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Comportamento

Só a morte separou músicos que se apaixonaram no Trem do Pantanal

Lidiane partiu, mas Lauro guarda amor que nasceu em um vagão há 48 anos

Por Natália Olliver | 19/03/2026 08:38
Só a morte separou músicos que se apaixonaram no Trem do Pantanal
A dupla se conheceu em um trem e ficou casada por 48 anos; Lidiane faleceu nesta semana (Foto: Arquivo pessoal)

Quem olha a capa já amarelada do 1º LP da dupla sertaneja Lauro Ney e Lidiane não imagina que ali dentro mora uma vida inteira. Isso porque a música era a vida dos dois até mesmo depois da morte. Sebastião Rosa da Costa, 71 anos, e Maria Aparecida Bentos da Costa, 68, foram casados por 48 anos. O romance começou em um cenário improvável que se tornaria histórico: o Trem do Pantanal. Desde lá nunca mais se separaram até esta semana, quando Maria se foi.

RESUMO

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O casal Sebastião Rosa da Costa e Maria Aparecida Bentos da Costa, conhecidos artisticamente como Lauro Ney e Lidiane, construiu uma história de amor e música que durou 48 anos. O encontro ocorreu no Trem do Pantanal, onde se apaixonaram e formaram uma dupla sertaneja que gravou dois CDs e diversas músicas autorais. Maria faleceu esta semana após complicações cardíacas, deixando um legado musical e memórias afetivas. O casal, que se apresentava regularmente mesmo com as limitações de saúde, teve dois filhos, sendo que um deles seguiu a carreira musical, inspirado pelos pais. Sebastião, aos 71 anos, mantém viva a memória da esposa através das músicas que compartilharam.

Por lá, além do violão, ficaram as 15 canções autorais, o amor por estarem juntos e o companheirismo. Como Sebastião, sentado na cadeira da varanda, disse: “Ela continua inteira dentro de mim”. Dos vagões daquele trem, os dois saíram praticamente namorando.

A despedida foi rápida. Depois de anos lidando com problemas de saúde que começaram com questões emocionais e avançaram para os rins, a morte veio por causa do coração. Sebastião ficou viúvo em menos de 24 horas, um dia depois do próprio aniversário. Nem os parabéns conseguiu ouvir da esposa.

Maria passou mal no dia e achou que voltaria para dizer ao marido "feliz aniversário". Não deu tempo, teve uma parada cardíaca, resistiu ainda a uma terceira tentativa do corpo, mas não suportou.

Só a morte separou músicos que se apaixonaram no Trem do Pantanal
Só a morte separou músicos que se apaixonaram no Trem do Pantanal
Anos depois, a dupla reviveu parte da história romântica no vagão do Trem do Pantanal, em Campo Grande (foto: Juliano Almeida e arquivo pessoal)

"Eu tinha outro parceiro que cantava comigo, na época tinha 19 anos. Pegamos três dias de festas para tocar em Miranda e fomos de trem. A fazenda era do tia dela e lá nos conhecemos. O pessoal pediu para gente cantar. Ela estava com o irmão e cantou com ele uma música do Délio e Delinha e quando ela cantou eu pedi pra cantarmos juntos, queria ver como ficava. Depois disso falei para o meu parceiro procurar a metade da laranja dele que a minha eu tinha achado".

Na primeira apresentação juntos, eles já estavam noivos. Foi amor à primeira vista. O nome da dupla foi inventado pela esposa e Sebastião adorou a ideia. O objetivo era que fosse harmônico e ficasse na cabeça das pessoas.

Foi em 1980 que eles entraram no estúdio, em São Paulo (SP), para gravar o primeiro LP da dupla. O sonho era grande, mas o caminho, nem tanto. “A gravadora era pequena, o recurso era pouco… e a gente não teve aquela divulgação que precisava”, lembra.

Só a morte separou músicos que se apaixonaram no Trem do Pantanal
Só a morte separou músicos que se apaixonaram no Trem do Pantanal
Sebastião guarda ainda 1º violão que ganhou do pai (Foto: Arquivo pessoal e Juliano Almeida)

Entre idas e vindas, portas abertas e outras nem tanto, a dupla construiu a carreira quase sozinha. “A gente ia pras rádios, levava o disco, pedia pra tocar. Algumas tocavam, outras não. Mas a gente nunca desistiu do nosso sonho”.

