Carta anexada ao processo dá voz a Sophie, bebê morta carbonizada com a mãe
João Augusto Borges de Almeida, pai e assassino da menina, será julgado nesta quarta-feira
“Papai, eu não aprendi a falar ainda, mas existiam coisas que eu sentia. Eu sentia colo, carinho, vezes perto de mim”, é assim que começa a carta anexada ao processo do assassinato de Sophie Eugênia Borges de Medeira e Vanessa Eugênia Medeiros. As duas foram mortas em 26 de maio de 2025 e tiveram os corpos carbonizados em área de vegetação.
RESUMO
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João Augusto Borges de Almeida, assassino confesso do duplo feminicídio de Vanessa Eugênia Medeiros e sua filha Sophie, de dez meses, começa a ser julgado nesta quarta-feira (27). As vítimas foram mortas em 26 de maio de 2025 e tiveram os corpos carbonizados. Ao processo, foi anexada uma carta emocionante dando voz às vítimas, destacando a brutalidade do crime que chocou até a equipe da Delegacia Especializada de Repressão a Homicídios.
O texto é endereçado ao pai e companheiro das vítimas, João Augusto Borges de Almeida, assassino confesso, que nesta quarta-feira (27) começa a ser julgado pelo duplo feminicídio que chocou até a equipe da DHPP (Delegacia Especializada de Repressão a Homicídios e de Proteção à Pessoa).
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A carta, dá voz à bebê que teve a vida interrompida aos dez meses. “Eu estava começando a viver. Nunca pude aprender a dizer seu nome. Minhas avós nunca me verão correr pela casa, escolher minha roupa favorita, fazer bagunça, dormir abraçada em um brinquedo ou cantar parabéns no meu primeiro aniversário”, diz parte do texto.
“Eu era só um bebê! Pequena demais para entender a violência. Pequena demais para sentir medo de quem deveria me proteger. Pequena demais para saber por que meus dias acabaram antes mesmo de começar. O que eu fiz com minhas mãozinhas tão pequenas além de tentar alcançar amor?”, questiona.
O texto ainda continua com Sophie imaginando como seria se ela ainda estivesse viva. “Às vezes imagino como teria sido crescer, minha voz mudando, meus primeiros passos, minha família me vendo aprender coisas novas. Imagino minha mamãe me chamando, me abraçando, me vendo viver. Mas de nós duas tudo isso foi tirado. Você não destruiu apenas duas vidas, destruiu todas as lembranças que ainda seriam criadas”.
“Todos os aniversários, todos os abraços, todos os parques de diversões, todos os dias de sol na pracinha em família e destruiu o futuro que estava esperando por mim. Nunca vou entender por que todo alguém machuca um bebê que só precisava de cuidado”, desabafa.
“Você ficará aqui cercado pelo silêncio que criou com as próprias mãos. Enquanto isso, nós permaneceremos na memória de quem nos amou de verdade, nos retratos guardados com saudade, nos nomes que ainda serão pronunciados entre lágrimas, no vazio que nossa ausência deixou dentro de casa”, finaliza a bebê.
Por fim, a carta termina na voz de Vanessa, mãe da bebê e também vítima de João. “Sophie nunca terá seu primeiro aniversário. Vanessa nunca poderá recomeçar. E nada do que aconteça daqui para frente mudará isso. Mas existe algo que você jamais poderá tirar: o amor que deixamos nas pessoas que ficaram. Porque a violência encerrou nossas vidas, mas não apagará quem nós fomos”.
E quando o tempo passar, talvez a maior sentença seja perceber que destruiu justamente aquilo que um dia confiou em você. Nós nos despedimos daqui. Não com ódio , mas com a dor irreparável de quem teve a vida interrompida cedo demais”, conclui o texto.
O julgamento de João acontece nesta quarta-feira (27), na 2ª Vara do Tribunal do Júri sob presidência do juiz Aluízio Pereira dos Santos.
Caso
Vanessa e Sophie foram mortas pelo rapaz por volta das 16h da segunda-feira (26), durante o horário de almoço de João. Ele relatou ao delegado que deu um golpe mata-leão na jovem e depois esganou a bebê que estava na cama do casal.
Em seguida, arrastou os corpos até o banheiro e voltou ao trabalho. Mais tarde, por volta das 20h, pegou os corpos na residência e colocou no porta-malas do carro. Ele posicionou Vanessa e Sophie como se estivessem “abraçadas”. Ele andou com as vítimas no veículo até chegar na área de mata no Indubrasil. No local, pegou Vanessa no colo e andou por cinco metros para colocá-la no chão.
Em seguida, pegou o corpo da bebê e colocou sobre o peito da mãe, cobriu os dois cadáveres com uma coberta e então ateou fogo. As vítimas foram encontradas durante a madrugada por vigilante que acionou a PM (Polícia Militar).
João foi preso horas depois enquanto tentava registrar boletim de ocorrência do desaparecimento das vítimas. Em depoimento, ele afirmou que odiava a bebê desde os 2 meses e que não sentia arrependimento ou remorso pelo crime.
Denúncia
João foi denunciado pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) por duplo feminicídio qualificado e ocultação/ destruição de cadáveres. Para os promotores de Justiça, Livia Carla Guadanhim Bariani e José Arturo Iunes Bobadilla Garcia, os assassinatos aconteceram por “razões da condição do sexo feminino”.
No documento, os promotores afirmam que João matou Vanessa e a filha asfixiadas no quarto do casal e depois retornou ao trabalho. No final do dia, ele colocou os corpos no veículo, comprou o combustível e foi até o local onde incendiou as vítimas, evadindo-se em seguida.
No caso de Vanessa, para o MP, o crime é majorado, já que foi praticado na presença da filha do casal e por meio cruel, mediante recurso que dificultou a defesa da vítima, que era responsável pela criança, já que Sophie tinha apenas 10 meses.
Em relação à filha, o crime também foi praticado por meio cruel, cometido contra menor de 14 anos, o que impossibilitou a defesa da bebê. E, em ambos os casos, por motivo torpe, já que ele assassinou as duas por “não desejar continuar com suas responsabilidades paternais e pelo ódio vingativo que nutria por Vanessa, decorrente das dificuldades que viviam no relacionamento”.
Com isso, o MPMS pediu que o juiz determine que o acusado pague indenização à família das vítimas em razão do dano moral, pois o crime causou “abalo psicológico”, além de pedir que João vá a julgamento em júri popular.




