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Capital

Do “Desbarrancado” ao corredor de elite, Av. Marquês de Pombal se transformou

Veja porque local virou a "Euclides da Cunha da periferia" para os comerciantes que cobiçam imóveis da avenida

Por Caroline Maldonado e Cleber Gellio | 20/05/2022 12:26
Avenida Marquês de Pombal, no Bairro Tiradentes. (Foto: Marcos Maluf)
Avenida Marquês de Pombal, no Bairro Tiradentes. (Foto: Marcos Maluf)

Onde outrora foi uma fazenda, hoje é um condomínio luxuoso. De buracão que alagava toda vez que chovia, agora é supermercado. De barraco de madeirite coberto com lona, agora é residência cobiçada por empresários que querem montar um negócio ali.

São cenários do passado e do presente que os primeiros moradores, saudosos, vão revelando sobre a região, conhecida como “Desbarrancado” na década de 80. Hoje é a Avenida Marquês de Pombal, no Bairro Tiradentes.

Nostalgia 

Fachada da casa de Adão Valftido de Souza e Arlete da Silva Belchior Souza, na Avenida Marquês de Pombal. (Foto: Marcos Maluf)
Fachada da casa de Adão Valftido de Souza e Arlete da Silva Belchior Souza, na Avenida Marquês de Pombal. (Foto: Marcos Maluf)

As lembranças geram nostalgia e até emocionam pela própria dificuldade que era morar no local, cujo nome remete a um córrego, o Desbarrancado. Antigamente, era assim: várias regiões ficaram conhecidas pelos nomes dos córregos em Campo Grande.

O barraco, que agora é uma casa cobiçada por investidores, foi a primeira moradia própria de um casal e três filhos, uma das sete famílias que moravam em toda essa região do entorno da avenida. O resto era tudo mato.

Adão Valfrido de Souza, de 62 anos, e Arlete da Silva Belchior Souza, de 58, se conheceram em 1982. Eram vizinhos e, no ano seguinte, se casaram. Foram morar de aluguel. Em 1994, ocuparam um terreno, onde vivem até hoje, na Avenida Marquês de Pombal.

Chegamos aqui quando o entorno era tudo fazenda. Éramos umas sete famílias apenas. A Marquês era o limite do bairro e onde hoje é o Supermercado Pires, era um buracão e quando chovia, virava uma lagoa", lembra Arlete.

Imóveis cobiçados

Aposentado, Orilvado Carlos, de 66 anos, no quintal de casa na Avenida Marquês de Pombal. (Foto: Marcos Maluf)
Aposentado, Orilvado Carlos, de 66 anos, no quintal de casa na Avenida Marquês de Pombal. (Foto: Marcos Maluf)

Quem diria. Vira e mexe, eles e os vizinhos recebem a visita de empresários que querem porque querem comprar as casas para colocar comércios ali. Ocorre que a Marquês se transformou com o trabalho dos comerciantes e, mais ainda, com a chegada do residencial “chique”, o Damha.

Hoje, a avenida é lugar de lojas de luxo, churrascarias, restaurantes com delivery e uma porção de outros condomínios.

Em resumo: tem do espetinho simples na esquina até a casa de carnes com cortes especiais e caros. Virou um misto de comércios que atendem as diversas classes sociais que habitam a região.

Já ofereceram R$ 190 mil, carros, mas não aceitamos, porque se a gente sair daqui, a gente não compra casa em outro lugar", conta Adão.

O Tiradentes, segundo o casal, foi loteado pelo fazendeiro Anísio de Barros, da Fazenda Rancharia. Adão lembra que, junto com outros moradores, expulsava pessoas que iam ali jogar lixo. Em 13 de setembro de 2004, a associação do bairro entrou com ação na Justiça para conseguir o título da terra.

Aposentado, Orilvado Carlos, de 66 anos, mora na Marquês há 30. Para ele, já ofereceram uma casa no Jardim Mansur, bairro nobre, em troca da residência em que mora.

