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Capital

Em apenas 5 meses, MS já teve mais feminicídios que em 2019 inteiro

Cinco mulheres foram assassinadas em Campo Grande, crimes de feminicídio, contra 4 no mesmo período de 2019

Por Izabela Sanchez | 04/06/2020 11:02

Campo Grande News - Conteúdo de Verdade

Campo Grande adotou medidas rápidas e urgentes, mas por pouco tempo e Mato Grosso do Sul como um todo começa a sentir agora a curva acelerada do contágio do novo coronavírus. Ainda assim, em 5 meses, morreram na Capital do Estado mais mulheres do que no mesmo período de 2019.

Foram cinco mulheres assassinadas, cinco crimes brutais de feminicídio, contra 4 mortes entre janeiro e maio 2019. Em 2019, foram necessários 12 meses para que 5 mulheres fossem assassinadas. Em 2010, apenas 5 meses.

 Para a delegada titular da Deam (Delegacia de Atendimento à Mulher) Fernanda Felix o aumento é resultado da “quarentena das mulheres”. Mesmo sem lockdown, ficam em casa porque os filhos estão sem aulas presenciais e como ainda sobra apenas para elas a tarefa de cuidar das crianças, estão de quarentena.

Todas as histórias chocam pela violência crua e brutal, mas também pela facilidade de acesso dos agressores às mulheres.

Em janeiro, dia 18, a florista Regiane Fernandes de Farias, de 39 anos, morreu na mesa de cirurgia. Ela foi baleada no tórax pelo ex-namorado, Suetônio Pereira Ferreira, de 57 anos, quando chegava ao estabelecimento onde trabalhava, no Bairro Carandá Bosque, logo pela manhã. A história é quase sempre a mesma: “incorfomado” com o término do namoro que ocorreu dois meses antes, ele atirou na florista e depois em si próprio. Ficou internado, mas sobreviveu.

Professora Maxelline da Silva dos Santos, assassinada por guarda municipal que não aceitava fim de relacionamento (Foto: Reprodução / Facebook)
Professora Maxelline da Silva dos Santos, assassinada por guarda municipal que não aceitava fim de relacionamento (Foto: Reprodução / Facebook)

As histórias também envolvem quem, em tese, era ensinado a proteger. O guarda municipal Valtenir Pereira da Silva, de 35 anos, foi preso após matar a ex-namorada Maxelline da Silva dos Santos, 28 anos, e Steferson Batista de Souza, dono da casa onde ela participava de churrasco, no dia 5 de março.

Ele monitorava as testemunhas que poderiam prestar depoimentos à polícia durante os dias em que esteve foragido. Maxelinne, uma professora, foi morta durante a discussão com a ex-namorado, e tentou proteger quem também acabou ferido. Ela viu outros serem baleados e morreu por último.

Durante a discussão, o guarda sacou arma para impedir a aproximação de uma amiga, Kamilla. Maxelline chegou a colocar o braço na frente e Kamilla chegou a fugir, mas foi baleada durante a fuga. Em seguida, Steferson foi verificar o que estava ocorrendo e também acabou baleado, sem chance de defesa. Por fim, o guarda matou a ex-namorada.

Aos 21 anos, a estudante Maria Graziele Elias da Silva foi primeiro uma ausência que consumiu a família em abril. Dias depois, já sem vida, foi encontrada, corpo em decomposição, em matagal na saída da cidade, às margens uma rodovia. Foi encontrada por motorista que buscou sombra e sinal de celular. O assassino? O ex-namorado, preso dias depois.

Os números mostram cenário em que as mulheres parecem viver desesperadas. Só de janeiro a maio deste ano, a Justiça já expediu 1952 medidas protetivas, ou seja, uma forma, ao longo de uma investigação, de que agressor não acesse a vítima. As medidas costumam se de distanciamento.

Em todo o estado, em cinco meses, 15 mulheres foram assassinadas: a tiros, a golpes violentos no rosto com punhal fabricado pelo assassino, espancadas, corpos encontrados dentro de casa, ou no matagal.

Fernanda Felix, delegada titular da Deam (Foto: Arquivo/Campo Grande News)
Fernanda Felix, delegada titular da Deam (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

A sorte de quem sobreviveu – Há também quem tenha conseguido, por pouco, sobreviver. Este ano já ocorrem 8 tentativas de feminicídio, conforme números da Deam. “Eu tenho certeza que é uma consequência de uma pandemia, na maioria dos estados do Brasil, em São Paulo dobraram os números. Embora a quarentena seja a medida mais segura, o isolamento tem imposto uma série de consequências para a mulher”, conta.

“As mulheres estão sendo obrigadas a permanecer mais tempo no próprio lar junto a seu agressor, muitas vezes em habitações precárias, com os filhos e vendo sua renda diminuída, temos como resultado um aumento no número de feminicídios, hoje já foram registrados 5 feminicídios na capital, o mesmo número de 2019 inteiro, é preciso denunciar para que a mulher consiga evitar o crime doloso contra a vida, as medidas protetivas de urgência salvam vidas, é preciso acreditar que com a ajuda da Polícia Civil a mulher consiga sair do ciclo da violência doméstica”, destaca a chefe da Deam.