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Capital

Na vida perto do aeroporto, medo de acidente é rotina

As investigações da FAB (Força Aérea Brasileira) e dos peritos do Cenipa seguem em absoluto sigilo

Por Geisy Garnes e Bruna Marques | 14/09/2021 13:35
Nesta manhã, aviões da Força Aérea sobrevoaram a região do Aeroporto. (Foto: Henrique Kawaminami)
Nesta manhã, aviões da Força Aérea sobrevoaram a região do Aeroporto. (Foto: Henrique Kawaminami)

A queda do caça A-29, conhecido como Super Tucano, na manhã dessa segunda -feira (13), fez Campo Grande reviver o medo de uma tragédia testemunhada há nove anos, quando o então capitão-tenente da Marinha, Bruno de Oliveira Rodrigues, de 32 anos, morreu em acidente aéreo idêntico. Mas para quem mora na saída da cidade para Aquidauana, esse receio é diário, vivido a cada pouso ou decolagem de aeronave.

Além dos voos comerciais que chegam e saem de Campo Grande pelo Aeroporto Internacional, quem escolheu a região para viver, precisa dividir espaço com as aeronaves da Força Aérea que sobrevoam o céu da Capital frequentemente durante treinamento, na maioria das vezes, carregadas de armamentos, como a de ontem, que possuía uma metralhadora .50.

Elza mora no Conjunto União há 16 anos. (Foto: Henrique Kawaminami)
Elza mora no Conjunto União há 16 anos. (Foto: Henrique Kawaminami)

O acidente de 2012 ainda segue claro na memória de Elza Gomes de Souza, de 57 anos. “Da outra vez que caiu um avião, parecia um trovão daqueles que dão medo, sabe?”, conta moradora do Conjunto União que, há 16 anos, vive na Rua Luís Ribeiro Píres, aos fundos da Base Aérea de Campo Grande.

Desta vez, narra, a queda foi mais “silenciosa” e só alarmou os moradores quando a notícia do acidente já havia se espalhado. “Quem mora perto do Aeroporto sempre tem esse medo. Mas tenho mais medo quando eles sobrevoam de helicóptero. Ontem de noite mesmo, eles estavam passando aqui em cima. Causa medo, não tem jeito, o jeito é acostumar, não tem o que fazer, vai reclamar para quem?”, reforçou a moradora.

O mesmo receio faz parte do cotidiano do serralheiro Paulo Maciel de Lima, de 64 anos. Há 20 anos, ele fez o Conjunto União de morada e diz ter precisado se acostumar com o risco. “Já é o segundo o avião que cai. Eles fazem instrução da Base Aérea e não podemos fazer nada, infelizmente. A gente fica com medo de cair algum avião na nossa casa”.

Paulo estava trabalhando e ouviu sobre a queda da aeronave no rádio, ligado dentro da serralheria. “Para mim, tinha caído perto do Coophavilla. É aquele negócio, estamos do lado do aeroporto e corremos o risco deles entrarem errado e cair na casa da gente”.

No Jardim Petrópolis, nem 56 anos morando no mesmo lugar, fez a insegurança desaparecer. Aos 77 anos, Miguel Ortiz conta que o maior medo é o acidente acontecer durante a noite. “Meu medo é a gente estar dormindo, vir um avião desse e cair na nossa casa. Ontem, minha esposa ainda falou, graças a deus que não foi aqui”.

Para a técnica de enfermagem Márcia Aparecida da Silva, de 59 anos, o avião não ter atingido casas foi pura habilidade do piloto. “Esse menino fez uma peripécia para não cair em cima das casas. Acho que ele foi bem astuto na manobra que ele fez e evitou uma tragédia. Graças a deus, foi cair lá no matagal. O receio sempre existe, porque a gente nunca sabe”, afirmou.

Paulo cresceu na região e diz que nunca se acostumou com os aviões. (Foto: Henrique Kawaminami)
Paulo cresceu na região e diz que nunca se acostumou com os aviões. (Foto: Henrique Kawaminami)

O comerciante Paulo Jara, de 34 anos, cresceu na região e hoje, também mora no Petrópolis. Nos anos ao lado dos aviões, enfrentou mais do que o medo das quedas, viu de perto o prejuízo que podem causar. “Eles passam baixinho aqui em cima de casa. Na outra casa que eu morava com meu avô, no Santo Antônio, tivemos que reformar tudo, porque as paredes racharam por conta dos tremores. A gente tem medo, faz um barulhão, tem hora que a impressão que dá é que vai cair de verdade. Moro aqui faz tempo, mas não me acostumo”.

A investigação – Enquanto os moradores especulam os motivos da queda do Super Tucano, as investigações da FAB (Força Aérea Brasileira) e dos peritos do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) seguem em absoluto sigilo. Nesta manhã, a equipe de reportagem voltou ao local do acidente para acompanhar os trabalhos e entender os motivos da pane que derrubou o caça A-29, mas não pôde se aproximar.

Nesta manhã, os militares montaram acampamento na área para evitar a entrada de civis e preservar o ponto de choque, assim como as condições do que sobrou do avião, que se partiu em 3 pedaços, com peças espalhadas pela propriedade rural.

Desde ontem, a reportagem tenta informações oficiais sobre a queda e sobre o piloto, que conseguiu deixar a aeronave minutos antes do acidente, mas foi avisada de que detalhes não serão revelados por “segurança”. Sabe-se apenas que o avião militar era usado no combate ao tráfico de drogas na fronteira e na interceptação de aeronave suspeita no espaço aéreo brasileiro.

Equipes de investigação no local em que o avião caiu. (Foto: Henrique Kawaminami)
Equipes de investigação no local em que o avião caiu. (Foto: Henrique Kawaminami)


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