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Campo Grande, Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019

26/08/2019 08:35

Na Depac, recorde é de policial que registrou 1,5 mil boletins de ocorrência

No centro da cidade, Wagner lidera as estatísticas de registro. Na Piratininga, Marco usa a experiência de 21 anos nas ruas

Geisy Garnes
Na Depac, recorde é de policial que registrou 1,5 mil boletins de ocorrência
Depac Centro registrou em seis meses 8.871boletins de ocorrência (Foto: Geisy Garnes)Depac Centro registrou em seis meses 8.871boletins de ocorrência (Foto: Geisy Garnes)

Entre tantas histórias que entram e saem das duas maiores delegacias de Campo Grande, as Depacs (Delegacias de Pronto Atendimento Comunitário), pouco se sabe de quem atende, escuta e transcreve cada palavra nos boletins de ocorrência. São essas pessoas, que vivem nossa cidade de outra perspectiva, que o Campo Grande News procurou ouvir e homenagear nos 120 anos da Capital.

Dos 15 anos na Polícia Civil, Wagner Rigoni, de 40 anos, dedica cinco deles ao atendimento na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) do Centro. O que as pessoas que procuram a delegacia diariamente não sabem é que ele tem o recorde de registros de boletins de ocorrência da delegacia.

São 4 anos no topo das estatísticas. Só no ano passado foram 1,5 mil registros feitos por ele, 700 a mais do que o segundo colocado. Esse ano o número de casos atendidos por Wagner ultrapassa 1.129. O motivo para o desempenho, ele explica de jeito simples: amor pela profissão.

“Eu me coloco no lugar das pessoas. Se ela vem na delegacia é porque precisa, ninguém vem aqui só para passear e o que para mim pode parecer besteira, para ela é o pior problema do mundo. Então busco sempre escutar, orientar, atender de maneira rápida e ajudar da melhor maneira possível”.

A vida de policial civil começou ao acaso. Na época Wagner tinha passado em dois concursos públicos, escolheu a rotina de investigador e se apaixonou pela profissão. Antes de chegar a Depac Centro passou por delegacias do interior do Estado, mas ali, no contato com o público, encontrou seu lugar.

“Falou que aqui a gente precisa ser mais psicólogo que policial”, brinca. “Aqui é o ponto de partida. Eu sei como funciona, as pessoas não. Então a gente orienta, explica. Amo minha profissão, ajudar as pessoas”.

Nos anos de delegacia, conta, é fácil perceber a mudança dos crimes na Capital. “Quando cheguei aqui era comum furto a carro, quando quebravam as janelas e levavam os pertences. Agora aumentou muito o registro de estelionatos, esses com invasão de dispositivos. Antes quem caia nos golpes queria levar vantagem, hoje não mais, as pessoas caem sem saber”.

Os plantões, segundo Wagner, também têm sido marcados por casos de suicídio, principalmente entre jovens. O último que marcou a equipe, foi de um adolescente de 17 anos, que tirou a própria vida dias depois que namorada, de 16, fazer o mesmo. “Registrei a morte dos dois”, lembra.

Do outro lado da cidade, na Depac Piratininga, casos como esse marcam a vida de Marco Aurélio Jacintho Silva, o Marquinho. Policial civil há 21 anos, está na unidade desde sua criação. “Aqui é um plantão de emergência mesmo, às vezes as pessoas chegam machucadas para registrar boletim de ocorrência e é difícil convencer que precisam ir para atendimento”.

Entre as idas e vindas da delegacia de pronto atendimento, já passou por delegacias especializadas, a coordenadoria de inteligência da Polícia Civil e até pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), onde trabalhou por oito anos.

Com a segurança que só a experiência traz, Marco conta das muitas idas a locais de crime, das prisões feitas e do amor pela investigação. “Entrei na Polícia Civil porque meu pai foi assassinado e quando procurei a polícia não encontrei ajuda. Então me tornei policial para ajuda as pessoas. Gosto de resolver o problema delas, procuro fazer tudo que está ao meu alcance”.

Das muitas histórias que guarda na memória, lembra do caso que mais marcou a rotina de atendimento na Depac: a morte de sete crianças em um acidente de trânsito. “Aconteceu no anel viário, perto da fábrica da Frutilla, em um domingo. Eles voltavam de um balneário”. O pai de duas das crianças dirigia o carro, um Passat. No banco do passageiro um amigo, que também estava com o filho. As outras vítimas eram filhas de um vizinho da família.

O motorista, que estava bêbado e causou o acidente, foi o único que sobreviveu da colisão com um caminhão. “Colocaram as crianças em ordem de tamanho, era uma escadinha, tinha de 3 a 8 anos”, lembra.

Apesar disso, o “sangue de policial” fala mais alta toda vez que o plantão é acionado para algum crime. “Faço 100% dos locais de crime. Estive no acidente com o ônibus do Jads e Jadson, fizemos uma reprodução simulada no local, saímos de lá com a certeza do que aconteceu. Ajudei também na investigação do assassinato do Bruno Pacheco”, lembra. O rapaz foi assassinato após ser julgado no tribunal do crime do PCC (Primeiro Comando da Capital). Seis pessoas foram presas pelo homicídio.

Os anos de experiência na rua ficam ainda mais evidente na “bolsa de trabalho” de Marco. Munições extras, um canivete, álcool, luvas, saco plástico e até Vick Vaporub, andam com ele a cada novo caso. “Nos plantões noturnos também sempre trago calça, sapato e casaco extra, a gente nunca sabe onde vai”, releva.

