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Capivara Criminal

O que faz pistoleiro de "Arcanjo" em audiência da Omertà?

Por Marta Ferreira | 28/03/2021 07:45
"Cabo Hércules", como era conhecido, durante audiência de processo criminal no Mato Grosso. (Foto: Olhar Direto)
"Cabo Hércules", como era conhecido, durante audiência de processo criminal no Mato Grosso. (Foto: Olhar Direto)

O nome de Hércules de Araújo Agostinho dito assim, completo, pouco quer dizer. Pode ser um anônimo qualquer. O apelido, “Cabo Hércules”, já muda a história. Pesquisa rápida na internet leva às notícias sobre o pistoleiro condenado a mais de um século de prisão, por assassinatos cometidos em Cuiabá, capital do Mato Grosso, na década de 2000, a mando do “Comendador Arcanjo”, que ficou 15 anos preso por chefiar o crime organizado no estado vizinho.

No dia 24 de março, quinta-feira, Hércules, de 51 anos, surgiu durante audiência judicial em Campo Grande, como testemunha de defesa em processo oriundo da operação Omertà, contra milícias armadas com atuação parecida à quadrilha de João Arcanjo Ribeiro, comandadas pela família Name em Campo Grande e pelos Georges em Ponta Porã.

A sessão por videoconferência foi comandada pelo juiz Aluizio Pereira dos Santos, titular da 2ª Vara do Tribunal do Júri.

Falando diretamente da PCE (Penitenciária Central do Estado), em Cuiabá, “Cabo Hércules” depôs em favor de Marcelo Rios, ex-guarda civil metropolitano réu pela execução de Marcel Hernandez Colombo, o “Playboy da Mansão”, perpetrada no dia 18 de outubro de 2019 por dupla em motocicleta em restaurante da Avenida Fernando Correa da Costa. Colombo, conforme a acusação, foi vítima de vingança de Jamil Name Filho, preso desde setembro de 2019, na prisão federal de Mossoró (RN).

Hércules de Araújo Agostinho na tela do vídeo durante audiência em processo derivado da operação Omertà, no dia 25. (Foto: Reprodução de vídeo)
Hércules de Araújo Agostinho na tela do vídeo durante audiência em processo derivado da operação Omertà, no dia 25. (Foto: Reprodução de vídeo)

O que ele disse - Coube ao depoente Hércules desqualificar informações levadas às autoridades por outro detento, esse o pivô de descoberta de plano de execução de autoridades atribuído à organização ilegal da qual Marcelo é integrante, conforme a força-tarefa da Omertà.

Hoje sob proteção das autoridades e transferido para Mato Grosso do Sul, o homem em questão anotou em um papel recados passados entre os colegas de penitenciária em Mossoró (RN), incluindo Marcelo Rios. As mensagens usavam os chamados "pneus", escritos em papel higiênico repassados de cela em cela até serem destruídos no vaso sanitário.

“Cabo Hércules”, ao responder as perguntas de defesa e acusação, disse que o detento colaborador fez espécie de acordo com as autoridades para conseguir voltar a cumprir pena em Campo Grande. Definiu o colega de cárcere como alguém não confiável e “mal visto” entre os internos por ser “cagueta”. Isso porque levaria informações da massa carcerária para a direção da cadeia para obter vantagens.

O prisioneiro, nas palavras do depoente, também oferecia vantagens, até o uso de celular dentro da cela, além de nunca ter sido punido por ter objetos proibidos com ele. Citou como exemplo um barbeador.

Ou seja, além de atacar a veracidade das revelações do preso, “Cabo Hércules” lançou suspeitas sobre a direção da penitenciária federal de segurança máxima de Mossoró, administrada pelo Ministério da Justiça.

Esse plano de ataque, cujos alvos seriam um delegado, um promotor e um defensor atuantes na operação Omertà, é tratado em outro processo criminal, por obstrução da justiça, em que Marcelo Rios também é parte acusada.

