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Capital

Réu diz que "perdeu controle", mas não se lembra de ter matado mulher e bebê

"Um tapa causou tudo aquilo?", pergunta juiz; defesa tenta desqualificar tese de feminicídio

Por Silvia Frias e Gabi Cenciarelli | 27/05/2026 11:19
Réu diz que "perdeu controle", mas não se lembra de ter matado mulher e bebê
Foto das vítimas é mostrada em telão, enquanto réu, João Augusto (branco) permanece de cabeça baixa (Foto: Osmar Veiga)

João Augusto Borges, de 22 anos, diz que não se lembra de como matou a mulher, Vanessa Eugênia Medeiros, e a filha, Sophie Eugênia Borges, bebê que tinha apenas 10 meses. Questionado pelo juiz da 2ª Vara do Tribunal do Júri durante o julgamento pelo duplo feminicídio, o réu afirmou ter sido induzido na delegacia a relacionar as mortes ao pagamento de pensão alimentícia. Mas confessou os crimes, alegando que matou por “raiva excessiva”, depois de levar um tapa da mulher. “Perdi o controle”, disse.

RESUMO

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João Augusto Borges, de 22 anos, confessou ter matado a esposa Vanessa Eugênia Medeiros e a filha Sophie, de 10 meses, alegando "raiva excessiva" após levar um tapa no rosto. Durante julgamento pelo duplo feminicídio, o réu afirmou não se lembrar dos detalhes dos crimes e negou que a motivação fosse pensão alimentícia, dizendo ter sido induzido na delegacia. O juiz questionou a incompatibilidade entre a versão de descontrole e indícios de premeditação.

Durante o interrogatório, João respondeu às perguntas em tom calmo e voz baixa. Em nenhum momento olhou para o plenário, onde estão seus pais e familiares de Vanessa.

O interrogatório começou com o juiz, que perguntou o motivo de ele ter matado Vanessa e Sophie. João contou que havia saído do trabalho estressado, após ter o horário de almoço alterado para as 13h, e que a discussão começou porque voltou para casa sem passar no mercado. Segundo ele, Vanessa reclamou da falta das compras e o réu respondeu que compraria os itens à noite, depois do expediente.

João afirmou que, ao se despedir para voltar ao trabalho, recebeu um tapa no rosto. “Eu não lembro muita coisa. No acesso de raiva, eu perdi o controle”, declarou. Perguntado sobre o que fez depois disso, respondeu: “Não lembro”. Ele negou ter usado drogas e disse que não havia bebido naquele dia.

O juiz perguntou se João estava consciente dos atos. Ele respondeu que sim, mas em seguida voltou a atribuir o crime à perda de controle. “Quando perdi o controle, não tive mais consciência de mim”, afirmou. Ao ser questionado se já havia tido reação semelhante antes, disse que sim, anos atrás, quando roubaram sua cachorra. Segundo o réu, ele foi atrás da pessoa que suspeitava ter levado o animal e admitiu que poderia ter cometido um crime se a tivesse encontrado.

Réu diz que "perdeu controle", mas não se lembra de ter matado mulher e bebê
Mãe de Vanessa (sentada, de branco), fica do lado de fora durante interrogatório do réu (Foto: Osmar Veiga)

Aluizio Pereira dos Santos confrontou João sobre os relatos de testemunhas de que ele já falava em matar Vanessa antes do crime. O réu negou e disse que essas pessoas estariam mentindo. O juiz então observou que a versão de “excesso de raiva” e perda de controle seria incompatível com uma ação previamente planejada.

Sobre a confissão prestada na delegacia, João afirmou que foi induzido pelo delegado durante o depoimento. Sobre eventual transtorno mental, relatou que passou por psicólogo ou psiquiatra, mas que não recebeu diagnóstico. “Eu posso ter, mas não sei”, afirmou.

Ao ser perguntado sobre a morte da criança, João Augusto atribuiu novamente a conduta ao descontrole. “Mas um tapa causou tudo aquilo?”, questionou o magistrado. O réu respondeu que não agiu por Vanessa ser mulher e afirmou que poderia ter reagido da mesma forma com outra pessoa. “Poderia ser até meu irmão. Nunca tinha apanhado na cara, aí me deu acesso de raiva”, declarou.

Depois, o assistente de acusação Lucas Brandolis perguntou ao réu sobre falas atribuídas a ele antes do crime. Questionou se João se lembrava de ter dito que mataria Sophie “rodando a cabeça dela”. O acusado negou. Também disse que o crime não teve relação com pensão alimentícia. “Nunca tive essa conversa, principalmente sobre pensão”, disse.

Brandolis também perguntou sobre a compra de gasolina usada depois do crime, citando que teriam sido adquiridos três litros, no valor de R$ 36,00, com registro em vídeo. João afirmou não se recordar.

Réu diz que "perdeu controle", mas não se lembra de ter matado mulher e bebê
Réu responde às perguntadas da promotora Luciana do Amaral Rabelo e observado pelo juiz Aluizio Pereira (Foto: Osmar Veiga)


O advogado de defesa, Renato Franco, questionou o réu sobre a acusação de que o crime teria sido praticado por razões ligadas ao gênero feminino, inclusive em relação à criança. João disse que não se recorda da dinâmica dos fatos, nem de quem matou primeiro. Também afirmou não se lembrar de ter descrito ao delegado como matou Sophie.

Ao ser perguntado pela defesa sobre o motivo de ter matado as duas vítimas, João voltou a mencionar o “acesso de raiva” e o “descontrole”. Franco também questionou se ele havia falado com alguém depois para ajudar a ocultar os corpos. “Não me recordo”, respondeu. Sobre mensagens e áudios mencionados no processo, além de conversas posteriores envolvendo os corpos, o réu disse, novamente, não se lembrar.

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