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Capital

No banco dos réus, mulher que matou marido a facada diz: "só queria me defender"

Ana Paula Rocha está sendo julgada pela morte do marido, Ednei, após mais uma das constantes brigas do casal

Por Silvia Frias e Bruna Marques | 23/06/2022 10:24
Ana Paula durante depoimento prestado hoje, durante julgamento (Foto: Henrique Kawaminami)
Ana Paula durante depoimento prestado hoje, durante julgamento (Foto: Henrique Kawaminami)

Ana Paula e Ednei viveram nove anos de relação turbulenta, de brigas e agressões constantes, a maioria, potencializada pelo uso que ele fazia de forma recorrente da bebida alcoólica. Em 2018, o desfecho foi a morte com uma facada no pescoço, depois de mais uma discussão, no Jardim Santa Emília. A vítima sangrou até à morte, sentada em uma cadeira na varanda.

Hoje, no banco dos réus, a auxiliar de serviços gerais Ana Paula Rocha da Silva Oliveira, 41 anos, está sendo julgada pelo homicídio qualificado por motivação fútil do marido, Ednei Moura de Oliveira Rocha. Em defesa, a ré alegou ter sido vítima de agressões físicas constantes, muitas, na frente dos filhos e que só tentou se defender. “A intenção não era matar, não sabia que ia matar ele; jamais passou na minha cabeça tirar a vida dele”, disse.

Na denúncia oferecida pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), consta que a morte aconteceu por volta das 19h do dia 4 de agosto de 2018, no Santa Emília. Ana Paula retornava do trabalho quando viu o marido no bar. A promotoria alega que ela suspeitava de traição e foi até o local, começando discussão que durou todo o trajeto de volta para casa.

Ednei cambaleou até uma cadeira de fios e lá permaneceu em repouso final, diz denúncia (Foto/Reprodução)
Ednei cambaleou até uma cadeira de fios e lá permaneceu em repouso final, diz denúncia (Foto/Reprodução)

Quando chegou em casa, segundo denúncia, Ana Paula pegou a faca e golpeou Ednei, que estava na porta de entrada. “(...) a vítima cambaleou até uma cadeira de fios próxima à porta e lá permaneceu em repouso final”, relata a promotora Livia Carla Guadanhim Bariani. Ednei morreu aos 30 anos.

Duas testemunhas convocadas por defesa e acusação apresentaram pontos de vistas diferentes sobre a trajetória do casal. O pai de Ednei, Heraldo Conceição de Oliveira, disse que nunca havia presenciado agressões físicas entre os dois, somente verbais. Ele aconselhava o filho a separar. “Eu já previa isso, pelo que vinha acontecendo”.

No dia da briga derradeira, Heraldo chegou depois da agressão e viu polícia e bombeiros no local. Recebeu a notícia da morte de um dos presentes. “Se eu chegasse perto dela, não sei o que teria acontecido”. Ele nega que o filho estivesse com “chupão” no pescoço, como chegou-se a falar na fase de investigação.

Heraldo disse que as brigas eram sempre motivadas por ciúmes e bebidas. “Não vou falar que meu filho é santo, porque não era”, admitiu, mas nega que ele tenha sido agressivo a ponto de bater em Ana Paula. “Uma vez presenciei ela correndo até minha casa, disse que ele estava com uma faca correndo atrás dela; mas, bêbado do jeito que ele estava eu não acredito”, concluiu.

Juiz da 1ª Vara do Tribunal, Carlos Alberto Garcete, mostra arma do crime (Foto: Henrique Kawaminami)
Juiz da 1ª Vara do Tribunal, Carlos Alberto Garcete, mostra arma do crime (Foto: Henrique Kawaminami)

A outra testemunha foi advogada Ana Paula Iunardon Nunes Silva, que trabalhou em uma loja de roupas com Ana Paula em 2015, época que a ré estava casa com Ednei.

“Ela chegou um dia e as costureiras comentaram que ela estava com olho roxo, rosto roxo, pescoço, braços”, contou. A ré contou que o marido chegou bêbado em casa e a agrediu.

Naquele dia, a ré faria a foto do contrato de trabalho. “Carrego maquiagem e fiz nela para tampar, mas o olho ainda ficou vermelhinho na bolinha branca” descreveu.

