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Capital

Nove meses após assaltar farmácia para levar Ritalina, jovem decide se explicar

Rapaz de 23 anos começou a usar drogas com 16, e agora diz que precisa falar sobre saúde mental

Por Ângela Kempfer | 20/06/2024 09:06
Mãos do responsável pelo assalto, que não terá o rosto divulgado. (Foto: Juliano Almeida)
Mãos do responsável pelo assalto, que não terá o rosto divulgado. (Foto: Juliano Almeida)

A história rodou o Brasil em setembro do ano passado. Rapaz, de “cara limpa”, invadiu uma farmácia de Campo Grande, anunciou assalto e, apesar de R$ 5 mil guardados no caixa, nem ligou para o dinheiro. Só exigiu um “tarja preta”. Saiu do local levando Ritalina, medicamento da família das anfetaminas, prescrita para adultos e crianças portadores de transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e considerado hoje uma bomba-relógio para adolescentes e jovens que abusam e criam dependência.

Nesta semana, o “ladrão” inusitado surpreendeu de novo. Procurou o Campo Grande News para se explicar e “dar o testemunho” de quem perdeu “5 anos da vida para as drogas”, usando o que parecia inofensivo, mas que foi crescendo como um monstro dentro da cabeça. “É como se eu nunca tivesse vivido esse tempo. Parei. Vivia flutuando, sem produzir nada. Quero falar de saúde mental”, justifica.

Olhando para ele ao vivo e para as imagens das câmeras de segurança da farmácia não resta dúvida: é a mesma pessoa, o mesmo jeito de andar e de falar. “Nem me preocupei em me esconder. Só coloquei um gorro na cabeça, peguei uma arminha de airsoft do meu primo, pintei a parte amarela e fui”, lembra.

A história dele fala mais sobre saúde mental do que dependência química, apesar da evidente relação. O menino, que aos 16 anos a mãe chamava de “meu sabe tudo", conta que mudou na adolescência sem que ninguém percebesse. Começou com maconha, álcool, Ritalina... e de repente era outro garoto.

No Natal de 2022, surtou em família e teve de ser hospitalizado. Em 2023, invadiu uma casa só para consumir drogas, enquanto não havia ninguém no imóvel.

No processo movido pelo morador após a invasão, é citado por peritos “possível caso de esquizofrenia”, o que complica o entendimento sobre o que é real ou imaginação e dá margem a muitos universos paralelos. Nos documentos, fica clara a fragilidade da saúde mental do menino naquela época, potencializada pela mistura de entorpecentes e medicamentos.

Indo e vindo em lembranças meio desencontradas, na versão atual, dele o diagnóstico real é bipolaridade e hipomania. As vezes tem energia em excesso, impaciência, agitação e impulsividade. Foi justamente o último sintoma que o levou ao “crime da Ritalina”, afirma.

“Eu estava muito agitado e não conseguia focar em nada. Como não tinha receita pra comprar, pensei: vou roubar. Passei em uma farmácia e perguntei pro cara se vendia sem receita, como respondeu que não, eu mostrei a arminha. Ele só riu e mandou eu ir embora. Mas na segunda farmácia, o funcionário acreditou que era assalto”, detalha.

Era por volta de 16h de uma quinta-feira, na Rua Raul Pires Barbosa, no Bairro Chácara Cachoeira. Com a caixa do medicamento na mão, ele correu para casa, moeu os comprimidos e já era...

“Depois de um tempo apaguei. Dormi não sei quantas horas... Quando acordei, tinha um monte de amigo meu mandando mensagem e ligando porque me viram no Campo Grande News: ‘se é louco’, todo mundo dizia”.

A ação durou cerca de dois minutos e deixou a equipe da farmácia incrédula. Mas a polícia nunca apareceu para investigar.

Envolvido em tanta confusão, ele acabou mudando para a casa do pai, no Paraná e retornou há pouco tempo para Campo Grande.

O jovem morador de bairro nobre, branco, magro e com sorriso nervoso, diz que trancou o curso de Publicidade no 2º ano, porque nada mais importava a não ser conseguir algo que desse “barato”. Ele vai enumerando as drogas que usou desde os 16 anos e termina a lista com 5 medicamentos tarja preta.

“Conheci todo tipo de gente e o que eles me ofereciam eu usava. Também conheci um grupo com farmacodependência, aí que me liguei em usar remédios”, principalmente analgésicos altamente suscetíveis ao uso indevido, como opioides. Ele diz não saber quando "virou a chave" e resolveu procurar ajuda, como o grupo NA (Narcóticos Anônimos).

Por isso, a conversa 9 meses depois do assalto ainda soa truncada em vários aspectos. Com frases muito bem elaboradas em alguns momentos e por outras vezes soltas, ele diz que agora se dedica à música e a Deus.

Inclusive, mostra que o episódio na farmácia rendeu contato com o rapper que admirava. “Saiu matéria no Brasil todo e em uma delas ele comentou, aí eu fui lá e me identifiquei. Passamos a conversar sobre música e é isso que eu quero pra minha vida hoje”, garante.

Hoje o jovem gosta de escrever rap e falar sobre música nas redes sociais. (Foto: Reprodução)
Hoje o jovem gosta de escrever rap e falar sobre música nas redes sociais. (Foto: Reprodução)

Nas redes sociais, o rapaz posta letras e batidas de rap produzidas por ele. Exibe a namorada, aparece entre a "vida louca" e a tranquilidade.

Parece ser só o primeiro trecho do caminho que ele diz querer trilhar. Na rotina, ainda estão 4 medicamentos diários, que ele garante serem prescritos pelo psiquiatra atualmente. Sobre o motivo de bater na porta do Campo Grande News, o jovem conta que é feliz quando não usa drogas e por isso resolveu compartilhar. "Quero me ajudar e ajudar outras pessoas a entenderem o quanto se perde".

Apesar de autorizar o uso da imagem, do nome e sobrenome, de repassar vários detalhes que ajudariam a compreender tanto sofrimento, o jornal decidiu omitir informações para preservar quem já luta diariamente contra lembranças ruins, medos, controle da compulsão e lida com doença mental.

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