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Capital

“A madame ou madamo não quer parar mais para frente”: a saga dos folgados na rua

Com desprezo às leis de trânsito, faixa amarela ou garagem não impedem de estacionar

Por Aline dos Santos | 18/10/2023 12:12
Veículo em frente à garagem no Bairro Carandá Bosque. (Foto: Marcos Maluf)
Veículo em frente à garagem no Bairro Carandá Bosque. (Foto: Marcos Maluf)

A diferença é de passos. Mas há quem prefira estacionar o veículo de forma irregular, seja em frente à garagem ou na faixa amarela, a procurar um local livre de multa e que não vire um tormento para os moradores da rua. O preço, no caso, é só caminhar um pouco mais.

Parte da explicação é por conta da falta de fiscalização, levando o infrator a passar a salvo de multa de R$ 130,16 e quatro pontos na CNH (Carteira Nacional de Habilitação). Outra parte encontra respaldo no simples desprezo ao próximo.

“É a madame ou madamo que não quer parar lá na frente”, resume morador do Bairro Carandá Bosque, no entorno da praça onde é realizada feira um domingo por mês.

Diante do grande fluxo de expositores e visitantes, as reclamações até surtiram em medidas para tentar “civilizar” o trânsito, como a pintura de faixa amarela (que proíbe estacionamento) e placas com o informativo “proibido estacionar em dia de feira”.

Mas a cada domingo com o evento, os moradores relatam que o CTB (Código de Trânsito Brasileiro) é afrontado e a região vira um caos. Morador no Carandá Bosque há 35 anos, um homem, que pediu para não ser identificado por morar defronte à Praça Bosque da Paz, relata que gasta 17 minutos para percorrer uma curta distância, isso porque a faixa amarela é simplesmente ignorada.

Ele conta que a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) envia agentes pela manhã e condutores são multados, mas logo vão embora e os carros voltam, agora livre de multas.

Faixa amarela e placas proíbem estacionamento na Praça Bosque da Paz. (Foto: Marcos Maluf)
Faixa amarela e placas proíbem estacionamento na Praça Bosque da Paz. (Foto: Marcos Maluf)

Moradora de 58 anos, que também pediu para não ter o nome divulgado, é mais uma a conviver com a falta de educação dos condutores. “Já fiquei meia hora para conseguir sair de casa”, diz. A espera foi para que a pessoa que deixou o carro em frente à garagem do seu imóvel voltasse do passeio. Noutra ocasião, o condutor foi ainda mais ousado: deixou o carro já em cima da calçada, bem pertinho do portão da garagem.

“Já aconteceu de a pessoa pedir para deixar o carro por 10 minutos para descarregar bolos. Eu deixei, ela pediu com educação e não vi problemas.”

Para Amenade Martins Alves Correia, 71 anos, os “folgados” do trânsito se tornam mais perigosos porque dificultam a passagem da ambulância, que de forma recorrente precisa buscar seu esposo, acamado há 13 anos.

Ela conta que nessa hora é preciso que alguém anuncie no sistema de som e depende da boa vontade dos motoristas. Os mesmos que já desprezaram a placa e a faixa proibindo o estacionamento.

“Moro aqui há 30 anos. Viemos do Espírito Santo, plantamos árvores no bosque, meu marido vivia em função de cuidar das plantas. Consegui na Agetran a faixa amarela para a minha rua. Mas é um tormento conseguir sair de casa. Para passar a ambulância, precisa avisar no alto falante. O pessoal não respeita a faixa amarela”, diz Amenade.

Num estacionamento, é fácil traçar a métrica da preguiça. Em supermercado na Vila do Polonês, por exemplo, as vagas especiais para idosos, gestantes e deficientes ficam a 12 passos da entrada. Já na vaga mais distante, a distância é de 47 passos. Ou seja, não custa andar mais um pouquinho.

Placa indicativa de vagas especiais, mair perto da entrada,  em estacionamento de mercado. (Foto: Marcos Maluf)
Placa indicativa de vagas especiais, mair perto da entrada,  em estacionamento de mercado. (Foto: Marcos Maluf)

Além do Código de Trânsito Brasileiro, o Código Civil também pode ser adotado para que o estacionamento irregular em frente de garagens “doa” no bolso. Contudo, essa modalidade de ação ainda é pouco usual e tem requisitos específicos, além da necessidade de reunir provas.

De acordo com o advogado Rodrigo Barros Loureiro de Oliveira, há possibilidade de gerar danos morais para àqueles que fiquem em situação constrangedora. “Por exemplo, o cidadão precisa sair urgente de sua residência, alguma emergência médica, e tem sua saída impedida. Nesses casos, seria interessante fotografar e filmar para ter provas da urgência”.

A organização da Feira do Bosque da Paz informou que já faz trabalho de conscientização com os expositores e orienta os visitantes a usarem carros de aplicativo para não tumultuar o trânsito.

"Vale lembrar que a feira não pode ser responsabilizada pelo trânsito, uma vez que existe uma agência só para isso. Inclusive fomos proibidos pela Agetran de colocar pessoas trabalhando no trânsito, com a ameaça de sermos multados pelo órgão por fazer um trabalho que não nos compete. Estamos implorando ajuda deles no trânsito desde setembro de 2022 e o retorno é sempre de que não tem efetivo. No mês de agosto, quando fizeram as mudanças, o combinado com eles era ter agentes durante todo o período da feira no local, o que também não acontece, pois eles ficam ali só até as 11h, quando começa o maior fluxo", acrescentou o texto enviado à reportagem via Instagram.

A Agetran informou que realizou ações de orientação em um primeiro momento e, em seguida, passou a autuar os motoristas que cometem infração no local e entorno, além de realizar rondas para fiscalização nos dias da feira do Bosque da Paz, orientando os motoristas por descumprimento às leis de trânsito.

(*) Matéria alterada para o acréscimo do retorno da organização da feira às 15h12.

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