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Campo Grande, Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018

15/09/2018 16:32

Nos 365 dias sem Mayara: feminicídio, saudade e descrença na Justiça

“Eu não acredito na Justiça. Nem um pouquinho. Tenho até medo de ir nesse júri popular e eles liberarem”, conta Viviane, irmã de Mayara

Aline dos Santos
Viviane fez tatuagem para homenagear a irmã, que foi morta pelo namorado. (Foto: Henrique Kawaminami)Viviane fez tatuagem para homenagear a irmã, que foi morta pelo namorado. (Foto: Henrique Kawaminami)

Duas menina sentadas num balanço, de mãos dadas e um coração ao centro. Com diversas tatuagens, Viviane Fontoura Holsback, 22 anos, tem nesse singelo desenho o registro mais marcante e dolorido.

A figura é completada pela frase “Você sempre estará aqui comigo Mayara”, reproduzindo a letra , um tanto “tortinha” de Mayara Hoslback, que aos 18 anos virou estatística de feminicídio. O crime completa um ano e também deixa em Viviane a marca da incredulidade: “Não acredito na Justiça”.

Para lidar com a saudade da irmã, Viviane trocou de perfume, elas usavam o mesmo, e guardou uma bonequinha de recordação, uma menina em cima de uma concha. Nas datas especiais, a família se habitua a pensar em um ano antes e um ano depois de 15 de setembro de 2017, data do crime. Namorado de Mayara, Roberson Batista da Silva, o Robinho, de 33 anos, a matou com golpes de tesoura.

“A minha mãe já era magra, agora ficou mais magra ainda, nem come direito. No aniversário da minha mãe, no dia 6 de setembro, não foi a mesma coisa, ninguém comemorou. No ano passado, ela [Mayara] estava com nós. Ontem, minha mãe ficou lembrando, só de pensar que ano passado ela estava aqui em casa. É difícil”, diz Viviane, sobre a rotina depois do crime.

Também fica na lembrança de Viviane que a irmã viveu um relacionamento abusivo. Mesmo preso, ele monitorava os passados da namorada. “Deus me livre. A gente ficava sentada, conversando e a cada cinco minutos tocava o celular dela. Ela não aguentava e ia embora para a casa. Ele colocava na cabeça da Mayara que todo mundo tinha inveja dela. Tipo assim você é minha e só minha”, diz a irmã.

Viviane conta que namorado tratava vítima bem, mas comportamento mudou depois que foi preso. (Foto: Henrique Kawaminami)Viviane conta que namorado tratava vítima bem, mas comportamento mudou depois que foi preso. (Foto: Henrique Kawaminami)

Ele namoravam há três meses quando Robinho foi preso. “Nesses três meses ele tratava ela bem, dava roupa curta, erguia ela lá em cima. Depois que foi preso, começou a proibir ela de sair. Ele cuidava o aplicativo do Uber e sabia todo lugar que ela ia. Ele ficava ligando 24 horas”, conta Viviane. Em liberdade condicional, ele saiu da prisão e o casal se reencontrou.

Depois do crime, Roberson fugiu, ficou 51 dias foragidos e se entregou para a polícia em 7 de novembro do ano passado. Na delegacia, disse que Mayara era a garota de programa, que “tirou ela da vida” e depois de preso ela disse que havia voltado a se prostituir. “Isso machuca. Ele saiu falando que ela era garota de programa. A pessoas não está aqui para se defender. Só tem a gente para defender. Depois que mata, todo mundo não presta”, afirma a irmã.

O julgamento de Robinho primeiro foi marcado para 19 de julho, mas acabou cancelado a pedido da defesa, que alegou falta de intimação de uma testemunha imprescindível e uma cirurgia.

O juiz da 1ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande, Carlos Alberto Garcete, remarcou o júri popular para o próximo dia 20. Ele foi denunciado por homicídio doloso, com qualificadoras por feminicídio e motivo torpe.

No processo, a defesa sustentou que não houve motivação torpe e que a qualificadora qualificadora do feminicídio não poderia prevalecer unicamente “em face da vítima de sexo feminino”. As qualificadoras são as circunstâncias que podem aumentar a pena.

“Eu não acredito na Justiça. Nem um pouquinho. Tenho até medo de ir nesse júri popular e eles liberarem”, conta Viviane.

A Lei 13.104, de 9 de março de 2015, alterou o código penal para incluir mais uma modalidade de homicídio qualificado, o feminicídio: quando crime for praticado contra a mulher por razões da condição de sexo feminino.

Mayara Holsback foi morta em 15 de setembro do ano passado. Mayara Holsback foi morta em 15 de setembro do ano passado.


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