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Dinheiro suspeito escoou de editora alvo do Gaeco para garagens e conveniências

Empresários ligados a essas empresas foram presos durante a Operação Gutenberg

Por Aline dos Santos | 15/07/2026 13:31
Dinheiro suspeito escoou de editora alvo do Gaeco para garagens e conveniências
Investigação fez “parada” na garagem Atalaia Veículos, na Afonso Pena (Foto: Osmar Veiga)

Ao seguir o dinheiro, classificado como “escoado dos cofres públicos”, a Operação Gutenberg, deflagrada em 7 de julho pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), encontrou o envio de valores da Editora Avante, apontada como epicentro de um esquema de corrupção, para garagens e conveniências em Campo Grande.

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A Operação Gutenberg, deflagrada pelo Gaeco em 7 de julho, identificou repasses da Editora Avante para garagens e conveniências em Campo Grande suspeitas de serem empresas fantasmas, como parte de um esquema de lavagem de dinheiro avaliado em R$ 27 milhões. Entre os envolvidos estão pai e filho presos na operação, que receberam mais de R$ 600 mil da editora sem vínculo formal com ela. A investigação apura fraudes em licitações para compra de livros paradidáticos desde 2023.

Como se trata de um procedimento investigatório e não uma denúncia, o documento não especifica qual a acusação contra cada citado. Contudo, a quebra do sigilo bancário na investigação, que está em curso desde 2023, identificou valores para empresas suspeitas até de serem fantasmas.

Caso do Centro Automotivo Movi, que em documento de 2024 aparecia com sede no Bairro Tijuca, em Campo Grande. A atividade principal era de oficina mecânica, mas também estava apta para comércio de carros.

O responsável pela empresa era Matheus Oliveira Peixoto. Ele é filho de Joatan Gomes Peixoto, que foi um dos administradores da Avante durante o período da apuração. Pai e filho estão presos na operação.

De acordo com o relatório, o Setor de Inteligência e Operações do Gaeco foi ao endereço do Centro Automotivo Movi, mas verificou que o imóvel é habitado por uma família, sem vínculos com a empresa.

A quebra do sigilo bancário mostra que Matheus Peixoto recebeu R$ 121.500 da editora entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023, apesar de não ter nenhum vínculo com a Avante, como destaca o Gaeco.

Dinheiro suspeito escoou de editora alvo do Gaeco para garagens e conveniências
Matheus Peixoto em registro feito durante investigação do Gaeco. (Foto: Reprodução)

Além disso, nesse mesmo endereço funcionaria, em tese, empresa de Michelli de Souza Andrade, esposa de Matheus.

“A qual também foi beneficiária de vultosa transferência bancária, mas como se verificou, no endereço citado não existe nenhuma empresa em funcionamento, demonstrando claramente o envolvimento no esquema criminoso”.  Já Joatan recebeu em créditos da empresa o valor de R$ 521.360,91.

O Gaeco também foi ao endereço do Centro Automotivo NS, de Eros de Almeida Souza, no bairro Vivendas do Parque, em Campo Grande. Segundo o relatório, as diligências demonstraram que o imóvel se encontra desocupado e à venda.

"Eros de Almeida Souza teve identificado em seu favor, por meio de pagamentos feitos a sua empresa Centro Automotivo NS, 6 (seis) transações realizadas pela Editora Avante, totalizando R$ 230.000,00 ao longo do ano de 2022”. Os valores eram “picados”, com quantias variando de R$ 30 mil a R$ 45 mil.

Em 14 de abril de 2022, o Centro Automotivo NS transferiu R$ 135.820 para a Avante.  Já em sua conta pessoal, ele recebeu R$ 40 mil da Avante, sem nenhum vínculo formal com a empresa.

 Apesar de não haver justificativa conhecida pela investigação para as transações, o documento destaca que Eros foi proprietário da empresa Global Engenharia, que permaneceu ativa até 14 de setembro de 2022.

A empresa exercia, entre outras, atividades de encadernação e plastificação, compatíveis com as desenvolvidas pela Editora Avante e por outras gráficas supostamente ligadas ao grupo investigado. Além disso, a Global Engenharia funcionava no mesmo endereço do Centro Automotivo NS.

