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Capital

“Imagino momento de ter que escolher quem vai morrer”, diz diretor de hospital

Médico Mafuci Kadri, 72 anos, nunca imaginou que chegaríamos a esse ponto “catastrófico"

Por Mariana Rodrigues | 25/03/2021 14:19
O médico Mafuci Kadri, 72 anos, diz que o sentimento de morte marca todos os dias de quem está na linha de frente contra o coronavírus. (Foto: Kísie Ainoã)
O médico Mafuci Kadri, 72 anos, diz que o sentimento de morte marca todos os dias de quem está na linha de frente contra o coronavírus. (Foto: Kísie Ainoã)

Mesmo dedicando 46 anos de trabalho à saúde, o médico Mafuci Kadri, 72 anos, nunca imaginou que chegaríamos a um ponto “catastrófico”, sem leitos nos hospitais, sem medicamentos, e quase faltando oxigênio, além de tantas mortes. “A gente fica imaginando chegar em um momento aqui de ter que escolher entre a vida que vai salvar e a que vai morrer. É uma situação extremamente difícil para o profissional da saúde”, lamenta.

Mesmo para quem lida com a vida e a morte todos os dias, entrar e sair de um hospital e encontrar pessoas esperando atendimento médico, famílias aguardando por respostas e profissionais da linha de frente exaustos, ainda é uma missão difícil. “Imagina ter um familiar internado e não poder visitá-lo, é desesperador, temos tentado amenizar a tensão que existe”.

O médico que é presidente do Hospital El Kadri em Campo Grande não relata a fundo sobre suas experiências desde o início da pandemia até agora, mas o silêncio a cada pausa nas respostas que ele dá durante a entrevista evidencia o sofrimento das palavras que não foram ditas diante do sofrimento de pacientes, familiares que perderam entes queridos e os esforços de quem está trabalhando na linha de frente, cada pausa, é como se o médico estivesse entrando, mais uma vez, em lembranças que na verdade gostaria de esquecer.

“O sentimento de vida e de morte marca todos os dias de quem está na linha de frente. E é plausível que ficamos muito satisfeitos quando salvamos mais vidas do que quando perdemos. Quando se salva vidas não tem especificidade que marcou e quando se perde o sentimento é introspectivo, é um sentimento seu’, conta.

Questionado sobre quando começou a notar que as coisas haviam saído do controle, ele conta que foi quando se descobriu a letalidade do coronavírus. “A gente achava que era uma virose, como o presidente da República afirmou, mas quando se descobriu a letalidade desse vírus, você vive diariamente numa situação que vê no semblante das pessoas a felicidade quando sai bem do hospital e a tristeza quando se perde alguém. Quem imaginava que chegaríamos a este ponto em que temos tanta gente sofrendo e morrendo sem ter assistência adequada”, analisa.

Quando se fala em amigos, ele afirma que já perdeu alguns colegas de profissão. “Perdi alguns amigos e colegas de profissão por conta do vírus e o momento mais desesperador é quando as pessoas conhecidas te ligam pedindo uma vaga ‘pelo amor de Deus’ e eu não tenho como dizer não, a minha resposta é venha e vamos ver o que fazer”. A situação do hospital hoje é de leitos todos ocupados, mas ele garante que o atendimento não é negado a ninguém, independentemente de quem seja. “A nossa satisfação é ter o dever cumprido e salvar vidas”.

Na semana passada, no dia 18 de março, faixa no hospital El Kadri já informava que hospital estava lotado. (Foto: Kísie Ainoã)
Na semana passada, no dia 18 de março, faixa no hospital El Kadri já informava que hospital estava lotado. (Foto: Kísie Ainoã)

Médicos também têm medo e também sentem a dor de uma perda, Kadri acredita que não é mais o mesmo desde o início dessa pandemia após ver de frente e todos os dias em como o vírus é letal. “Meu receio diante desse cenário, é perder alguém muito querido, na realidade quando perdemos alguém é como perder parte da gente. A gente vê o sofrimento do próximo isso acaba refletindo em nós. Absorvemos o sofrimento. Não somos mais os mesmos desde quando começou essa pandemia. Talvez depois da pandemia nos tornaremos mais humanos”.

Revolta- Mafuci relembra todos os dramas durante essa pandemia, de falta de leitos, falta de medicamentos e agora a possível falta de oxigênio. “Desde o princípio alertamos sobre a possibilidade catastrófica que poderia ocorrer e aqueles que teriam a responsabilidade de nos orientar de nos socorrer, de nos acudir, viraram as costas como se fosse algo passageiro”.

“Nessa rotina cansativa, exaustiva, muitas vezes revoltante, porque aqueles que estão na linha de frente para tratar o verdadeiro socorro são humanos em sentimentos, em cansaços, têm as famílias, só que muitas vezes são ignorados por aqueles que deveriam estar no comando maior dessa situação”, desabafa.

“Jamais imaginei uma situação como essa, quem espera uma catástrofe como essa que estamos passando? Quem imagina o Estado de São Paulo em colapso? Imagine os outros estados, as outras pessoas, as pessoas que não possuem assistência é uma calamidade entristecedora, mas nós não podemos desistir”, diz.

Sobre a falta de humanidade entre as pessoas que participam de festas clandestinas e aglomerações ele diz: “Não podemos, nesse momento, procurar culpados, se a gente for pela linha da culpabilidade é evidente que todos nós somos, primeiro pertencemos a um povo mal educado, segundo, você orienta e eles desobedecem, só que o vírus, o inimigo maior é invisível, as armas que nós temos para combater é o uso da máscara, a lavagem das mãos, o distanciamento, o cuidado maior nas coisas básicas. O nosso inimigo maior, nós não conhecemos é invisível e nós não temos um medicamento específico para ele”, finaliza.

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