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Capital

Viúva acusa hospital de transfusão errada: "acabaram com a vida dele"

Quase 3 meses após a morte de Marcio Antônio Pereira, família ainda luta na justiça para ter laudo médico

Por Alana Portela | 03/03/2021 13:52
Marcio Antônio Pereira era uma pessoa sorridente. (Foto: Arquivo pessoal)
Marcio Antônio Pereira era uma pessoa sorridente. (Foto: Arquivo pessoal)

“Acabaram com a vida do meu esposo”, essas são as palavras de revolta que causam dor e sofrimento a família da costureira Sebastiana Aparecida Gonçalves. Isso porque, há três anos ela viu a vitalidade Marcio Antônio Pereira se perder após ele ser submetido a uma transfusão de sangue errada no Hospital Universitário de Campo Grande.

O erro teria acarretado sequelas e mudou a trajetória do marido que morreu aos 56 anos idade. “Lembro como se fosse hoje. Ele deu entrada no hospital com falta de ar. No dia seguinte disse que estava bem, respirando melhor e depois foi parar na UTI (Unidade de Terapia Intensiva)”, recorda Sebastiana.

Aos 58 anos, a costureira relata o drama que a família tem vivido nos últimos anos. Tudo começou após o marido sofrer uma queda e ser diagnosticado com insuficiência cardíaca.

 “Há seis anos, ele caiu da escada e ficou sentindo dores no peito. Fez exames que mostraram que o coração estava inchado e não poderia mais trabalhar por conta da insuficiência cardíaca. Chegou a fazer cateterismo”.

Depois disso, Marcio se aposentou para cuidar da saúde, que era instável. A esposa recorda que o marido passava mal e precisava de assistência médica com frequência, por isso, costumava ir até HU.

Em outubro de 2017, Marcio estava com dificuldade para respirar, sentia-se fraco e foi até o hospital, onde ficou internado recebendo atendimento. No dia seguinte, Sebastiana foi ver como o marido.

“Quando fui visitá-lo, estava na ala verde, disse que se sentia melhor. Depois disso, foi parar na ala vermelha onde ficou 33 dias na UTI”, recorda.

Marcio Antonio precisou usar fralda depois de receber a transfusão errada. (Foto: Arquivo pessoal)
Marcio Antonio precisou usar fralda depois de receber a transfusão errada. (Foto: Arquivo pessoal)

Segundo Sebastiana, nesse tempo, Marcio foi submetido a uma transfusão sem prescrição médica e com a tipagem sanguínea errada, já que o marido era A e teria recebido 400 mililitros sangue do tipo B. “Uma enfermeira estava com uma prancheta e foi até meu esposo. Depois disso, ele foi encaminhado para a ala vermelha e daí por diante, foi só luta”.

Sebastiana relata que o tempo em que o esposo ficou na UTI, recebeu vários medicamentos para reverter a situação ocasionada pela transfusão errada, já que o corpo estava rejeitando o sangue recebido.

“Tomou muitos remédios que foram atacando os órgãos dele. Um monte de problemas foi ocasionado em decorrência do procedimento. Depois disso meu esposo não foi o mesmo”.

Passados dos 33 dias, Marcio teria recebido alta e a partir disso, iniciou a saga “casa e hospital”. “Desenvolveu hepatite C, ficou a base de remédios e foi se acabando. Sempre tinha que levá-lo num posto de saúde e de lá, esperar uma vaga no hospital para que pudesse receber atendimento e melhorar”.

Foram várias as idas e vindas nos postos de saúde, que na maioria das vezes, encaminhava Marcio para o Hospital Universitário. “Os médicos diziam que não tinha mais nada para fazer, que não era mais para leva-lo lá, apenas se infartasse ou entrasse em coma”.

Três anos depois da transfusão errada, Marcio piorou. “No dia 11 de dezembro de 2020, ele não conseguia mais comer, nem andar. Liguei para o Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência], eles acionaram um médico que chegou numa outra ambulância e levaram meu esposo”.

Dois dias depois Marcio morreu e deixou a família devastada. “Acabaram com a vida do meu esposo. Cuidei dele até o último momento”.

Marcio Antonio ao lado da esposa Sebastiana Aparecida Gonçalves. (Foto: Arquivo pessoal)
Marcio Antonio ao lado da esposa Sebastiana Aparecida Gonçalves. (Foto: Arquivo pessoal)

Foram 33 anos de casamento, três filhos e um buraco no peito que não vai cicatrizar tão cedo.

“O sentimento é que não se importaram com a vida do meu esposo. Não deram a mínima, nem trataram como ser humano”, lamenta Sebastiana.

Processo – Após o esposo receber a transfusão errada, Sebastiana entrou com um processo contra o Hospital Universitário de Campo Grande. “A morte do meu esposo não tem preço, ele não vai voltar. Agora estou viúva. Entrei na justiça porque é nosso direito”, afirma.

Revoltada, Sebastiana é enfática ao falar em fazer justiça em memória do marido. “É uma situação que precisam rever, pagar pelo erro que fizeram. Ele não precisava daquela transfusão”.

Impasse – Já com o processo contra o hospital instaurado, o advogado da família, que prefere manter a identidade preservada, fala da dificuldade em conseguir um laudo médico do falecimento de Marcio. “A gente precisa de um laudo, ainda estamos nessa fase”, diz.

Conforme o advogado, o juiz que está cuidando do processo acionou alguns médicos hematologista de Campo Grande para que fizessem o laudo, porém, até agora ninguém aceitou. “Até aumentou o teto de honorário para que um hematologista fizesse o laudo, mas continuam negando”, completa.

Sem conseguir o retorno esperado, a acusação chegou a solicitar a autorização da justiça para que um hematologista de fora do Estado pudesse fazer o laudo de Marcio. “Pedimos a intimação de alguém de fora, mas foi negado”.

Depois disso, o advogado conta que a justiça então acionou o Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul, pedindo uma lista com os nomes dos especialistas na área para acionar um por um. “Isso pode demorar anos e o Marcio já faleceu”, declara.

“A perícia é a primeira coisa que a gente precisa continuar ao processo”, explica o advogado. Já se passaram quase três meses do falecimento de Marcio, que continua gerando angústia e tristeza na família que agora cobra uma resposta do hospital.

A reportagem também entrou em contato com o HU, porém foi informada pela assessoria que, como o caso está judicializado, todas as respostas sobre serão dadas unicamente dentro do processo.

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