A defesa de Eros Souza afirma que ele não foi preso, não responde à ação penal e nunca comprou ou vendeu livros. “Apenas foi chamado a prestar esclarecimentos ao Gaeco. Eles estão chamando todas as pessoas que a partir de 2021 tiveram relação empresarial com a Editora Avante”, afirma o advogado Pablo Arthur Buarque Gusmão. Conforme a defesa, o centro automotivo foi vendido por Pablo em 2022.

A investigação também fez “parada” na garagem Atalaia Veículos, de propriedade de Douglas Henrique de Melo e que fica localizada na Avenida Afonso Pena. O Gaeco aponta que a empresa, Douglas e o pai Paulo Rogério de Melo receberam R$ 826.311,94 da editora, no período entre 2022 e 2024. Pai e filho, Paulo e Douglas também foram presos na operação.

Em geral, revendas de carros podem ser usadas para lavagem de dinheiro porque movimentam valores altos, permitem variações nos preços dos veículos e têm um grande volume de transações, o que pode facilitar a ocultação da origem de recursos ilícitos por meio de vendas fictícias ou superfaturadas.

No mês de abril, a Operação Octano, liderada pela PF (Polícia Federal) de Ponta Porã, investigou  "empresas com a finalidade de ocultar patrimônio, bem como para a facilitação de transações suspeitas por meio da compra e venda de veículos automotores".

Dinheiro suspeito escoou de editora alvo do Gaeco para garagens e conveniências
Pilhas de dinheiro em espécie com o lacre do Banco Central. (Foto: MPMS)

Conveniências – Além de garagens, a Editora Avante também fazia pagamento para conveniências em Campo Grande. A Tarantini Distribuidoras de Bebidas, no Bairro Amambaí, recebeu R$ 80 mil em três movimentações bancárias, entre fevereiro e maio de 2022. A empresa foi baixada em 25 de novembro de 2022.

A mesma quantia de R$ 80 mil foi enviada para Robson Garcia Barbosa, da Distribuidora de Bebidas Barbosa Ltda, na Vila Bandeirantes. O valor foi enviado por meio de duas transferências bancárias no dia 3 de maio de 2022.

A operação quebrou sigilo bancário para compreender o “caminho trilhado pelo dinheiro escoado dos cofres públicos municipais para saber a quem favoreceu”.

Segundo o Gaeco, na lavagem de dinheiro, o agente do crime busca limpar a mancha que impregna uma característica essencial dos recursos: a proveniência criminosa.

A advogada de Robson, Aline Granzotto, afirma que o cliente não foi preso nessa operação, mas foi intimado para prestar esclarecimentos.

Dinheiro suspeito escoou de editora alvo do Gaeco para garagens e conveniências
Policiais durante a Operaão Gutenberg, em Campo Grande. (Foto: Juliano Almeida)

Esquema de R$ 27 milhões - A Operação Gutenberg resultou em 16 mandados de prisão preventiva e 43 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados, São Gabriel do Oeste, Caarapó, Corguinho, Porto Murtinho, São Paulo (SP) e Abadiânia (GO).

A investigação constatou a existência de organização criminosa para fraudes em licitação, corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A partir de Campo Grande, o esquema de R$ 27 milhões se espraiava pelo Estado, liderado por empresários que atuavam como principais articuladores.

Os investigados se valiam de servidores públicos corrompidos para fraudar e direcionar procedimentos de compras públicas, mediante contratação direta por inexigibilidade de licitação para a aquisição de livros paradidáticos.

“Verificou-se que os valores recebidos dos cofres públicos pela organização criminosa ultrapassam a quantia de R$ 27 milhões, a qual era pulverizada entre seus integrantes, servidores corrompidos e diversas pessoas físicas e jurídicas com o fim de ocultar e dissimular a sua origem ilícita”, aponta o Gaeco.

A reportagem não conseguiu contato com os demais citados na operação, mas o espaço permanece  aberto.

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