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Campo Grande, Domingo, 23 de Setembro de 2018

22/03/2018 06:20

Cachoeirinha foi 1º manancial e fechou em 1912 sob protesto para "abrir rego"

"Água cristalina, pura, abundante, que se constituiu no primeiro serviço de natureza urbana de Campo Grande"

Aline dos Santos
Cachoeira fica encravada na confluência de vias de grande fluxo e rodeada pelo concreto dos edifícios. (Foto: Marina Pacheco)Cachoeira fica encravada na confluência de vias de grande fluxo e rodeada pelo concreto dos edifícios. (Foto: Marina Pacheco)

Se hoje a cachoeirinha do córrego Prosa, perto da Ceará e Ricardo Brandão, é o ruído da natureza em área de grande intensidade urbana em Campo Grande; no passado, a queda de água foi o primeiro manancial a abastecer a vila. Em 1912, a coleta foi proibida e o protesto veio em letra de Carnaval: “abre seu rego de novo”.

A história da cachoeirinha foi revisitada pela reportagem no livro “Pelas ruas de Campo Grande”, de Paulo Coelho Machado.

“Pouco depois de levantados os primeiros ranchos da Rua 26 de Agosto, foi retirado o famoso rego-d'agua que vinha da cachoeirinha que hoje se avista na margem do minianel rodoviário (hoje Avenida Ceará) e descia pelo espigão da Rua 15 de Novembro, correntoso, borbulhante, com sua água cristalina, pura, abundante, que se constituiu no primeiro serviço de natureza urbana de Campo Grande, pois quase todos os moradores do povoado bebiam nessa fonte, dele derivando outros regos menores, que serviam às residências recém-montadas”, narra o livro.

A água já era assunto sério e em 1906, durante reforma do Código de Posturas, foram incluídos dois artigos sobre o córrego, para preservar o bem comum.

“Todos que quizerem servir-se d' água canalizada pelo rego existente, serão obrigados a fazer pequenos regos até suas casas, tendo cuidado de fazer bicas e tapar por cima quando atravessarem ruas e praças. Ninguém poderá prohibir que passe por seus quintaes a água que é destinada ao seu visinho e nem levar nella cousa alguma immunda que possa prejudicar o visinho”.

Mas em 1911, o intendente Antônio Noberto de Almeida, prefeito da época, avaliou que era difícil manter o serviço com a devida higiene e achou melhor que os moradores abrissem poço. Na sessão de 16 de janeiro de 1912, o vereador Amando de Oliveira anunciou que foi extinto o serviço. Na sequência ,o livro relata que surgiu um abaixo-assinado contra o ato “injusto e prematuro”.

Em 1914, ano de um Carnaval memorável, a reclamação ganhou versos irônicos. “Dona Intendência, que rolo. Abre seu rego de novo. Dê um banho no monjolo. Mande limpar esse povo”.

Prosa nascem com poesia e excesso de areia em parque estadual. (Foto: Marina Pacheco)Prosa nascem com poesia e excesso de areia em parque estadual. (Foto: Marina Pacheco)

Caminho das águas – Mais de cem anos depois, a águas dos Prosa já não abastecem a cidade, mas é um dos principais córregos a passar pela área urbana. Na atualidade, a principal ameaça vem do assoreamento.

O problema é perceptível desde o “nascimento”, quando se encontram as águas dos córregos Joaquim Português e Desbarrancado. Dentro do Parque do Prosa, o primeiro vem pela esquerda, veloz e límpido. O segundo surge à direita, com excesso de sedimentos.

Segundo o gestor operacional do Imasul (Instituto de Meio de Ambiente de Mato Grosso do Sul),Carlos Henrique Ferreira Leal, o Prosa tem monitoramento, com cinco pontos de coleta.

Para reduzir o assoreamento, são realizadas obras para contenção de sedimentos no entorno. A água do Prosa “anda” 2 quilômetros até formar o principal lago do Parque das Nações Indígenas. Depois, chega à Praça das Águas, na avenida Afonso Pena, e ruma para o Horto Florestal. Na sequência, se junta ao córrego Segredo para formar o rio Anhanduí.

Horas a fio – O nome Prosa, um substituto para bate-papo, teria derivado da prática de prosear perto das margens.

“Diz a crônica que os moradores da margem de um deles, o que 'rola as suas águas em pequenos saltos em elevações do Leste', ficava, horas a fio, ferrados na prosa, em aprazível e costumeiro ponto, sob a copa enorme de uma figueira-brava” , relata Paulo Coelho Machado.



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