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Capital

"Meu filho não merece ficar congelado", diz mãe que há 6 dias espera por funeral

Maria da Silva, de 61 anos, espera a liberação do corpo do filho assassinado

Por Marta Ferreira e Lucas Mamédio | 22/04/2020 15:02
Mãe de Adimilson Estácio, Maria da Silva ainda espera liberação do corpo para se despedir do filho vítima de assassinato. (Foto: Kísie Ainoã)
Mãe de Adimilson Estácio, Maria da Silva ainda espera liberação do corpo para se despedir do filho vítima de assassinato. (Foto: Kísie Ainoã)

Sentada em uma cadeira de fio no quintal de casa, com o olhar perdido no céu, chorosa, a aposentada Maria dos Santos, 61 anos, recebeu o Campo Grande News na manhã desta quarta-feira (22) e aceitou conversar sobre a agonia de quem, há 21 dias, viu o filho de 44 anos sair de casa, e não mais voltar. Pior, há quase uma semana se confirmou a notícia desesperadora para qualquer mãe: Adimilson Estácio foi assassinado, por dois homens em quem confiou, chegando a dar trabalho e apresentar para a família.

Entre lágrimas, a narrativa é breve, mas poderosa. Ali está a mulher que criou o filho sozinha, segundo conta, e depois de saber de sua morto de forma cruel, ainda não conseguiu se despedir dele com dignidade.  “Porque os bandidos enterram meu filho, meu filho está desfigurado, moço”.

“É duro ver meu filho lá congelado”, desabafa, sobre o fato de o corpo ainda estar no Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal), em razão da necessidade de fazer exame de DNA para confirmar a identificação.

“Ele não merece ficar tanto tempo lá assim, congelado do jeito que está. Ele não merece nem isso nem a morte que ele teve”, se emociona a mãe.

O depoimento dos dois homens presos, Jorge de Oliveira, 32 anos, e Alex Oliveira, revela que a vítima levou uma pancada na cabeça e depois foi asfixiada. O corpo, então, foi enterrado às margens do córrego Angico, em Rochedo, município vizinho a Campo Grande. Para dificultar a localização, a motocicleta de Adimilson foi jogada na água. Nesta quarta-feira, o veículo foi retirado dali com a ajuda dos bombeiros.

Maria coletou o material na sexta-feira passada e o resultado é esperado para pelo menos 15 dias, podendo chegar a um mês.

“Meu filho” - Todo o tempo, a aposentada chama Adimilson de uma forma que demonstra o tamanho da perda. “Meu filho era tão bom”, diz.  “Ele era um menino, maravilhoso, ele era um menino trabalhador”, prossegue.

“Mataram meu filho à traição, enforcaram com saco para terminar de morre”, fala, em tom obviamente sofrido.

Dono de uma pequena oficina, o funileiro trabalhava de mais, rememora a mãe. “Ficava todos os dias, sábado domingo”. Ela sobre chamar a atenção do filho, mas ouvir sempre um “deixa eu trabalhar, deixa eu trabalhar”.

Quando a equipe chegou à casa de Maria, ela já estava chorosa, sentada na cadeira de fio no quintal de casa. (Foto: Kísie Ainoã)
Quando a equipe chegou à casa de Maria, ela já estava chorosa, sentada na cadeira de fio no quintal de casa. (Foto: Kísie Ainoã)

Cruéis – Para a mulher, tudo fica ainda mais trágico ao pensar no “motivo”, se existe algum para crime tão grave, pelo qual os dois homens presos  cometeram o homicídio, de acordo com a investigação da polícia. “Por mil e seiscentos reais!”, indigna-se.

Ela se refere à descoberta por Adimilson do furto de um cartão de banco, depois de aparecerem compras não realizadas por ela, uma delas na maquinha de pagamento de um dos homens presos.

Para a polícia, Jorge e Alex, ao verem o funileiro falar em registrar boletim de ocorrências, decidiram matá-lo para evitar a incriminação. “Meu filho morreu inocente, não tinha nem suspeitado”, acredita.

De acordo com Maria da Silva, o funileiro evitava contratar funcionários e havia feito isso havia apenas dois meses. “Nunca a gente imaginava que ele era o matador”, afirma sobre Jorge de Oliveira.

Jorge de Oliveira, 32 anos, ganhou a confiança de funileiro em pouco tempo. (Foto: Reprodução de vídeo)
Jorge de Oliveira, 32 anos, ganhou a confiança de funileiro em pouco tempo. (Foto: Reprodução de vídeo)

Jorge chegou a participar de manifestação da família na porta do Cepol (Centro Integrado de Polícia Especializada), pedindo explicações sobre a investigação. Deu até entrevista e inventou histórias tanto para a reportagem quanto para os investigadores do caso, na tentativa de se livrar da responsabilidade pelo assassinato.

Está preso, junto com Alex, temporariamente, por 30 dias, em uma das celas do Cepol. O inquérito ainda não foi concluído e tem prazo também de 30 dias, que podem ser prorrogados.

O indiciamento é por três crimes: furto, ocultação de cadáver e homicídio triplamente qualificado ( motivo fútil, impossibilidade de defesa da vítima e crime praticado com a finalidade de garantir impunidade por outro ilícito)

Sobre a liberação do corpo do Imol, a informação obtida pelo Campo Grande News é de o prazo depende das condições do materiais genéticos a serem comparados. Se for possível reconstituir com celeridade o padrão do cadáver e ele der compatível com o da mãe, a liberação para sepultamento sai mais rápido.

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