 20ª pessoa a morrer da doença em Mato Grosso do Sul, no último dia 30 de maio.

Eli era hipertenso e diabético, mas segundo contou o irmão - que é técnico em contabilidade e corredor, participando inclusive de competições -, não ligava muito para a saúde e sobre o novo coronavírus, não acreditava que a doença era perigosa, grave e muitas vezes, até questionava se de fato ela existia.

“Ele era bem arredio na aceitação da pandemia”, conta Enoque, que junto com outra irmã, fizeram o que puderam para que Eli procurasse um médico.

“Ele achava que era politicagem, que queriam se aproveitar da situação e gastar dinheiro do povo à toa e quem morria, morria de outras doenças e não de coronavírus, que isso tudo era só pra amedrontar o povo”, continuou. E infelizmente, Eli foi vítima fatal da doença na qual não acreditava.

Como caminhoneiro, ele trabalhava para uma empresa em Dourados, onde fazia os carregamentos e de lá, saía para as entregas em Paulínea (SP), às vezes Porto de Paranaguá (PR) e outros locais entre esses dois Estados. Ele, no entanto,  morava em Campo Grande, no bairro São Conrado.

“As duas últimas viagens que fez foi para Paulínea e na última, chegou aqui e já estava mal”, disse o contabilista, lembrando que esse dia foi uma quinta-feira, 21 de maio.

Eli e alguns dos seus irmãos, ao lado do pai, que faleceu ano passado. (Foto: Arquivo Pessoal)
Eli e alguns dos seus irmãos, ao lado do pai, que faleceu ano passado. (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo o irmão, Eli se queixou de estar tonto e cansado. Passou pela casa de Enoque rapidamente e foi para casa. No dia seguinte, Enoque telefonou perguntando como estava, e Eli relatou que estava com sinusite, tendo febre e dor de cabeça. Para o irmão, aquilo soou estranho e o alerta se acendeu.

“Por ele ser caminhoneiro, a gente se preocupava. Ele lidava com muita gente, cozinhava bem e estava sempre com colegas em volta. A gente tinha medo do coronavírus”, sustentou Enoque, lembrando que a irmã Rute, que foi uma das últimas ver o irmão vivo, compartilhava do mesmo temor.

Ainda na sexta-feira, o caminhoneiro reclamou ao irmão, ao telefone, que estava sem fome e sem paladar. Orientado a procurar um médico, ele não foi.

Passado o fim de semana, a situação piorou e Eli parecia estar com falta de ar. Assim, segunda-feira os irmãos se propuseram a levá-lo para atendimento de saúde, mesmo que ele não quisesse.

À noite, Rute saiu até a casa de Eli para acompanhá-lo, mas antes, ligou para o Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência), que o encaminhou para o CRS (Centro Regional de Saúde) do bairro Coophavilla II.

De lá, ele seguiu sem acompanhante para o HRMS (Hospital Regional Rosa Pedrossian), de onde saiu direto para ser enterrado, na tarde de sábado, 30 de maio.

“Já falamos pro Samu que era suspeita de coronavírus e eles foram buscá-lo. Quando levaram ele pro Regional, já falaram que ninguém podia ir junto”, lamentou Enoque, dizendo que foi a última vez que viu o irmão vivo.

O técnico em contabilidade contou ainda que na terça-feira o irmão já foi entubado para respirar por aparelhos em UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Nos dias seguintes, o quadro, apesar do tratamento, foi piorando e culminou no falecimento.

Adventista, Enoque fala que apesar de acreditar na vida eterna e esperar a volta de Jesus com esperança, “como ser humano, eu sinto falta, claro que meu irmão faz falta. É muito difícil falar que está tudo bem. Nós todos estamos sujeitos à morte, apesar de Deus não nos ter criado para isso”, acredita.

Eli deixa duas filhas adultas e outros nove irmãos, que somam à dor de perdê-lo, o fato de isso ter acontecido justamente um ano depois de terem perdido os pais. “Mas eles, pelo menos, estavam idosos, morreram de velhice”, finaliza Enoque.