Atendimento Depac Centro (Foto: Geisy Garnes)Atendimento Depac Centro (Foto: Geisy Garnes)
GOI foi criado em 18 de julho de 2017 (Foto: Paulo Francis)GOI foi criado em 18 de julho de 2017 (Foto: Paulo Francis)

GOI – Há dois anos, a vivência com os crimes mais cruéis de Campo Grande fazem parte do dia-dia dos policiais do GOI (Grupo de Operações e Investigações). Em sede aos fundos da Depac Piratininga as equipes trabalham 24 horas. São eles os responsáveis por rodarem a cidade atrás de suspeitos, os primeiros a ouvirem testemunhas e ainda cumprirem mandados de prisão de outras delegacias.

Fernandes, Natividade, André, Souza e Walter contam que é o amor a profissão, a vontade de ver cada caso resolvido, que motiva a continuar. “Ninguém chegou aqui por acaso, é sonho desde criança. A gente brinca que é mais fácil reunir todo mundo para uma investigação do que para um churrasco”, afirma Walter.

A prova disso, lembram eles, foi a prisão de Luís Alberto Bastos Barbosa, assassino confesso da musicista Mayara Amaral, de 27 anos. O crime que chocou os moradores de Campo Grande aconteceu em julho de 2017 e foi resolvido depois que os investigadores do GOI conseguiram acesso ao e-mail da jovem e por ele rastrearem os últimos passos da vítima.

“Quando ele confessou chamamos todo mundo e dividimos a equipe para todos os lados da cidade. Uma foi no motel, outra no atrás do carro”, detalha Fernandes. Dias de apuração também levaram os policias a resolução do assassinato da professora Maria Ildoneia Lima, de 70 anos e do motorista de aplicativo Rafael Baron, 24 anos.

Em cada investigação que forma a “vida” do grupo, a união entre a equipes fica evidente. “Todo trabalho aqui resolvido em conjunto, graças a troca de informação. Todos são comprometidos”, ressalta Fernandes.

Depac Piratininga registrou mais de 8.192 casos de janeiro a junho (Foto: Aquivo)Depac Piratininga registrou mais de 8.192 casos de janeiro a junho (Foto: Aquivo)

Depacs - As delegacias de pronto atendimento funcionam em plantões ininterruptos nas 24 horas do dia, durante toda a semana e são o ponto de partida de grande parte das investigações da Capital. Dali os casos registrados são enviados as delegacias de área, ou para as especializadas, onde as apurações são feitas.

Nas palavras do delegado João Eduardo Santana Davanço, titular da DEPACs, as unidades são especializadas no atendimento ao público e esse cuidado no primeiro contato com a população reflete diretamente nos dados de segurança pública. “Sempre falo que o plantão é um processo de imersão, você deixa seus problemas em casa para resolver o da população”.

Para melhor atendimento aos 800 mil habitantes de Campo Grande a cidade é dividida em duas – a região norte fica sob a responsabilidade da Depac Centro e a sul da Depac Piratininga. Nas duas delegacias são registrados boletins de ocorrência, feitos autos de prisão em flagrante de delito e apreensão de adolescentes infratores, cumprimento de mandados de prisão e atendimento a locais de crime para realização de perícia.

De janeiro a junho deste ano foram registrados apenas na Depac Centro 8.871 boletins de ocorrência - deles 6.699 crimes e 2.172 casos de extravio e preservação de direito, chamados de fatos atípicos. Ainda foram registradas 602 prisões em flagrante e 25 apreensões de adolescentes, além de 526 mandados de prisão e 33 mandados de apreensão de adolescentes cumpridos.

No mesmo período a Depac Piratininga registrou 8.192 casos – 6.581 crimes e 1.611 fatos atípicos. Nos seis primeiros meses do ano foram feitas 563 prisões em flagrante e 39 apreensões de adolescente. Ainda foram cumpridos 471 mandados de prisão na delegacia e 30 de busca a adolescentes.

“Furto e roubos de veículo, além de tráfico de drogas são concentrados na Depacs também, para ajudar as delegacias especializadas”, explica Davanço. Segundo o delegado, depois de casos menores, como extravio de documentos, o crime mais registrado nos plantões é o de tráfico de drogas.

O crime corresponde a 43% das prisões em flagrante registradas nas duas unidades. Entre janeiro e julho deste ano, 579 traficantes foram levados para as delegacias. Segundo o delegado plantonista da Depac Centro, Rodrigo Camapum, parte desses casos são de usuários que revendem a droga para manter o vício, principalmente na região da antiga rodoviária.

O tráfico é também a origem de outros crimes, como roubos e furtos. “90% dos furtos vêm do tráfico de drogas, falo sem medo de errar”. Apesar da convivência exigir que os policiais não se envolvam emocionalmente, Camapum conta que o estado das vítimas e as vezes até dos próprios presos exige mais atenção das equipes.

“Toda a demanda que chega à delegacia é registrada. A maioria não é crime, ou são casos de menor portencial ofensivo, mas tudo é feito aqui”, reforçou. Hoje, conforme o delegado, o estelionato lidera a lista de crimes denunciados na unidade. “Hoje os estelionatários aproveitam de falhas no sistema”.

Reforma – De novembro do ano passado até maio deste ano, a Depac Centro ficou fechada para reforma. Após a entrega da obra a unidade sala de reconhecimento de suspeitos, sete computadores para atendimento, área restrita de presos, novas salas para escrivães e delegados e para a Polícia Militar.

“Com a reforma da DEPAC Centro, podemos oferecer melhores condições de trabalho e de atendimento. A preocupação da Polícia Civil é melhor atender a população e ter uma melhor integração com as outras forças policiais. Toda as delegacias possuem sua importância, as Depacs precisa estar em constante aprimoramento”, explicou Davanço.


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