Anderson Sanches, há uma ano e meio montou loja de reparos domésticos (Foto: Marcos Maluf)
Anderson Sanches, há uma ano e meio montou loja de reparos domésticos (Foto: Marcos Maluf)

Valorizou muito depois do progresso da avenida. Já me ofereceram muita coisa para eu sair aqui, mas nunca aceitei. Não consigo viver em outro lugar. Fui criado aqui e vou morrer aqui. Tem um rapaz que faz dois anos que vem aqui para adquirir minha casa para montar um negócio, mas não vendo”, conta Orivaldo.

Os comerciantes vieram atraídos pelos condomínios que foram sendo construídos, um após o outro. O empresário Anderson Sanches, de 46 anos, deixou o emprego em um cartório para montar uma loja de materiais e prestação de serviços de reparos domésticos na Marquês, há um ano e meio. Ele conta as estratégias para explorar as potencialidades do movimento na via.


Comecei dentro de uma galeria, onde não podia modificar a fachada. Além disso, estava do lado em que as pessoas estavam indo para o trabalho e talvez, por isso, eu não conseguia ampliar a clientela. Agora não, como as pessoas estão voltando para casa, têm mais tempo e já aproveitam para comprar o que precisam ou solicitar um orçamento", explica Anderson.

A “Euclides da Cunha” da periferia 

Lojas na Avenida Marquês de Pombal. (Foto: Marcos Maluf)
Lojas na Avenida Marquês de Pombal. (Foto: Marcos Maluf)

Na verdade, a Marquês era uma rua. Só virou avenida há pouco mais de sete anos, depois que vieram os condomínios Damha I, II e III e com eles o “boom” de comércios.

Nesses últimos anos, os comerciantes foram se adaptando para atender o público classe A. Agora, tem loja que vende diversos tipos de camisetas, que variam de R$ 79 a R$ 500.

Os preços são encontrados na loja multimarcas do Ademilson de Paulo Campos, de 35 anos. A princípio, ele queria ter uma loja na Rua Euclides da Cunha, a mais “cara” da Capital.

Tinha o sonho de ter uma loja de roupas. Minha intenção era abrir na Euclides da Cunha para um público jovem, tipo 'baladinha', sabe? Mas, hoje, atendo a maior parte para um público mais experiente. Interessante que a grande maioria são mulheres que levam para os familiares", conta Ademilson.

Empresário Ademilson de Paulo Campos, em sua loja na Avenida Marques de Pombal. (Foto: Marcos Maluf)
Empresário Ademilson de Paulo Campos, em sua loja na Avenida Marques de Pombal. (Foto: Marcos Maluf)

Ademilson investiu R$ 200 mil ao abrir a loja de roupas masculinas. Ele explica que a avenida é trajeto dos moradores dos condomínios que querem facilidade, sem gastos com estacionamentos de shoppings ou transtornos de trânsito na área Central.

Ele não está na Euclides, mas 90% dos clientes são classe A, moradores do Damha, além de Terras do Golfe, condomínio que fica mais à frente na BR-262, e até do Alphaville, que vêm pela BR-163 lá da região norte, na outra ponta da cidade.

História

Esses são os relatos que compõem a história e a atualidade da antiga região do Desbarrancado, nome do córrego que se junta ao Joaquim Português e torna-se o Prosa. O nome ficou assim, porque o córrego tinha erosão no leito, segundo a obra Enciclopédia das Águas de MS, do autor Hildebrando Campestrini.

Muitos moradores não se lembram onde fica o córrego, só sabem mesmo que deu o antigo nome à região.

Já o nome da avenida não tem nada a ver com o local. Para quem não se lembra das aulas de história, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, foi um nobre, diplomata e estadista de Portugal, no século XVIII.

Condomínio na Avenida Marquês de Pombal. (Foto: Marcos Maluf)
Condomínio na Avenida Marquês de Pombal. (Foto: Marcos Maluf)


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