Vieram shows pelo Estado, viagens, apresentações em casas de amigos, aniversários e churrascos, onde houvesse alguém disposto a ouvir, eles estavam lá. Inclusive, Maria cantou até os últimos dias, junto com o marido e um dos filhos, que também é músico. Eles tiveram dois filhos, um menino e uma menina.

Ainda tentando acreditar, Sebastião conta que vira e mexe chama por ela pela casa. A ausência é um sentimento novo para ele, que sempre fez questão de compartilhar tudo com a esposa.

"Participamos de 15 shows no estado. Depois, fomos para São Paulo (SP) e gravamos a música originalmente intitulada ‘Dois Destinos’ no LP chamado ‘Dois Destinos’. Ao longo dessa vida, gravamos dois CDs. Temos poucas músicas próprias; a gente cantava as dos outros. As nossas músicas gravadas foram ‘Cenário Sul-Mato-Grossense’, ‘Dois Destinos’ e ‘Noite de Prazer’."

Para ele, fica tudo para a esposa. "Ela era tudo. Fica ela dentro de mim pro resto da vida. Tem hora que parece que vou chamar o nome dela. Fico feliz com a alegria que ela ela me deu na vida. Fomos muito felizes. nem sei como estou de pé."

Entre uma lembrança e outra, ele tenta organizar o que ficou. Não é pouco. É quase tudo. “Eu me sinto feliz, né? Porque é a pessoa que Deus preparou para cantar comigo ao longo de todos esses 48 anos”.

Só a morte separou músicos que se apaixonaram no Trem do Pantanal
Só a morte separou músicos que se apaixonaram no Trem do Pantanal
O casal estava junto há 48 anos e era "unha e carne", segundo Sebastião (Foto: Juliano Almeida)

O filho, Wesley Samuel Bentos da Costa, lembra que havia um pedido claro, quase um pressentimento. “Ela saiu daqui falando assim: ‘Ó, eu não quero sofrer no hospital. E não me deixem entubar, ficar usando fralda. Se for para acontecer isso, eu quero que Deus me leve’”. E foi assim.

O filho conta que entrou para o mundo da música por conta dos pais, principalmente por ela. Wesley tem uma dupla chamada Lucas e Lauan. Para ele, os pais não foram valorizados no cenário musical como deveriam. Ele atribui isso à falta de incentivo e de oportunidades.

"Na época deles, eles eram muito bem valorizados. Mas meu pai conseguiu comprar carro, casa, terreno, apartamento. Conseguiram bastante coisa, mas eu acho que poderia ter conseguido bem mais se as pessoas tivessem apoiado mais. Acho que rolou uma injustiça, sim".

Só a morte separou músicos que se apaixonaram no Trem do Pantanal
Wesley Samuel Bentos mostra material musical dos pais (Foto: Juliano Almeida)

Maria dizia que a felicidade dela era cantar porque assim esquecia do mundo. Segundo o filho. E esquecia mesmo. Mesmo doente, mesmo com dor, ela insistia em subir no palco improvisado da vida. “Eles montavam mesmo debilitados, mesmo com dor, eles iam, cantavam, não tinha hora para acabar. Era a maior felicidade”.

Para Sebastião, a lembrança da companheira passa, inevitavelmente, pela música. “Minha esposa é uma pessoa que não tinha ninguém que achava nada dela, porque ela era muito alegre,  se dava muito bem todo mundo. Fazia amizade facinho com as pessoas".

Para Wesley, o que fica da mãe são as inúmeras memórias, a casa cheia de lembranças, que hoje estão em caixas devido a uma mudança e a própria herança musical que ela deixou. Além do caráter.

“Eu nunca fiz aula de canto, nunca fiz aula de violão. Tudo que eu aprendi foi ali, ouvindo eles trabalhar.  A minha mãe mesma, quando eu. tinha 9 meses, me levava para os shows. Eu ficava em cima do palco. Devo muito a eles.

Ele relembra os momentos que dividiu um palco improvisado com os pais cantando sertanejo antigo. "Sou apaixonado nas coisas antigas e ouvindo eles, é bárbaro! Se você ouvisse aqui, sentado nessa varanda aqui,  iria ficar abismado o tanto que eles tinham talento e o tanto que era sincronizado. Então, assim, a gente cantava muita música raiz."

Hoje, a casa simples onde Maria viveu segue de pé. Cheia de memórias. Cheia de música. E cheia de uma ausência que ainda ecoa. Sebastião tenta seguir a rotina, faz café, leva o neto na escola , mas o silêncio pesa.

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