A ação na qual “Cabo Hércules” foi testemunha está na fase de ouvir os favoráveis aos réus. A intenção clara dos advogados de Rios com as afirmações do pistoleiro condenado só vai ser conhecida quando apresentarem as alegações finais ou, ainda, durante o júri, sem data marcada.

Ainda falta ouvir mais testemunhas de defesa e interrogar os acusados.  As audiências para isso estão marcadas para junho do próximo ano.

Quem é? Cabo Hércules foi transferido de volta a Cuiabá em setembro do ano passado depois de uma década “morando”, como ele mesmo disse, em presídios federais. Passou pelo de Campo Grande, assim como o homem apontado como seu chefe no mundo do crime, João Arcanjo Ribeiro.

“Comendador Arcanjo”, de 69 anos,  ficou na penitenciária federal de Campo Grande de 2007 a 2011. Investigado na “Arca de Noé”, uma das maiores operações já desenvolvidas no Mato Grosso, ele teve a prisão decretada em dezembro de 2002, por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e exploração de jogos de azar, do jogo do bico aos caça-níqueis.

Só foi preso em abril de 2003, no Uruguai. Extraditado para o Brasil em 2006, foi condenado também pela execução do dono de jornal em Cuiabá Sávio Brandão, vítima aos 40 anos, em setembro de 2002. Sávio foi fuzilado na frente da empresa, provocando comoção.

“Cabo Hércules”, segundo a acusação, foi o pistoleiro dessa execução.

Também foram sentenciados, como mandante e executor, por duplo assassinato ocorrido em junho de 2002, a pena superior a 45 anos. Essa condenação havia sido anulada em relação a Arcanjo, mas foi restaurada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) em dezembro de 2020.

Ligados a MS - Ambos têm origem em forças de segurança. Hércules foi policial militar e Arcanjo da Polícia Civil. Os dois têm ligações com Mato Grosso do Sul.

João Arcanjo Ribeiro durante audiência de processo no Mato Grosso. (Foto: Gazeta Digital)
João Arcanjo Ribeiro durante audiência de processo no Mato Grosso. (Foto: Gazeta Digital)

O assassino de aluguel nasceu em Nova Andradina, na região sul do Estado.

Arcanjo foi policial em Campo Grande, quando Mato Grosso e Mato Grosso do Sul eram um só.

Relatório sobre ele citado em documento do STF (Supremo Tribunal Federal) explica o nascedouro de seu poder criminoso, diretamente ligado à realidade sul-mato-grossense.

De origem humilde, vindo do interior goiano, nos anos 70, tornou-se policial civil e segurança, quando se associa em 1983 a dois bicheiros de Mato Grosso do Sul e implanta o jogo do bicho em Mato Grosso, sendo que a partir de 1985 se torna o único controlador do jogo na Capital, e também no interior, com a marca Colibri, símbolo de poder do Comendador”, assinala o texto disponível em decisão do Supremo.

O título de 'O Comendador' foi concedido pela Assembléia Legislativa de Mato Grosso, em 1997, quando se tornou cidadão daquele estado, com toda a reverência de eventos do tipo.

No atual momento, “Cabo Hércules” segue cumprindo a pena na penitenciária cuiabana. Arcanjo está em liberdade condicional, depois de 15 anos recluso. Pode voltar a ser preso se for mantida a decisão do STJ a respeito das duas execuções de duas décadas atrás da qual havia se livrado.

(*) Marta Ferreira, que assina a coluna “Capivara Criminal”, é jornalista formada pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), chefe de reportagem no Campo Grande News. Esse espaço semanal divulga informações sobre investigações criminais, seus personagens principais, e seu andamento na Justiça.

Participe: Se você tem alguma sugestão de história a ser contada, mande para o e-mail marta.ferreira@news.com.br. Você também pode entrar em contato pelo WhatsApp, no Canal Direto das Ruas, no número  67 99669-9563.

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