A advogada disse que o relato de Ana Paula era de que ele bebia e a agredia com frequência. “Não me surpreenderia em receber notícia de quela teria sido vítima de feminicídio um dia”. A testemunha contou que Ana Paula chegou a ser aconselhada a denunciar o marido, mas a resposta dada por ela é que queria que os filhos tivessem um pai.

Em seguida, foi a vez do testemunho do policial militar Johny Peterson Vieira da Silva, que atendeu a ocorrência. “A própria acusada que ligou para o bombeiro” contou. Segundo ele, Ana Paula estava sentada em uma cadeira, próxima de Ednei e confessou o crime. Disse que os dois discutiram por causa de um “chupão” no pescoço dele. Nervoso, ele passou a gritar e chutar o portão. Ana contou que foi na cozinha, pegou a faca e deu o golpe no pescoço. Ferido, sentou na cadeira e pediu que ela chamasse pelo socorro.

Relação – Ana Paula hoje com 41 anos, é mãe de três filhos, de 14, 12 e 10 anos, hoje mora com o avô e trabalha em um aviário. Chegou a ser presa pelo crime, mas passou a responder ao processo em liberdade.

No banco dos réus, passou a relatar a história que viveu com Ednei. O juiz da 1ª Vara, Carlos Alberto Garcete, não permitiu imagens do rosto dela.

Ana Paula contou que os dois Começaram a viver juntos a partir de 2009, com quem teve dois filhos. “Desde o início do namoro a gente brigava, falei que não queria casar, que não ia dar certo; acabei casando e as brigas continuavam”. Durante o relacionamento, que durou nove anos, registrou apenas um boletim de ocorrência contra ele.

Ana Paula justificou que gostava dele e tentou “batalhar pelo casamento”, pois não queria que os filhos crescessem sem a presença paterna como ela, criada pelos avós. Também alegou que, sóbrio, Ednei era outra pessoa. “Era um bom homem, ficava em casa, me ajudava, cuidava dos meninos”.

Mas, segundo ela, o comportamento mudava quando bebia. “Saía para beber na sexta e só aparecia no domingo, às vezes, carregado pelos amigos”. Contou que em uma dessas ocasiões, Ednei chegou alcoolizado e lhe desferiu soco. “Chamei a polícia, ele ficou 44 dias preso e saiu”.

O casal chegou a ficar um mês separado, mas voltou. “Eu chamava a polícia, mas, às vezes, não ia. Chamei várias vezes, só foram duas”, contou.

No dia do crime, sábado, o patrão pediu que ela fosse até a casa dele para auxiliar em evento. Segundo Ana Paula, quando voltou, por volta das 18h, ligou para que ele a ajudasse com as sacolas quando descesse do ônibus. Ednei estava no bar, bebendo desde cedo.

Viu Ednei no bar, chamou para que fossem embora e a briga começou. “Perguntei porque ele gastava dinheiro à toa, ele respondeu que fazia o que queria com dinheiro dele”. Ana Paula retrucou "Então eu não vou falar mais nada". A mulher diz que o marido a acusava, dizia que ela não o amava mais. “Falei que amava, mas ele tinha que mudar”.

Em casa, a briga continuou. Ana Paula diz que ele chutou o portão, falava que estava com o “capeta no corpo”. A ré continuou. “Abri o portão, ele chutou, gritando para abrir”. Ela diz que abriu e foi para a cozinha, sendo seguida por ele.

“Ele veio para cima de mim, eu estava na beira da pia, do jeito que eu estava com medo, as crianças chorando, do jeito que eu estava, peguei a faca para me defender. Mas a intenção não era matar, não sabia que ia matar ele”, alegou.

Ednei cambaleou e sentou na cadeira de fios, enquanto Ana Paula chamava o Corpo de Bombeiros. Ana Paula mostrou os áudios daquele dia, em que conversou três vezes com o atendente.


Quando o socorro chegou, segundo ela, meia hora depois, Ednei já estava morto. “Jamais passou na minha cabeça tirar a vida dele”, afirmou, justificando que, se tivesse, não teria chamado socorro. “Sei que errei, peço perdão a Deus por ter tirado a vida de uma pessoa”. Diz que somente se defendeu, por medo e por ver as crianças chorando.

Calma durante todo o depoimento, chorou ao ponderar o que aconteceu. “Até hoje me coloco no lugar dos meus filhos, dos pais dele. Hoje eu tenho meus filhos para abraçar. Me arrependo muito, se eu tivesse ouvido os conselhos que me deram isso não tinha acontecido”.

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