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Capital

Enquanto alagamentos espalham medo, cidade falha no básico da manutenção

A jornada das águas pluviais começa na boca de lobo, o primeiro ponto de coleta

Por Aline dos Santos | 21/01/2026 10:45


RESUMO

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Os alagamentos que afetam Campo Grande durante as chuvas fortes revelam falhas na manutenção básica do sistema de drenagem urbana. Segundo especialistas, além de grandes obras, é necessária a conservação regular das bocas de lobo e a atualização do plano de drenagem da cidade. A situação é agravada pela antiguidade do sistema, que em algumas regiões tem cerca de 50 anos, e pela falta de um cadastro municipal de microdrenagem. Pontos críticos como o Lago do Amor, Avenida Rachid Neder e Vila Antônio Vendas sofrem com alagamentos recorrentes, evidenciando a necessidade de intervenções estruturais e manutenção preventiva.

Os pontos de alagamentos que amedrontam os moradores de Campo Grande a cada chuva forte não são corrigidos somente com grandes obras milionárias, mas dependem de manutenção e conservação de todo o sistema, que começa nas bocas de lobo.

Enquete do Campo Grande News, realizada em 9 de janeiro, mostra que a maior preocupação dos moradores durante temporal é com alagamento. À frente de queda de árvores e acidentes pelo caos no trânsito.

A jornada das águas pluviais começa na boca de lobo, o primeiro ponto de coleta. Nesta etapa, o sucesso da drenagem vai depender de você, que deve manter a rua sem lixo, e do poder público, a quem compete fazer a limpeza para garantir que o sistema funcione na sua melhor capacidade.

“O processo de impermeabilização da cidade faz com que a água escoe cada vez mais rápido. E a falta de manutenção do sistema de drenagem faz com que ele funcione abaixo da sua capacidade. O escoamento será menor”, afirma o engenheiro ambiental Ariel Ortiz Gomes, que é professor na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), com mestrado e doutorado em Saneamento Ambiental e Recursos Hídricos.

A água da chuva, que é direcionada para a boca de lobo, chega ao chamado poço de visita e segue pela tubulação ao córrego mais próximo. Nesta viagem, lixo, sedimentos e galhos impedem a passagem. Para a limpeza, o professor destaca que o custo não é tão alto, considerando que a prefeitura já tem caminhões, tratores, combustível e equipes de manutenção.

“E a cada chuva forte, é preciso ir no dia seguinte para desobstruir a rede. Principalmente com eventos de chuvas sucessivas, como é em janeiro”.

Na chuva forte do último dia 6, cinco bueiros na Rua Espírito Santo, entre a Rua Abrão Júlio Rahe e a Avenida Mato Grosso, estavam entupidos. Dessa forma, o alagamento acontece porque a água corre por cima do asfalto.

De acordo com Ariel, o plano de drenagem de Campo Grande precisa ser atualizado. “Passou da hora de ser feita uma revisão. Um diagnóstico atualizado, com elaboração de cadastro de drenagem da cidade, verificar a capacidade do sistema atual, bem como programas de monitoramento das chuvas, educação ambiental e manual de projetos”, diz o professor. Ele destaca que a cidade precisa de um cadastro oficial de drenagem.

“Não é problema da chuva”

Enquanto alagamentos espalham medo, cidade falha no básico da manutenção
Engenheiro Antônio Carlos mostra barragem no Córrego Segredo (Foto: Marcos Maluf)

Antônio Carlos Silva Sampaio, que é engenheiro ambiental e civil, alerta que quando os alagamentos acontecem há mais de uma década nos mesmos lugares já não é mais um problema da chuva, mas de falta de intervenções corretas. Ele cita pontos como a Avenida Rachid Neder, Lago do Amor e a Avenida Fernando Corrêa da Costa.

“A equipe vai lá, limpa, faz o paliativo, troca o asfalto e não faz mais nada. Se alaga sempre nos mesmos lugares, não é problema da chuva, falta a gestão correta do problema”, diz Antônio Carlos.

Um caso emblemático é o Lago do Amor, no campus da UFMS, ao lado da Avenida Filinto Muller. “Já rompeu duas vezes e vai romper de novo. O Lago do Amor está assoreado e qualquer chuva mais forte pode levar a pista. As pedras para a amortecer a velocidade da água já afundaram. Existe o risco de romper de novo”, diz o engenheiro.

Enquanto alagamentos espalham medo, cidade falha no básico da manutenção
Lago do Amor já levou asfalto por duas vezes e, agora, tem promessa de limpeza. (Foto: Osmar Veiga)

Em 13 de novembro do ano passado, temporada de chuva, o lago transbordou. No dia seguinte, a Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos) informou que ampliou em 20 centímetros o diâmetro da comporta responsável por auxiliar na vazão da água do Lago do Amor. Na ocasião, as equipes realizaram limpeza no sistema, retirando galhos e lixo acumulado.

O Lago do Amor enfrenta há anos o acúmulo de sedimentos e o assoreamento causados pela chegada de águas dos córregos Bálsamo e Bandeira, que costumam sobrecarregar o sistema em dias de chuva forte.

