Elas, as viúvas, e as confusões com seus filhos
Tal como hoje, no passado, havia mais viúvas que viúvos no Mato Grosso do Sul. Mas era bem diferente. A morte do companheiro era enquadrada por rituais obrigatórios. O longo período de luto era difícil de superar, podia valer para sempre. Viúvos não tinham de portar luto obrigatório e voltavam mais rápido para o mercado matrimonial. Quanto a elas, o tratamento podia ir da exclusão à indiferença total. Era lhes exigido um comportamento exemplar equivalente à prisão em sua residência, com visitas diárias à igreja. Roupas sempre pretas, poucos ou nenhum gesto que chamasse a atenção. Tudo isso acusava sua imediata mudança de situação. A morte do marido raramente quebrava o contrato de casamento. Punham-lhes grilhões nos pés.
A viúva era um “bom negócio”.
Como as viúvas se organizavam depois que se viam sozinhas? Se tinham bens, elas se tornavam imediatamente um “bom negócio”. Eram uma “mercadoria” valiosa, altamente cobiçada. Mas essa era a realidade de poucas. A grande maioria via seus companheiros partirem sem lhes deixar nada. Sem dar notícias. Sem voltar. Viviam no limbo da falta de informações. Mas elas raramente ficavam inteiramente sós. Havia, à volta delas, uma rede de filhos e netos. Era o maior bem que lhes sobrava.
Sempre boazinhas?
Não. Viúvas interferiam sempre, quase obrigatoriamente, no matrimonio dos filhos. Não faltavam conflitos. Eram tantos, que levavam os filhos a recorrerem à justiça - quando esta existia - para escolher com quem se casar sem interferência da mamãe. A razão invocada pela viúva era quase sempre a desigualdade de condições: cor da pele, idade, situação social. O mais importante era o dinheiro. Filhos fugiam para casar-se. Confusões também surgiam frequentemente devido à herança. Era costume as viúvas lutarem para postergar a divisão do espólio. Ainda que raramente elas passassem a um novo matrimônio, os filhos ficavam sem a herança quando o casamento ocorria.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.




