Quem são? Censo revela retrato das 1,4 mil pessoas que vivem nas ruas da Capital
Drogas lideram motivos que levaram 1.476 pessoas a vagar pela Capital, segundo levantamento inédito

Um homem de 36 anos, que nasceu na fronteira com o Paraguai e trabalhou boa parte da vida como barman entrou numa estatística inédita feita em Campo Grande: a da população de rua.
RESUMO
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Campo Grande realizou seu primeiro censo da população em situação de rua, revelando 1.476 pessoas vivendo nas ruas ou em abrigos. O levantamento, feito em 30 de setembro por 32 equipes, aponta que quase metade é da própria capital, 17% são imigrantes e 56 são crianças. O uso de drogas e conflitos familiares lideram as causas. As vagas em acolhimento somam 420, número insuficiente diante da demanda.
Ele fala sem receio da atual situação, só esconde o rosto debaixo da camiseta quando a tosse ataca. Ter passado dois anos ao relento facilitou para a pneumonia e a tuberculose. “Estou terminando o tratamento e não transmito mais”, avisa logo.
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Mais jovem, saiu de Ponta Porã e foi trabalhar numa churrascaria famosa da Capital. Mudou-se para Florianópolis (SC) e também conseguiu emprego lá, mas o problema foi ter conhecido a cocaína e abusado do álcool na nova cidade.
Está acolhido numa Uaifa (Unidade de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias) de Campo Grande. Comida, banho, roupas e cuidados de saúde estão garantidos. O que falta, de imediato, é tirar outra carteira de identidade.
Se apressa em dizer que está se “integrando à sociedade novamente”. Para ele, isso significa “tomar um trabalho, ter a vida profissional e a vida social de volta”.
Tirar pessoas da rua não é simples e nem é solução mágica para o problema social. Mas como alguém que está perto de deixar a estatística, ele defende “suporte psicológico” como o mais urgente para quem segue na rua “querer viver de novo”.
Retrato - São 1.476 as pessoas vivendo em vias públicas ou em instituições de acolhimento de Campo Grande. Esse número e outros dados sobre elas nunca haviam sido levantados em campo e de forma tão abrangente em Campo Grande. A divulgação dos resultados do primeiro censo ocorreu hoje (19), Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua.
O que mais chama atenção é que quase metade é da própria Capital e que um percentual alto não tem documentos, uma barreira enorme para conseguirem benefício social e trabalho.
O número de crianças dentro desse universo surpreende. Elas são 56 no total, sendo que seis sequer estão protegidas pelo teto de uma casa de acolhimento, de acordo com o levantamento. Os imigrantes também aparecem nos dados, com eles representando 17% dessa população.
Com georreferenciamento, o censo produziu um mapa dos principais pontos de concentração na Capital, mas o link ainda não foi divulgado. O que foi adiantado é que as pessoas em situação de rua estão principalmente nas regiões Central e na Anhanduizinho, que fica ao sul da cidade e onde estão bairros como Aero Rancho, Caiobá, Guanandi e Los Angeles.
Outro destaque trazido pelo censo é que um quinto alega ter algum transtorno mental e pouco mais de 30% está na rua há mais de seis anos. Além disso, o uso de drogas é o principal motivo que os levou a sair de casa, seguido por conflito com familiares. A maioria não tem trabalho formal e cerca de 40% possui alguma renda informal, geralmente conseguida com venda de recicláveis. Benefícios sociais, que ajudariam no básico, alcançam pouco mais que a metade.
Mais gente do que vaga - A quantidade de pessoas encontradas é desproporcional às vagas disponíveis nas instituições de acolhimento.
São 420 nas Uaifas, segundo a SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social). A pasta afirmou que mantém vagas em mais quatro conveniadas, mas não respondeu quantas.
A defensora pública estadual, Thaísa Raquel Defante, afirma que não basta ter vagas em locais fixos, mas também equipes rotativas dando assistência nas ruas. Ela frisa que falta quem olhe para eles aos finais de semana e feriados.
“Nós não temos ainda um serviço que funcione nesses dias. Ao sentir fome, eu não sinto fome só de segunda a sexta. Eu não tomo banho de segunda a sexta. Eu não tenho banheiros públicos disponíveis em todos os espaços ou em espaços públicos. Eu não tenho bebedouro. Passam por extremos de frio e calor”, apontou.
Thaísa define como “realidades complexas” as deles. São vidas vividas apesar de violações de direitos. “São tantas. É impactante olhar os dados de sobrevivência na rua, como acesso à comida, acesso à água, alimentação, banheiro. Quando a pessoa não está acolhida, ela sofre mais, vimos que o percentual dos que vivem a partir de doações é bastante alto”, completa.
Os estrangeiros são uma camada crescente dessa população e ainda precisam ser melhor conhecidos, o que vai demandar outro estudo. “É natural que nós tenhamos migrantes internacionais também em situação de rua, mas cuidando para que eles sejam absorvidos pela população de maneira produtiva”, complementa a defensora.
Trabalho em grupo - A contagem e as entrevistas foram feitas num só dia, em 30 de setembro de 2025, por 32 equipes que se espalharam e encontraram os rostos que procuravam em todos os cantos da Capital e até na área rural, onde uma comunidade terapêutica acolhe 60 homens que não têm mais onde ficar.
O trabalho envolveu gente que já conhecia o perfil da população de rua, sabia a melhor forma de abordagem e conseguiu gerar “dados de qualidade com olhar específico”, como destacou o responsável por organizar os dados, o professor universitário e superintendente de Inteligência de Dados do Governo Estadual, Leandro Sauer. “Chamamos quem convive, o que fez uma diferença incrível”, reforçou.
O resultado foi apresentado na Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, que participou do levantamento junto a servidores de secretarias estaduais e municipais, além do Ministério Público Estadual, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e da associação Águia Morena de Redução de Danos.
Para as coisas mudarem - Vice-prefeita e secretária municipal de Assistência Social de Campo Grande, Camilla Nascimento, reconheceu que a assistência a essa população precisa melhorar e afirmou que saber quem elas são é um passo para começar a fechar a lacuna.
“A gente vem em evolução nessa política pública. Esse perfil é o primeiro grande passo, nunca houve em Campo Grande. Temos uma base municipal iniciando a revisão do nosso plano municipal”, disse.

Questionada sobre o orçamento e os recursos disponíveis hoje para corrigir as falhas do Poder Público, a secretária explicou que não existem valores definidos, mas que o possível está sendo feito.
"A assistência social sempre precisa de recurso. Ela não tem um recurso definido, um percentual definido, como, por exemplo, existe para a saúde. Isso é uma luta da classe da assistência social de uma vida. Mas, com o planejamento, nós estamos conseguindo atender toda essa política pública do município", finalizou.
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