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Capital

Um mês após morte de comerciante, "Pedreiro Assassino" alega legítima defesa

Crime foi o primeiro descoberto, em 7 de maio, quando corpo da vítima foi achado enterrado no quintal da casa dela, na Vila Nasser

Por Marta Ferreira e Geisy Garnes | 02/06/2020 14:54
Cleber de Souza Carvalho nesta manhã, quando deixava delegacia depois de depoimento em inquérito sobre assassinato de comerciante. (Foto: Kísie Ainoã)
Cleber de Souza Carvalho nesta manhã, quando deixava delegacia depois de depoimento em inquérito sobre assassinato de comerciante. (Foto: Kísie Ainoã)

Passados 30 dias da data de morte do comerciante José Leonel Ferreira dos Santos, de 61 anos, o autor confesso do homicídio, Cleber de Souza Carvalho, 43 anos, o “Pedreiro Assassino”, foi transferido nesta terça-feira (2) do IPCG (Instituto Penal de Campo Grande) para a DEH (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídios), para ser submetido ao interrogatório policial.

Ficou por cerca de quatro horas na delegacia, pouco mais de uma prestando depoimento. Confessou, agora formalmente, que matou José Leonel, crime pelo qual está preso. Porém, alegou ter sido em legítima defesa.

Disse ter havido uma briga, se sentido ameaçado, e ter dado uma pancada na cabeça da vítima. A versão conta por Cleber livra de participação no assassinato a esposa dele, Roselaine Tavares Gonçalves, 40 anos, e a filha, Yasmim Natasha Gonçalves, 19 anos, também presas.

O depoimento foi acompanhado pelos advogados Jean Cabreira e Paulo Macena. Foi Cabreira quem se manifestou na saída. Afirmou que, com depoimento e novas provas, começa de fato a se esclarecer o que ocorreu. “Cleber colaborou e trouxe novos elementos, com possibilidade de reviravolta no caso”, declarou.

Para ele, os novos elementos vão mostrar que Yasmim foi “induzida” a confessar o envolvimento no assassinato. No depoimento dela, a jovem disse que foi tudo premeditado.

O advogado Jean Carlos Cabreiro, que acompanhou depoimento de Cleber de Souza Carvalho na DEH. (Foto: Kísie Ainoã)
O advogado Jean Carlos Cabreiro, que acompanhou depoimento de Cleber de Souza Carvalho na DEH. (Foto: Kísie Ainoã)

As provas – De acordo o defensor, as informações trazidas agora tiram da cena do crime a esposa e a filha de Cleber. Provas nesse sentido, para ele, seriam um cabo de vassoura com vestígios de sangue e cabelo, encontrado numa casa onde o pedreiro, morava e ainda as 4 calças Cleber encaminhadas à polícia para que sejam identificados indícios que possam servir às apurações.

Cabreira não explicou, porém, nessa versão de legítima defesa, o  motivo pelo qual Cleber enterrou o corpo de José Leonel e ainda permaneceu na casa morando com a mulher e filha. O crime justamente só foi descobertos porque parentes da vítima desconfiaram do sumiço do comerciante, inclusive no WhattsApp, decidiram ir no lugar e encontraram a família na residência.

O advogado reclamou da “coleta tardia de depoimento”. Disse que foram 10 dias para isso, mesmo com o cliente participando das diligências para desenterrar corpos de outras seis vítimas até de madrugada. “Isso atrapalha o trabalho da defesa”, queixou-se.

Agora, afirmou, vai esperar  a anexação ao processo do depoimento e laudos das peças comprobatórias citadas, para decidir se vão entrar com pedido de revogação da prisão preventiva.

Sobre os outros homicídios já confessados por Cleber, o advogado foi sucinto. Segundo ele, a prioridade da defesa é o inquérito sobre a morte do comerciante, que já teve denúncia à Justiça.

Para o delegado Carlos Delano, a versão apresentada no inquérito sobre o crime contra José Leonel é "frágil", principalmente por não explicar a ocultação do cadáver e a permanência na casa.

Tentativas - O depoimento aconteceu depois o advogado pedir na Justiça o adiamento do procedimento. Alegou não ter sido avisado a tempo, apesar de o cliente estar preso há duas semanas. Solicitou, ainda, a substituição da autoridade policial responsável por ouvir o criminoso.

O argumento apresentado ao juiz Aluizio Pereira dos Santos, que decretou a prisão do “Pedreiro Assassino”, é de que o delegado Carlos Delano, titular da DEH, não deveria conduzir o interrogatório. O motivo, segundo o defensor, é a investigação contra policiais do caso por tortura aberta no Gacep (Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial), a partir de provocação dele.

Em decisão desta segunda (1) à noite, o magistrado negou o pedido e manteve tanto a data do interrogatório quanto o delegado como responsável.

Serial killer – Cleber de Souza Carvalho, segundo a Polícia Civil, confessou outros seis assassinatos depois de ser preso pela morte de José Leonel, por policiais do Batalhão de Choque, na casa de familiares no Jardim Presidente. Todos os mortos eram moradores no entorno da casa do comerciante, na Vila Nasser.

Nos outros seis casos, o serial killer indicou os locais onde estavam os corpos. Cinco estavam debaixo da terra e um jogado em poço desativado de 10 metros de profundidade.

Os outros inquéritos correm também na DEH. Só o de José Leonel foi concluído, antes mesmo do depoimento, e relatado à Justiça. A denúncia foi feita e acatada. Agora, a oitiva do réu será anexada em autos complementares, possibilidade dentro da legislação processual brasileira.

A acusação contra o pedreiro é de homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver.

Somadas, as penas possíveis pelos sete crimes atribuídos a Cleber de Souza Carvalho atingem entre 84 anos, a mínima, e 240 anos, a máxima. A lei brasileira, desde a entrada em vigor do pacote anticrime, em dezembro do ano passado, estabelece a pena máxima de 40 anos de regime fechado.