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Capital

Uso de máscara ressaltou olhar, ergueu bandeira e testou muita gente nas ruas

Você certamente já deixou de dizer “oi” por não reconhecer alguém ou cumprimentou um desconhecido

Por Paula Maciulevicius Brasil | 14/03/2021 09:16
Em Campo Grande, até estátua cumpre as medidas do decreto e tenta também cumprimentar à distância quem acredita ser amigo. (Foto: Henrique Kawaminami)
Em Campo Grande, até estátua cumpre as medidas do decreto e tenta também cumprimentar à distância quem acredita ser amigo. (Foto: Henrique Kawaminami)

Passados 12 longos meses desde o primeiro caso de covid em Mato Grosso do Sul, a gente aprendeu a mirar no olhar das pessoas, em todos os aspectos. Máscaras entraram na rotina, exigindo mais da informação que vem dos olhos. Quem não conhecia o olhar do outro, acabou confuso ao cruzar com um amigo na rua. O uso cotidiano também virou prova de respeito à saúde alheia e  levantou muitas bandeiras políticas.

Deise Girardi e seu trabalho com designer de sobrancelhas, procura por serviços no olhar aumentou 30% depois do uso obrigatório da máscara. (Foto: Arquivo Pessoal)
Deise Girardi e seu trabalho com designer de sobrancelhas, procura por serviços no olhar aumentou 30% depois do uso obrigatório da máscara. (Foto: Arquivo Pessoal)

A máscara se tornou obrigatória na Capital a partir de junho de 2020 e, de repente, o que era detalhe ficou evidente, quando só os olhos ficam à mostra. "É pelo olhar que expressamos todos os tipos de sentimentos e emoções e também demostramos se estamos felizes ou não", explica a empresária e esteticista Deise Girardi, de 42 anos, que viu os negócios crescerem 30%.

No dia a dia de atendimentos, a esteticista sente que as clientes chegam apreensivas e preocupadas com a doença e, principalmente, com a possibilidade de amigos e familiares se contaminarem. "Mas ao buscar algum tratamento para evidenciar a beleza do olhar, as mulheres usam essa atitude como um apoio e uma forma de manter o equilíbrio", sustenta.

Máscara x Política - Campo Grande não ficou de fora quando a máscara passou a refletir a polarização política vivida nos últimos anos. Um equipamento de proteção usado pelos profissionais de saúde e até mesmo por parte da população, em lugares que já viveram epidemias ou estão mais sujeitas à poluição, se transformou em crivo na cabeça de muita gente: se usa máscara é de esquerda, se não usa, de extrema direita.

O que era equipamento de proteção virou política e também serve para erguer bandeiras. (Foto: Henrique Kawaminami)
O que era equipamento de proteção virou política e também serve para erguer bandeiras. (Foto: Henrique Kawaminami)

Professor da UFMS e antropólogo, Guilherme Passamani diz que o que aconteceu no Brasil em relação ao uso da máscara está relacionado à forma como as autoridades políticas conduziram a pandemia, minimizando a doença.

"E nós levamos para o campo da saúde e da forma de olhar a pandemia a polarização política que nós temos desde 2014, como se a máscara fosse algo de esquerda ou o não uso algo dos seguidores do presidente, o que é uma coisa descabida. Se criou uma falsa impressão de que a máscara é política. Se a autoridade de saúde diz que tem que fazer assim, porque tem uma série de recomendações médicas para isso, todo mundo tem que fazer", defende.

Guilherme Passamani colocando a máscara no Miradouro de São Pedro de Alcântara, Bairro Alto, em Lisboa. (Foto: Arquivo Pessoal)
Guilherme Passamani colocando a máscara no Miradouro de São Pedro de Alcântara, Bairro Alto, em Lisboa. (Foto: Arquivo Pessoal)

Antes de se mudar para Lisboa, Portugal, para o doutoramento em Antropologia no Instituto Universitário de Lisboa em associação com a Universidade Nova de Lisboa, o professor sentiu na pele a experiência de ser encarado por estar usando máscara no Centro da cidade, ainda em Campo Grande.