Em março de 2025, o lago transbordou, com desabamento de trecho da calçada, pista e ciclovia na Filinto Muller, exatamente no ponto já restaurado em janeiro de 2023. Um pintor, que passava de bicicleta perto do Lago do Amor, foi arrastado pelas águas. Ele conseguiu se agarrar à vegetação e nadar até um local seguro. Contudo, sofreu ferimentos na perna e passou por cirurgia.

Em outubro de 2025, a UFMS e a Prefeitura de Campo Grande assinaram acordo de cooperação técnica para recuperar o local, com ações para o desassoreamento.

Conforme a universidade, a parceria prevê apoio técnico, científico e institucional. “As ações incluem suporte de plano de manejo da área e acompanhamento e avaliação das medidas com foco na preservação ambiental, segurança e sustentabilidade”, informa a instituição de ensino.

Enquanto alagamentos espalham medo, cidade falha no básico da manutenção
Cratera no entorno do Lago do Amor em março de 2025. (Foto: Henrique Kawaminami)

Outro ponto tradicional de alagamento, a Avenida Rachid Neder, no Bairro São Francisco. Lá, a cada chuva forte, o asfalto se esfarela e pessoas correm perigo, com veículos ilhados pelo violento encontro das águas dos córregos Cascudo e Segredo.

Segundo Antônio Carlos, em 2012 havia uma área pequena reservada para funcionar como bacia de contenção, “segurando” a água. Mas veio excesso de sedimentos do Bairro Nova Lima e encheu o local reservado, que hoje se cobriu de vegetação e já não pode mais ser usado no sistema de drenagem.

A curta distância da Rachid Neder, fica uma barragem no Córrego Segredo, que corre no canteiro central da Avenida Ernesto Geisel. Na manhã de terça-feira (dia 20), a água passando por cima da estrutura de dois metros de altura, mesmo há dias sem chuva forte, não era um bom sinal.

Enquanto alagamentos espalham medo, cidade falha no básico da manutenção
Com estrutura sem manutenção, água corre por cima da barragem do Córrego Segredo. (Foto: Marcos Maluf)

Segundo Antônio Carlos, a estrutura precisa de limpeza para cumprir a função de diminuir a velocidade da água que acaba se encontrando, mais para a frente, com o Cascudo.

As duas barragens existentes no Segredo foram projetadas com capacidade para reter 30 mil metros cúbicos de água.

Já a água do Córrego Sóter cai no Prosa, cujo transbordamento alaga a Joaquim Murtinho com a Fernando Corrêa da Costa. De acordo com Antônio Carlos, as barragens do Sóter não têm dispositivo para sistema automatizado de controle de comportas.

Outro ponto tradicional de alagamento é na Vila Antônio Vendas, com água invadindo casas. Em março, trecho da via teve o asfalto arrancado com a enxurrada.

Publicado em 2015, o plano diretor de drenagem destaca a importância da manutenção, com serviços corretivos: limpeza antes da chuva, utilizando-se da previsão meteorológica; identificação das fontes de material sólido; e limpeza logos após as chuvas.

“Sair do modo apagar incêndio”

Professor da UFMS e doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, Enio Arriero Shinma afirma que a abordagem mais eficiente  em resposta aos alagamentos combina duas frentes: reduzir o escoamento que chega ao ponto crítico (utilizando controle na fonte e ao longo da bacia a montante, com medidas de amortecimento e infiltração onde for possível) e corrigir gargalos locais (melhorias de captação, adequações em canais e proteção contra erosão, além de manutenção contínua).

“Para não investir na alternativa errada, ou apenas transferir o problema para  jusante, é fundamental ‘testar’ as opções com uso de modelagem hidrológica e hidráulica. Na prática, a simulação funciona como uma forma de ‘testar o futuro’, onde projetamos cenários com diferentes combinações de medidas, avaliamos onde haveria melhora ou piora e, com base nisso, dimensionamos e priorizamos as intervenções com melhor custo-benefício antes de executar qualquer obra”, afirma Enio.

Enquanto alagamentos espalham medo, cidade falha no básico da manutenção
Boca de lobo suja ao lado de placa de obra de asfalto no Jardim Noroeste. (Foto: Henrique Kawaminami)

De acordo com o professor, na prática, bocas de lobo em locais com maior carreamento de resíduos  (avenidas movimentadas, pontos baixos, trechos com muita areia/folhas) devem ter inspeção e limpeza frequentes, tipicamente mensal na época chuvosa e, no mínimo, trimestral no restante do ano, ajustando conforme o desempenho de cada trecho e reforçando após eventos de chuva intensa.

“Já os piscinões/bacias de amortecimento precisam de inspeção regular e, principalmente, de remoção periódica de sedimentos e resíduos, porque o assoreamento reduz o volume útil e o dispositivo perde eficiência. Em muitos casos, essa limpeza é semestral ou anual, mas pode ser mais frequente conforme a taxa de assoreamento e o uso do entorno, além da verificação das entradas e saídas”, diz Enio.

Segundo o professor, Campo Grande conta com um cadastro e diagnóstico da macrodrenagem, levantados no Plano Diretor de Drenagem Urbana de 2008, do qual foi coautor e um dos coordenadores.

“Por outro lado, a cidade ainda não dispõe, de forma completa e sistematizada, de um cadastro de microdrenagem. Sem esse ‘mapa detalhado’ da rede, a modelagem hidrológica e hidráulica perde precisão, porque depende justamente de dados confiáveis (diâmetros, cotas, declividades, interligações, estado de conservação e pontos recorrentes de obstrução) para simular cenários e comparar alternativas. Na prática, isso reduz a capacidade de ‘testar o futuro’ e escolher a solução com melhor custo-benefício, aumentando o risco de investir no trecho errado ou apenas transferir o problema para jusante”.

Enquanto alagamentos espalham medo, cidade falha no básico da manutenção
Asfalto esfarelado em janeiro de 2026 na Avenida Rachid Neder. (Foto: Osmar Veiga)

Ainda de acordo com Enio, também há um efeito financeiro direto. Pois, sem um cadastro municipal consolidado, cada projeto pontual precisa levantar a rede “do zero”, o que encarece e atrasa estudos.

“Não é raro o mesmo trecho ser cadastrado mais de uma vez por empresas diferentes, gerando retrabalho, custos desnecessários e informações dispersas. Em resumo: um cadastro municipal de microdrenagem, atualizado continuamente, reduz retrabalho, melhora diagnósticos e permite sair do modo ‘apagar incêndio’ para uma gestão técnica preventiva, com manutenção programada, modelagem mais confiável e investimentos melhor direcionados.

Antiguidade do sistema de drenagem

Questionada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos informa que a manutenção do sistema de drenagem urbana é realizada de forma contínua em toda a cidade.

“Somente no último ano, a Sisep, em parceria com a Solurb, executou a limpeza e manutenção de mais de 25 mil bocas de lobo. As equipes atuam diariamente, garantindo o funcionamento do sistema. Os alagamentos registrados em alguns pontos da cidade, especialmente durante períodos de chuvas intensas e concentradas, estão relacionados principalmente à antiguidade do sistema de drenagem, que em algumas regiões possui cerca de 50 anos, como no entorno da Avenida Ernesto Geisel com a Avenida Rachid Neder".

Segundo a Sisep, nessas situações, o volume de água supera a capacidade de absorção das galerias, o que explica a elevação rápida do nível dos córregos, que chegam a ficar cheios ou transbordar, evidenciando que a água está escoando pelas galerias até os cursos d’água.

Enquanto alagamentos espalham medo, cidade falha no básico da manutenção
Em 6 de janeiro, Córrego Prosa no limite para trasnsbordar em Campo Grande. (Foto: Juliano Almeida)

No caso específico da Avenida Mato Grosso com a Rua Espírito Santo, a Sisep aponta que o acúmulo temporário de água ocorre em função do relevo e da limitação do sistema antigo de drenagem, que não consegue receber todo o volume de água com rapidez. Após o pico da chuva, a água escoa normalmente pelas bocas de lobo existentes no local.

“Em relação à Avenida Filinto Müller e ao Lago do Amor, o risco de novos transbordamentos foi significativamente reduzido após as intervenções realizadas pela Sisep, que incluiu a construção de um vertedouro auxiliar. Durante o período chuvoso, a área vem passando por limpeza semanal, com a retirada de galhos, garrafas PET e outros resíduos. Nas últimas chuvas fortes e concentradas, não houve registro de risco de transbordamento. Para a solução definitiva do assoreamento do Lago do Amor, foi firmada uma parceria entre a Prefeitura de Campo Grande e a UFMS, com extrato do convênio já publicado no Diário Oficial da União”, informa a pasta de obras.

Quanto ao Córrego Sóter, a ausência de controle automatizado das comportas está associada, assim como em outros pontos da cidade, às limitações do sistema de drenagem antigo. A Sisep aponta que trabalha em estudos e ações para minimizar os impactos e avançar na modernização da estrutura existente.

Enquanto alagamentos espalham medo, cidade falha no básico da manutenção
Alagamento na rua Nelson Figueiredo Jr, no bairro Vila Antônio Vendas, em março de 2025. (Foto: Direto das Ruas)

Já na região da Rua Nelson Figueiredo Júnior, o transbordamento do Córrego Vendas e justificado pela dinâmica do sistema de drenagem. A canalização que passa pelo bairro Itanhangá Park desemboca no Córrego Prosa, na altura da Rua Bahia. Quando o Prosa recebe grande volume de água proveniente da região do Shopping Campo Grande, ocorre retenção temporária da água do Itanhangá Park, que volta a escoar normalmente após a redução do nível do córrego principal.

“A prefeitura segue monitorando os pontos críticos, realizando manutenções regulares e desenvolvendo projetos estruturantes para modernizar o sistema de drenagem urbana, reduzindo os impactos das chuvas intensas e garantindo mais segurança à população”, informa nota enviada ao Campo Grande News.

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