"Em função da viagem, tive que resolver algumas coisas no Centro, eu saía de máscara e achava muito estranho que muita gente andava sem ou usava de maneira equivocada e elas olhavam para mim de um jeito muito desconfiado ou irritadas talvez porque eu estivesse de máscara. Como se eu estivesse sendo equivocado", observa.

Recorrendo, claro, à Antropologia, o professor explica que roupas e acessórios não têm apenas um uso em si, como por exemplo para proteger do frio ou calor ou cobrir o sexo, ela também é um artefato que diz muito da cultura. "Nós informamos as outras pessoas sobre aquilo e neste sentido, talvez, no caso específico do Brasil, a máscara possa também se enquadrar nessa categoria, ela foi politizada", afirma.

Na visão do professor há, sim, em determinadas situações, até um certo orgulho em não usar máscara, no que ele classifica como uma "tentativa de se mostrar mais forte e superior ao vírus e à doença".

Flerte - Reconhecer alguém por trás da máscara virou desafio que pode gerar histórias engraçadas. Ou você cumprimenta estranhos pensando serem amigos ou passa reto por rostos familiares escondidos.

Escritores, logo no início da obrigatoriedade da máscara, André Luiz Alves e Lucilene Machado se encontraram na espera de um consultório médico, na Capital. Quando ele chegou, ela já estava aguardando e de cara reconheceu o amigo de tantos anos.

André e Lucilene em encontro posterior à cena do consultório médico. (Foto: Arquivo Pessoal)
André e Lucilene em encontro posterior à cena do consultório médico. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Parece o André, eu pensei. Ele olhou pra mim, não me cumprimentou nem nada. Eu fiquei olhando firme para ver se era ele. O André até pensou que fosse um flerte", conta aos risos.

A escritora seguiu encarando para ver se o amigo o reconhecia pelo olhar, o que não aconteceu. "Quando ele olhou de relance, acho que para ver se eu ainda estava olhando, eu falei: 'André...' aí ele levou um susto e disse que não estava me reconhecendo", recorda.

Essa foi a primeira vez que a máscara tornou o rosto dela desconhecido para amigos. A explicação para isso, Lucilene acredita que seja o nariz que fica coberto. "Acho que é a minha marca mais forte, porque depois do André, outras pessoas também não me reconheceram, mas aí eu já fui atrás dando início a um diálogo para a pessoa perceber que sou eu pela voz, como ele me reconheceu", exemplifica.

A tática vem dando certo e esses dias Lucilene até foi interpelada por uma conhecida. "Ela me disse: 'você me reconheceu mesmo de máscara?'" Por se considerar uma boa fisionomista, a escritora consegue enxergar rostos familiares mesmo atrás da máscara. "E eu falei que estava reconhecendo ela normalmente, nem me dei conta de que ela estava de máscara. Depois de um ano usando, acho que ficou mais fácil", pontua.

Produtor e músico, Heitor começou a observar as pessoas além da máscara. (Foto: Arquivo Pessoal)
Produtor e músico, Heitor começou a observar as pessoas além da máscara. (Foto: Arquivo Pessoal)

Além da máscara - O tempo traz mudanças e, na pandemia, adaptações forçadas ou nem tanto. Músico e produtor audiovisual, Heitor Medeiros, de 33 anos, prefere dizer que já que está todo mundo de máscara, o que lhe resta é tentar se ater aos demais atributos além do rosto de alguém.

"O jeito de andar, de se mover e, principalmente, do olhar. Percebi que conheço você independentemente de você estar de máscara, porque existe um monte de outras coisas que te fazem ser quem você é", reflete.

Quer um exemplo prático? Para ver sorriso, ninguém precisa tirar a máscara. "Vemos quando alguém está sorrido, porque os olhos sorriem também e acabou que comecei a observar as mãos, o comportamento, a agitação ou a paz. As pessoas falam o tempo todo através de outras coisas, e um olhar atento te faz ver coisas novas nas pessoas e principalmente te abre os olhos pra coisas novas no dia a dia que paramos de reparar".

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